Medo e Arquitetura

Casario atual
Casario em 1990

Há um lugarejo, escondido no campus da UFPE, cá no Recife, que ainda tem cercas vivas, sejam crotes ou papoulas, ou, as duas, há uma casa sem muro, cercada por essas plantas. Dizem até, que ali se pode deixar roupas no varal, que ninguém furta.

Exagero ou não, no Arruadinho do campus, até um dia desses, nem grades nas casas havia.

Basta ver as duas fotos acima. Casas de porta e janela, como no interior, e as fotos recentes, com a construção de terraços gradeados.

Grades do medo. Mas, não medo de ladrões.

Foi o medo do esbulho.

Já explico.

Creio que em meados do século XX, década de 1990, não recordo bem, a Universidade Federal de Pernambuco entrou com uma ação de reintegração de posse contra os moradores do velho Arruado. Já lhes adianto que foi infrutífera, pois a UFPE não conseguiu provar em juízo sua posse anterior à dos moradores. Resultado: ação arquivada.

As grades, as lamentáveis reformas nas fachadas das casas construídas pela Usina Meio da Várzea (1904-1934), atenderam uma sugestão do advogado dos moradores. A intenção era boa, mas, pessimista e intempestiva.

Façam melhorias em suas casas, pois, se perdermos a causa, maior será a indenização.

Claro que as casas ficaram mais seguras e confortáveis, com os terraços, mas, a originalidade do casario de operários de usinas, foi pro brejo.

O medo dos nativos era imenso, e Dona Biu, 101 anos, tia-avó do advogado, tinha pesadelos com um caminhão preto, vindo buscar seus móveis.

É, portanto, compreensível a orientação do doutor Amarino, esse é o nome do defensor dos moradores, na ação de reintegração de posse impetrada pela UFPE.

O medo da perda foi maior do que as recomendações do IPHAN.

É isso.

Ou, foi isso.

(Essa brevíssima crônica vai dedicada ao Victor Amaral, estudante de jornalismo da UFPE, que me fez perguntas sobre a arquitetura do Arruadinho. )

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