

Quando se escreve um texto curto sobre um fato do cotidiano, a meu ver, ficam ocultos detalhes importantes do caso.
Assim se deu com a crônica “Morte no Magitot”, em que apresentei, apenas e resumidamente, o fato, sem questionamentos e, até, omitindo informações que, se escritas, tornariam o texto longo e cansativo.
No entanto, é necessário e vital que se lancem algumas questões sobre aquele cruel assassinato no Magitot.
Cleonice tinha família? Tinha mãe? Talvez, um pai ausente, como é comum no nosso (i)mundo patriarcal?
A Várzea é relativamente pequena, todo mundo conhecia Nice. Ouvi várias versões sobre a infância dessa menina. No borracheiro da esquina da Rua 6 de Março; no restaurante em que almoço; no Arruadinho da UFPE. Ouvi estudantes, artistas, donas de casa, moradores e moradoras preocupados.
A Várzea falou.
Escutem:
1- Cleonice não nasceu de chocadeira, tinha mãe e pai, mas, para sua desgraça, nasceu numa família desprovida de tudo.
2- Ultimamente, andava com uma faca, “ameaçando” as pessoas.
(Meu Deus! O que é uma faca nas mãos magérrimas de uma jovem desnutrida e adoecida pela drogadição?)
3- Cleonice não teve infância e alguém me disse que ela teve de se prostituir antes da menarca. Vou dizer, com as palavras de um idoso, morador antigo da Várzea:
Mal nasceram os pelos no xibiu, ela já foi empurrada para a prostituição.
***
Como seria a mente, a alma, de uma menina assim? Alguém espera que ela tivesse os nossos escrúpulos, os nossos freios morais?
***
(Quando me falaram da faca de Cleonice, eu lembrei da rosa do Pequeno Príncipe:
Como vais te defender dos predadores? Perguntou-lhe o pequeno príncipe, ao decidir viajar.
Eu tenho meus espinhos! Respondeu a rosa, cheia de si…)
***
Em um tempo de pistolas automáticas, devia ser o desespero daquela menina, o que a levou a tentar se defender com uma faca de mesa.
Encerro essa crônica, com uma lágrima escorrendo na face…
E lhes deixo algumas perguntas:
Dá pra reduzir os danos que a miséria (e a droga) ainda causam aos demais membros da família de Nice?
Como?
O que faremos?