Eu e os gatos, no ventre de Deus – N. 1

Há, nesses tempos, uma fome de externalidades, uma fome de alma esvaziada. Se nada de dentro te sacia, essa fome surge, perturbadora.

Eis uma fome cultural, se assim se pode afirmar. Fome imensa. Espinoza a chamaria de afecção da alma. Dizem seus críticos, (os dele, do Espinoza) que ele dizia isso do próprio Deus. Que Deus não cabia em si e criou o exterior por conta dessa fome, dessa afecção primordial e o Uno, indivisível, dividiu-se.

Pronto!

Deu-se a merda!

Mas, claro, que o Benedito não disse isso. Muito pelo contrário, Deus não pode, segundo ele, ter nada “fora Dele”. Deus é um dentro e Nele “nos movemos, vivemos e existimos “, como disse São Paulo, em Atos,  17.

Estamos, pois, dentro de Deus.

Dizia isso a um amigo, numa caminhada pelas alamedas da UFPE, manhã cedinho, na direção do Arruado. Os galos cantavam cheios de energia, os marrecos dos Brennand, respondiam, em revoada, com grasnidos estridentes.

São jandaias, seu Lula, um pouco maiores do que os periquitos e, menores do que os papagaios, retrucou o meu,  peripatético, acompanhante.

O amanhecer estava quieto, e, eu, andava sossegadamente, em minha rotina habitual. Gostava disso, dessa rotina, e vinha toda manhã alimentar meus gatinhos do campus.

Na barraca de lanches de Seu Ontonho, um rádio barulhento, quebrava a amanualidade da manhã.

Seu Lula!

Oi, Tonho!

Já soube da novidade? Os russos acabaram de lançar uma ogiva nuclear sobre Kiev.

Não acredito!

O mundo vai acabar, Seu Lula?

Talvez, Tonho. Os USA já revidaram?

Ainda não! Mas o Trump está furioso!

Deixa Deus trabalhar, Antônio!

Disse isso e dobrei a esquina , adentrando o Arruadinho. Logo, meus gatinhos fizeram aquela roda em derredor. Família, eis a palavra que me ocorreu. Eis, à minha volta, os seres mudos a que o Mahatma Gandhi se referia, ao defender sua veneração pelas vacas. 

Seres mudos, mas, pensantes.

Se não acreditam que os bichos pensam, nem prossigam com essa leitura.

Só quem convive, amiúde,  com eles, sabe de seus pensamentos e de seus afetos.

Estamos juntos, no útero de Deus, de Gaia, eu e meus gatinhos de rua. Temos nossos códigos secretos. Temos uma rotina que beira o TOC. Se me atraso meia horinha, eles ficam perdidos. Mas há os que me procuram pelos pontos de ração, até me encontrar.

Se paro pra conversar, na porta de alguma casa, a falar do tempo, da saúde, do mormaço, logo alguns me acham e sentam naquela pose de oráculo, pequenos budas, e fixam seus olhos em mim. Eu sei o que dizem seus olhinhos:

Seu Lula, o senhor está alterando nossa rotina. Volte ao seu trajeto, faça favor!

Creiam, assim que me volto ao caminho eles se adiantam e se dirigem ao próximo ponto de alimentação.

Ora, direis, são instintos. Mas o que mais são os instintos, do que uma inteligência aperfeiçoada por milhares de anos, geração por geração.

Os instintos são mecanismos da inteligência que abreviam tomadas de decisão que prescindem da razão, mormente em momentos vitais, que podem representar estar vivo ou morto.

Vejo os filhotes a brincar de subir nas árvores, upa!, upa!  Um saltinho, dois, e estão lá no alto, a salvo dos predadores. Pensam rápido e antecipam, instintivamente, (automatismos inteligentes), os perigos futuros. São prescientes, os felinos.

Vejo-me entre eles, nos olhamos, curiosos, acostumados com a nossa diferença, nosso jeito, mas, admirados, sempre, com esse estar juntos no ventre do Deus espinozano, que muitos chamam Natureza.

É isso…

Depois retomo essa prosa.

One reply to “Eu e os gatos, no ventre de Deus – N. 1”

  1. Muito bom ler seu passeio cotidiano que cuida da vida da Várzea Velha. Esses gatinhos são seres sencientes e lembram de São Francisco todo dia ao encontrar com o senhor.

Deixe um comentário

close-alt close collapse comment ellipsis expand gallery heart lock menu next pinned previous reply search share star