Tigun e Bagun  – 4

De todos os causos de Tigun e Bagun, esse é o mais extraordinário. E me foi contado por uma vizinha antiga da família, Dona Florinda.

Permitam-me, entretanto, um parágrafo, à guisa de prólogo; talvez, desnecessário, do ponto de vista de uma obra de ficção, mas, bastante esclarecedor.

Vamos a ele:

Em toda construção há de haver, inicialmente, os andaimes, que logo serão retirados, para não enfeiar as fachadas da edificação. Na obra literária, há uma espécie  de “andaimes internos”, que não podem ser retirados. Ou seja, há andaimes ocultos, que o autor conhece, sabe que lá estão, porém… não pode, nem deve desmontá-los.

No causo em questão,  a ancestralidade dos gêmeos foi omitida. Apenas, de passagem, foi citada a Báçira, como seu lugar de nascimento. Outra estória ocultada, mas que corria entre o povo: aqueles meninos eram reencarnações de não sei que personagens gêmeos, do Velho Mundo. Tweedledee e Tweedledum, se não me engano, era o nome das suas vidas passadas.

E ficaria assim mesmo, esse causo, até que, nas minhas andanças por Teyu’piog, eu topasse com Dona Florinda, a pessoa mais bem informada do bairro. Quer saber um segredo da vida de alguém? Pergunte a Dona Florinda, parteira.

Conheço esse fulano desde que nasceu! Dizia ela, vaidosa!

Esse número 4, devemos a ela, excetuadas as fraseologias de estilo, que, decerto, cabe a quem escreve. Mas, Dona Florinda me contou que…

…Tigun e Bagun tinham uma irmã mais velha, chamada Sonia (assim mesmo, sem circunflexo).

Nasceu por essas mãos que Deus me deu.

Soninha sonhava muito, a bichinha! Tinha pesadelos estranhos. E me contava tudo! 

Dona Florinda era sua confidente, por serem devotas da mesma religião.

Uma coisa interessante nos sonhos de Soninha era que todos eram em preto e branco, até surgirem as televisões a cores. Dali em diante, Soninha tinha seus sonhos coloridos.

Dona Florinda era muito detalhista e vou tentar desviar dos pormenores de sua descrição.

Eram juremeiras, Sonia e Dona Florinda e costumavam frequentar celebrações numa clareira, dentro da mata de São João. Era um lugar bem conhecido da meninada aventureira de Teyu’piog, que conhecia tudo o que era trilha daquela mata.

Certo dia de celebração, os pais de Tigun e Bagun, a pedido de Sonia, que sonhara com isso, decidiram iniciar os gêmeos na Jurema.

O senhor acredita nessas coisas, né? Porque o que vou lhe contar é coisa séria! Alertou, Dona Florinda.

Curioso, apressei-me em dizer que sou de família espiritualista.

Já sei. Kardecistas,  né? Macumba de brancos, disse, rindo, a nossa fofoqueira.

Pois então, no dia em que levaram os pestinhas pra mata, aconteceu uma coisa inacreditável. Só vendo pra crer.

Desceu sobre a clareira um balão brilhante, já  viu um Zepellin? Igualzinho, mas menor, do tamanho de um ônibus, entendeu?

Padrinho Ulisses,  que era o nosso sacerdote, mandou todo mundo se ajoelhar. Pois, moço,  saiu lá de dentro um ser estranho,  com um cocar enorme, feito um pavão, era um pavão escritinho. E falou, com uma voz metálica, parecia uma rádio AM:

Eu vim da Báçira pra buscar nossos meninos!

Seu José e Dona Enilda, os pais de Tigun e Bagun, abriram no choro.

Tigun e Bagun pareciam conhecer a aeronave e disseram:

Painho, Mainha! Não chorem! A gente vai, mas, volta!

E, pra surpresa de todos na clareira, embarcaram, sorridentes, no balão, que logo  desapareceu por entre as copas das árvores mais altas da mata de São João.

E depois? Perguntei, aflito.

Depois, só o senhor consultando o padrinho Ulisses, lá no Sítio do Cocuruto.  Só ele sabe o que se passou…

Fui consultar o padrinho. E, como fiz com a comadre Florinda, farei agora. Citarei o padrinho Ulisses, ipsis verbis:

“Eu me alembro bem desse fato. Mas, como o senhor soube disso? Tudo era sigiloso. Os pessoá daqui são uns incrédulos.

Imagino quem lhe contou! Meu Deus do céu!

O senhor por acaso conhece um lugar chamado, Báçira?

Respondi, afirmativamente. Estive lá há muito tempo, pesquisando sobre uma batalha contra os holandeses.

Pois esses gêmeos nasceram lá e são da linhagem de grandes e fabulosos guerreiros. O senhor nunca prestou atenção no cabelo pixaim, mas, agalegado, sarará mesmo, daqueles pivetes?

Se o senhor sabe da história,  conheceu Seu Pavão. Ele anda ainda por esse mundo de meu Deus, amontado naquela besta–fera, o Golem.

Foi o Golem que aterrissou na clareira onde a gente fazia nosso toré. Não era balão, era o bichão, o Golem.

Aqueles meninos são de lá e de tempos em tempos, vão pras pajelanças, obrigatoriamente.

Entendeu, agora?

Aqueles dois não são desse mundo!

***

Entendi. Eu mesmo vi o Golem da Báçira e juro que ele existe!

Mas, seria essa história, apenas um sonho sonhado por Soninha?

Vá saber!

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