O Zeus Azul

Teyu’piog parecia uma cidade do interior, esse arrabalde antigo, no caminho secular que levava aos engenhos de Jaboatão, e que preserva, até hoje, o ar bucólico e silencioso das vilas coloniais; quietude, vez em quando, perturbada pelo barulho das locomotivas da ferrovia central da Great Western of Brazil Railway Company Limited, que cruzava o oeste do Recife.

Nesse lugarejo, pelos idos de 1950, moravam diversos ferroviários estrangeiros,  ligados ao serviço da “Gretoeste”, como pronunciava a população local.

Konrad Spencer era um desses estrangeiros. Um pacato descendente de duas famílias europeias, mãe, francesa, pai, inglês;  Konrad era um mecânico de locomotivas, porém,  aficcionado por automóveis, desde criança.

Sucata de DKW do Konrad

Não era apenas um aficionado dos automóveis, era mais do que isso. Era um entusiasta, um fanático, um adorador!

Um causo verídico do Konrad me foi contado por um vizinho antigo, da rua XV de Novembro. Chamava-se Faustino e era o responsável pela capelania da Igreja dos Ingleses, uma espécie de sacristão, sei lá. Faustino era também chauffeur particular do líder episcopal, Dom Henry Brayner.

Igreja Anglicana – 1940

Certa manhã de segunda-feira, nos idos de 1960, o bispo entrou no carro e disse:

Leve-me a Teyu’piog, mister Faustino!

Era uma visita canônica.

Seguimos por Afogados e em meia hora, chegamos ao arrabalde de Teyu’piog.

Paramos em frente de um palacete avermelhado, prédio antigo, numa curva da Av. Dr. José Rufino, que resiste até os nossos dias, mas foi pichado pelos vagabundos que andam a enfeiar nossas fachadas centenárias.

No trajeto, Dom Henry foi falando do que se trataria naquela visita.

Vou visitarr um ovelha desgarrada, Mr. Faustino. Lembra do Konrad?

Sei… O galego, gente boa!

O bispo riu do meu sotaque:

Sim, o “galego”, ele mesmo. Faz meses que não comparece às nossas reuniões. A esposa vem, com o motorista, traz as  crianças, mas se queixa de que ele está muito “fraco na fé”, entende?

Entendo…

Zeus Azul

Konrad não estava na casa, avisou a governanta.

Ele está na parte baixa, em sua oficina. Vou pedir ao caseiro para lhes abrir o portão.

O portão parecia com a entrada de uma fortaleza. Mas, o Konrad, ao saber da visita do bispo, apressou-se em nos receber.

Sejam muito bem-vindos ao meu templo.

Templo? Indagou o reverendo, encafifado.

Pois é, Mr. Henry, o lugar em que habita uma divindade é um templo!

Konrad ia falando, com um sorriso largo, no rosto bronzeado. E nos levou a um recanto, em que um veículo estava protegido por uma tenda.

Eis o Zeus Azul! Disse isso, afastando a lona e apontando um carro antigo.

Em seguida, empunhando uma bucha macia, ajoelhou-se diante do carro e, reverentemente, passou a polir sua pintura azul celeste.

O bispo estava embasbacado. Mas, o que ouviu a seguir, foi demais.

Esse é um dos motivos de eu não poder ir à Igreja. Sou o zelador do Zeus.

Mas isso é quase idolatria! Disse o bispo, em tom de repreensão.

E pasmem, o Irmão Konrad, retrucou, calmamente, olhando nos olhos do sacerdote:

Não terás outros deuses diante de mim, diz a Bíblia.  Por isso, não devo mais professar sua religião. Sou devoto exclusivo de Zeus, do meu Zeus Azul! Ele não é divino?

O Bispo cambaleou, quase desmaia, mas, recompondo-se, deu as costas ao Konrad e saiu, portão afora:

Herege! Amaldiçoado!

***

Assim me contou Seu Faustino, chauffeur do bispo anglicano em Recife, esse causo extraordinário de idolatria em Teyu’piog e assim repasso aos meus 13 leitores!

Cuidado pra não exagerarem no amor pelos carros!

Talvez vocês conheçam alguém assim. Eu conheço! rsrs

One reply to “O Zeus Azul”

Deixe um comentário

close-alt close collapse comment ellipsis expand gallery heart lock menu next pinned previous reply search share star