O Grugrúi e o acordo MEC-USAID

Era o ocaso da década de 1960. Eu, menino ainda, acabara de ingressar no Ginásio Pernambucano, depois de um concorrido exame de admissão. Um universo se abria pra mim. E hoje ainda ecoam lembranças daquela aprendizagem dentro e fora da sala de aula. Isso mesmo!

Pois foi ali, na calçada da rua da Aurora, que descobri, ingênuo que eu era, a causa política de algumas coisas estranhas que ocorriam lá no meu bairro. Por exemplo:

Meu pai ficou desempregado e eu aprendi a comer arroz branco com ovo, que eu detestava. Mas essa não é a pior lembrança daquela fase ruim. Minha me obrigava a ir até um casarão na rua Barros Rego, em Tejipió, pra buscar uma tal farinha nutritiva e o tal grugrúi, da América do Norte. Esse grugrúi era nosso pesadelo. Lembro dos meus amigos mais ricos (ou, menos pobres), caçoando de nós, os meninos mais pobres, com nossas sacolas cheias do grugúi americano. Na saca de grugrúi tinha o desenho de uma mão branca apertando uma mão preta, com os dizeres: Aliança para o Progresso.

Foi ali, na calçada do Ginásio Pernambucano, que recebi um panfleto, distribuído pelos alunos dos cursos, Científico e Clássico (nosso 2° Grau). O tal panfleto denunciava um acordo MEC/USAID, que mexeria no nosso ensino básico, para formar mão de obra para as multinacionais. Os rapazes distribuíam os panfletos e fugiam. Daí a poucos surgiam os agentes da repressão.

Era essa tal de USAID que doava o  famigerado grugrúi, espécie de esmola, que tanto nos envergonhava, nos subúrbios.

Hoje, ao ver o plutocrata que governa os EUA, acabando com a USAID, penso na pobreza do terceiro mundo, nos rincões da periferia do império. Quantas crianças famintas não receberão o grugrúi do “generoso povo americano”, que nos envergonhava mas, matava a nossa fome.

Posto que, mesmo as migalhas dos opulentos capitalistas precisam ser poupadas para formar superávit primário nos cofres do odiento Tio Sam.

Que espécie de ogro tão perverso e infame os americanos do norte elegeram?

Pois até o grugrúi dos famintos esse tirano ridículo cortou, numa canetada.

Haja Deus!

Deus?

Onde estás que não respondes?

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