
Imagine uma brisa suave, soprando sobre o arvoredo de um antigo arrabalde, com raras casas, protegidas apenas por cercas vivas, sem muros, sem grades.
Imaginou?
Agora, caminhe, mentalmente, por ruas de terra e pela antiquíssimas estradas carroçáveis que levavam a engenhos extintos…
No horizonte, a perder de vista, a Mata Atlântica, viçosa e altaneira.
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Finalmente, pense no que vê hoje.

A especulação imobiliária, regida pelo grande capital, que vai transformando em concreto tudo o que era verde, é o que se vê.
É uma invasão, antecipadamente planejada, não mais com os arcabuzes e canhões dos holandeses, mas, com as mais modernas técnicas de marketing, ou melhor, de place branding.
Como assim?
Já explico:
Quem lembra de uma consultoria de São Paulo, que chegou aqui, há uns 3 anos, em plena pandemia?
Chamava-se, muito ironicamente, Place for Us.
Era um grupo de jovens arquitetas, designers e publicitárias, que dizia estar a serviço dos Brennand.
Lembram agora?
Eu os recebi no Arruado do Engenho Velho, onde ainda morava, naquele ano estranho, de isolamento social.
Perguntaram pra mim, entre outras coisas, qual era a vocação da Várzea. Disseram querer capturar a alma do lugar.
Eu, ingenuamente, falei:
A cultura popular.
E arrematei:
Se eu fosse um Brennand, investiria nos artistas da Várzea.
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Soube, depois, que essa consultoria entrevistou pessoas nos quatro cantos do bairro.
Qual era o propósito disso?
Vou copiar um trechinho da página da Place for us, que mudou de nome, agora é P4US:
“A alma do lugar é o que realmente nos conecta com ele. É geralmente ela que nos faz optar por um lugar ao invés de outro.“
Sacaram?
Tem mais:
Fortalecemos lugares identificando suas vocações, trabalhando as identidades culturais e engajando moradores e stakeholders em torno de uma ideia comum, poderosa e transformadora.
E, finalmente, a segunda intenção, por trás das perguntas:
Criamos o “match” entre marca e cidade, compreendendo como as características dos lugares são capazes de reforçar as características da marca, criando experiências positivas e transformadoras para as audiências.
Para eles, o lugar é como uma marca, um produto a ser consumido pela “audiência.”
Audiência aqui é o público interessado em comprar imóveis nesse lado da cidade.
Agora, entram os empreendimentos imobiliários dos Brennand:
Um grande condomínio está sendo erguido entre os 7 Mocambos e o Museu do grupo Ricardo Brennand:
O Condomínio Iron House.
Desde então, a cultura popular varzeana está inserida nas ações e eventos trazidos para cá pelo Condomínio Iron House. Festejos, como o São João, Carnaval, o Festival Azougue e até um grandioso cineclube ao ar livre, tudo, tudo, tudinho, patrocinado e produzido pelos construtores dos novos prédios. A juventude enche a praça do Rosário, cheia de alegria. É a alegria dos novos moradores, que não sabem do poço de Siá Rosa, nem o porquê da rua Mário Campelo ter sido rua da Levada, nem da jaqueira de Siá Feliciana, das mangueiras de Seu Paulinho, lá no Engenho Velho, das macaxeiras de Seu Pedro, das baias de cavalos de montaria de Chico de Melo, das bodocadas certeiras de Tio Bonifácio…
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A Mata do Segredo ainda resiste, mas uma ilha de calor vai ser erguida em sua margem.
E a Várzea do Capibaribe, do mestre Zé Lascavara, de Seu Dida da Burra, e de outros mestres e mestras antigos, vai ser mesmo transformada numa espécie de Várzeatown.
Em pouco tempo, a velha Várzea, suburbana e bucólica, já não existirá. Em seu lugar estarão as torres imponentes da nova Várzea de luxo, a Várzeatown.


Vejam as conclusões da consultoria P4US:
Um lugar só é vibrante na medida que as pessoas se apropriam, reconhecem e o utilizam, para que isso aconteça é fundamental que o espaço público faça um convite a essa ocupação e convivência.
É isso!
É bronca, o resultado disso é gentrificação