Os apelidos são tão arbitrários quanto os nomes próprios. Haja vista, o nomes escalafobéticos que aparecem nos registros notariais. Lembro de um nome que ficou famoso nacionalmente:
Um Dois Três da Silva Quatro.
Não lembro em que cartório do Brasil profundo, essa obra prima de criatividade foi registrada.
Assim, também escalafobéticos, eram os apelidos de dois amigos de infância. Não sei qual a relação entre o nome Josenildo e Tigun; nem entre, Josevaldo e Bagun.
Mas eram conhecidos assim, Tigun e Bagun, por todo Teyu’piog.

No entanto, essa não é a crônica das graças e das alcunhas daqueles gêmeos. Não é dos nomes, mas dos seres vivos que lhes falarei. Como assim? Seres vivos?
Seres vivos… de vivacidade, de esperteza e de astúcia.
Tigun driblou a morte. Venceu a leptospirose. E até hoje está vivo e muito vivo. Foi bancário e se aposentou como rentista, financista, sei lá eu! Especulador, fica melhor!
Bagun superou um soco na cara, desferido por mim mesmo, esse cronista amador, quando veio me explicar o que fez meu pai com minha mãe para que eu nascesse. Tínhamos uns 12 ou 13 anos, de uma meninice sem internet. Mas Bagun era uma Barsa ambulante. E imitava até os movimentos dos quadris do papai, inseminando a mamãe.
Com minha mãe, não! bradei, enquanto o esmurrava.
***
Esse começo da crônica está imprestável, não acham, meus 13 leitores?
Como eram Tigun e Bagun? Indagarão, curiosos? De onde vieram? Eram nordestinos? Cearenses, por serem sabichões?
Querem uma narrativa com pés e cabeça? Personagens redondinhos, né.
Pois bem…
Senta que lá vem história!
A família deles veio da Serra do Abalo, conhecida por Passira, nome modernoso, para as terras conhecidas pelos aborígenes, por, BÁÇIRA.
Em verdade, era uma família que descendia de povos indígenas, habitantes do que ainda restava da mata Atlântica pernambucana.
Sua história vai muito além do que lhes contei sobre o soco na cara e da leptospirose. Era notória sua astúcia e lábia, podendo responder a qualquer pergunta. Seus pais os levavam para a feira livre, ainda muito pequerruchos, e os encarapitavam numa espécie de carroça mambembe, feita de lona e puxada por um burrico, pelas ruas estreitas de Cavaleiro, e anunciavam:
Façam qualquer pergunta a esses meus meninos, que eles sabem tudo sobre tudo!
Os peraltas acertavam mesmo tudo, enquanto o pai passava o chapéu, recolhendo o necessário para o almoço da família.
Certa vez, um feirante metido a sabichão resolveu desbancar aquela dupla de malasartes. E fez duas perguntas aparentemente impossiveis de serem respondidas:
Respondam depressa, sem pestanejar, quantas estrelas há no céu e quantos peixes há no mar?
Tigun olhou pro seu mano Bagun, que piscou o olho e, mirando o firmamento, começou a contar:
Uma, duas, três…
O feirante atalhou e lhes disse: se contam é porque não sabem.
Qual nada. Estamos contando as que morrem agora, nesse instante. Não sabem que as estrelas morrem? Queremos te dar um número exato! Serve uma aproximação?
Vá lá que seja! retrucou o feirante, irritado.
E a resposta veio em uníssono:
Trezentos trilhões de estrelas no hemisfério sul e mais trezentos trilhões no hemisfério norte. E esse número é exatamente o mesmo dos peixes no mar e nos rios.
O povo, que já se havia ajuntado em redor, aplaudiu.
Provem! gritou o feirante.
A gente ‘tava contando e o senhor nos impediu. Agora conte sozinho!
Os populares, às gargalhadas, encheram o chapéu de moedas. O pai recolheu tudo e arrastou a carrocinha mambembe pelos becos da feira. Nesse dia, deu pra fazer umas boas compras de cereais, secos e molhados. Até picolé os gêmeos ganharam…