
Uma peripécia inesquecível, que envolveu essa dupla, Tigun e Bagun, foi a perseguição, por mais de vinte adolescentes, enfurecidos contra eles, (e eu, no meio), numa corrida de légua e meia, por vários logradouros de Teyu’piog.
O certo é que os danadinhos nem tinham culpa, mas toda presepada recaía sobre eles.
Já lhes conto como foi.
Deixemos que eu descreva um pouco da geografia do nosso território:
Morávamos num lugar cheio de desigualdades sociais, como de resto, acontece em todo o país.
Era um outeiro, um morro baixo e alongado, por cuja chã, passava uma velha estrada carroçável.
Do lado esquerdo, no sentido da antiga freguesia da Várzea, havia um declive, um vale com um riacho, margeando a mata de São João, pertencente à familia Brennand.
Do lado direito, era o loteamento, várias travessas enladeiradas, com casas antigas, boa parte de trabalhadores da fábrica de vidro ou do IPEANE – Instituto de Pesquisa Agropecuária do Nordeste.
Esses moradores mais antigos, como os neus pais e os pais de Tigun e Bagun, adquiriram lotes nessa margem direita daquela velha estrada. Na época, tudo aquilo pertencia ao subúrbio de Teyu’piog. Mas, há muito tempo, foi o secular Engenho Curado.
Logo surgiria, na margem esquerda da estrada, à boca da mata, a moderna Vila dos Bancários, erguida pelo interventor getulista, Agamenon Magalhães, se não me engano.
A vila era de um povo de maior poder aquisitivo e suas crianças tinham brinquedos caros, boas roupas e até bicicletas. No entanto, não tinham a liberdade do salto solto no rio Paul, da pescaria de jereré, peixes-beta, piabas, muçuns; essas coisas da nossa infância pobre, que a gente nem sabia que era melhor do que uma Monareta ou uma Cecizinha.
Pois bem…
Os filhos dos Bancários namoravam as meninas mais bonitas da Vila e, às vezes, vinham nos roubar as nossas. O despeito e a inveja foram se tornando um ódio coletivo. Nos enfrentávamos no mela-mela do carnaval, nas peladas de rua, nas batalhas de espada. Reconheço que os riquinhos eram bons de bola. E até nos uníamos numa selecão, quando vinha time de fora.
Mas foi numa quadrilha junina que se deu a confusão.
Uma semana antes dos fatos, durante um ensaio de quadrilha na frente da casa das magas (eram três irmãs belissimas), eu, enciumado por conta de uma delas, joguei uma bomba na direção do meu rival, Ailton Cancão, um caboclo, metido a carioca, que namorava todas as três irmãs.
É sério… namoro em casa, oficial, com pedido aos pais. Uma de cada vez, é verdade. Mas, com as três? Inacreditável, né?
Joguei a bomba, descaindo, entendem? Fazendo uma parábola, sei lá, de modo que desse tempo do Cancão correr, sem ser atingido. Deu certo. Foi só o susto. As meninas gritaram, choraram e se descabelaram.
Acabou o ensaio! Gritou a mais velha.
Fiquei marcado.
Esse maloqueiro não vai brincar no nosso arraiá. Nem ele nem os seus amigos.
Semana seguinte, fomos nós assistir a outro ensaio de quadrilha, no terreno inimigo. Nossa fama já estava feita no bairro e as famílias todas reticentes com nossa presença. Estávamos numa calçada alta, eu, Dimas de Zé do Caroço, Tigun, Bagun e… Roberto Bochecha de Alumínio, esse último, morador da vila e filho de um funcionário do Banco do Brasil.
De repente, uma bomba enorme foi lançada sobre a quadrilha junina e atingiu a perna de uma criança. Sangue na perninha, gritos, choro…
Partiu da calçada! Gritou a mãe, aflita!
Foram eles! Pega! Pega eles! Gritaram os irmãos brutamontes, Bido e Gilvan, zagueiros do time da vila.
Corre, Bagun! Gritou Tigun!
Eu e os outros corremos junto. Era uma rua enladeirada, de barro vermelho e que não ia na direção de nossas casas. Todos corríamos, como se fôssemos culpados.
Mas Roberto Bochecha de Aluminio ficou quieto. Não correu. A turba passou por ele, numa gritaria que parecia com a dos apaches nos filmes de faroeste. Queria nosso escalpo!
Era noitinha e ali ainda não havia iluminação pública. Entramos pelo mato, lugar pantanoso, pisando nos movediços leirões das macaxeiras do Preto Avelino. Descemos a ladeira do Sancho, dobramos à direita na rua João Ferreira, para evitar o muro do quartel e descambamos pro terminal dos onibus elétricos de Teyu’piog.
Parem!, gritou Tigun.
Eles desistiram!
Pegamos um onibus, estudante não pagava passagem naquele tempo.
Descemos no lugar chamado Estância, duas léguas de casa. Voltamos, tristes, pela linha férrea escura e deserta, adentramos o antigo Engenho Peres, rua da Capela e, afinal, rua Tupinaré, cada um na sua casa.
Pedi aos meus pais pra passar as férias com minha madrinha, lá no Arruda, sem dizer o motivo. E me mandei.
***
Quando regressei, ainda escondido, recebi a visita dos gêmeos.
Bicho, todo mundo pensou que foi você, mas tu sabe quem jogou a bomba? Advinha?
Sei lá…
Foi Roberto.
O quê! Roberto Bochecha? E o espertinho nem correu!
Ele confessou pra dona Margarete, mãe dele. Levou uma surra. O pai pagou o tratamento da menina e tá tudo calmo. Roberto é branco, filho de rico, né. E a gente nem invente de passar na vila!
E as peladas?
A gente marca aqui, na estrada velha! Bido e Gilvan disseram que nossa barra tá limpa
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N. do A.:
Em verdade, Ailton, hoje um renomado professor de História, só namorou duas das magas. A mais nova, não! E se explica: a do meio era louca por ele. Por isso, a mais velha abriu mão do Don Juan, em benefício dela, com o consentimento dos pais.