Morte no Magitot

Perambulam pelo campus, muitas meninas, como ela. Raquíticas, famélicas, a esmolar para manter o vício das drogas.

Eu a conheci numa das idas ao Arruadinho, para alimentar meus gatinhos de rua.

Ela me pediu comida.

Só tenho ração pra gatos. Mas, amanhã, prometo que trarei biscoitos, ou qualquer comida, pra você. Do jeito que dou comida a gatos, também dou a pessoas em situação de rua.

Ela riu. Uma carinha de menina, frágil e sem rumo.

Nada! Já tenho 20 anos e dois filhos lindos.

Mentira… pensei, calculando pela sua aparência.

E me fui…

Dias depois, numa rua estreita da Várzea,  caminhava distraído, na mão, uma quentinha  pro almoço:

Moço, me dê essa comida!

E, com surpresa:

O senhor é o homem dos gatos do Arruado, né?

Estendi a mão com a quentinha.

Tome!

Ela pediu outra. Era pra seus filhos.

Só tenho essa!

Como é mesmo seu nome?

Cleonice.

Bem, Cleonice,  até mais ver!

Não a veria mais.

Há dois dias, o rádio, fim de tarde, deu uma notícia breve:

Cleonice de Tal foi arrastada pro casarão da Várzea e assassinada com dois tiros.

Magitot

O casarão Magitot fica a duzentos metros de minha casa. Ali, junto da praça, onde, nesse momento rapazes e moças estão reunidos a cheirar cola de sapateiro.

Foi morte encomendada, disse um transeunte, na rua da Feira. Ela furtou um morador do bairro e ele pagou matador para fazer isso.

Bem feito! Disse uma vizinha. Ela vendeu uma das filhas por 300,00 reais.

***

Nada justifica a morte de uma menina de rua. Fica um sentimento de impotência, de nada estar fazendo pra mudar esse estado de coisas.

Muito triste!

Espero que estejas em Deus, Cleonice, pois dizem que é das crianças o reino dos céus…

One reply to “Morte no Magitot”

  1. Muito triste esse sentimento de impotência e a velocidade que esse mal avança. As drogas tem destruído muitos lares. Compartilho do mesmo sentimento mestre Lula.

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