Esse é o mês de Agosto, mês da ventania e das brincadeiras ao ar livre. Mês augusto, excelso, solar, nos trópicos, abaixo da linha do equador. No Engenho Velho, hoje, campus da UFPE, fizemos a celebração anual dos nascidos sob a égide do Sol em Leão.
Foi uma festança digna dos aniversariantes. Escolhemos o quintal da antiga casa grande do Engenho Velho para uma roda de batuque.
Desceram da velha Várzea do Capibaribe, os mais afamados mestres do coco de roda, pra brincar na chã do quintal.

Quintal de casa grande guarda energias ancestrais. Por aqui passaram levas de escravizados egressos de África. Dor e sofrimento. Apesar disso, o batuque rolava no terreiro da senzala. Assim surgiram o samba, o coco de roda e a ciranda. Essa energia atrai os novos mestres da cultura varzeana pra nossas sambadas.
Uma roda foi formada. Mestre Fernandão, empunhando um cajado de bambu, ergueu a voz pra cantar seus cocos de terreiro, verdadeiros souls musics, spirituals songs, como o que compôs pra sua saudosa avó Luiza, do terreiro de Zumbé.
Mestre Isaac dançou a dança da tanajura e cantou as coisas do cotidiano do Engenho Velho, que ele tanto ama…
Mestre França, o capitão da Burra da Várzea, soltou a voz, relembrando Seu Dida. Foi bom de ouvir.
O batuque foi esquentando na roda:
pandeiro e palma da mão e o percutir do cajado no chão, com a chegada do Zé Lascavara, entidade que energiza o Mestre Fernandão.

De repente, um desconhecido chega num carrão, liga um desses rádios modernos, cuja potência de som dói até na alma e larga aquele equipamento bem no meio da roda.
Eu, sensitivo que sou, percebi o erro espiritual do recém-chegado.
Madruga larga o pandeiro, e, como que possuído por um guerreiro ancestral, desligou o rádio violentamente. Deu um berro que doeu nos ouvidos:
Só vai tocar aqui, quando terminar a roda!
Foi aquele fuzuê, aquieta e arreda. Mestre França pediu calma. O moço recolheu seu equipamento e foi sentar a um canto, reclamando baixinho, amedrontado e dizendo que esteve em várias cidades da Europa e jamais viu tal desfeita…
Mestre França arrasta Madruga e vem na minha direção. Os olhos de Madruga estavam diferentes. Penetrantes e fixos, olhou nos meus olhos, aguardando uma repreensão.
Nem deixei Mestre França se desculpar. E esclareci tudo:
Tem de salvar o Èsù, meus filhos! O moço não tinha permissão!
E não tinha mesmo! Em pleno mês de Agosto, no terreiro da casa grande, chegar, sem pedir permissão, e largar um rádio estridente no meio da roda. Só podia dar nisso. E aprendemos todos mais uma lição da ancestralidade. Tem de saber entrar e saber sair.
Laroyê, Èsù!
N.do A.:
FIV-ARRUADO é o Festival dos Invernos do Véi dos Gatos do Arruado do Engenho Velho da Várzea
wow!! 61Momento jorgeamadiano, no FIV-ARRUADO