
Naqueles meses de inverno, o Rio Teyu’piog transbordou desde a sua nascente, em Cova de Onça, região quase desabitada de São Lourenço, e a enchente veio até os lugares densamente povoados, como Totó, Jangadinha, Cavaleiro, Coqueiral, descendo pelas terras dos Uchoa, Jequiá, Afogados, até desaguar no estuário do Pina.
Quem estava do Barro pra cima, não passava pro centro do Recife. Nem de trem, quanto mais de bonde. Foi um transtorno.
Até os afluentes do Teyu’piog encheram . Exemplo disso foi o Riacho Pacheco, bem ali no terminal dos bondes.
Um carroceiro se atreveu a cruzar a ponte de madeira e lá se foi, ele, carroça e cavalo. Salvou-se por pouco. A carroça enganchou-se na raiz duma castanhola, na margem do riacho e o povo acudiu pelos quintais ribeirinhos. Perdeu, no entanto, a mercadoria de secos e molhados, que iria levar à venda de Seu Zuzinha, no Pacheco. Grande prejuízo!
Em pouco tempo, uma fila de carroças, caleças, carros de bois e charretes foi se formando, nos dois lados da ponte sobre o Riacho Pacheco.
Nessa época, ainda não existiam casas na esquina da Rua Arealva, tampouco o templo da congregação protestante Queira Deus, de sorte que se podia ver facilmente, a 200 metros do riacho, o pé da ladeira da Olegário Maciel.
Pois, estavam todos naquela aflição, carroceiros e condutores de coches de aluguel, passageiros, numa algaravia, sob a chuva, quando se avista uma fila indiana, descendo a ladeira, na direção da ponte submersa.
À frente, um preto velho com uma vara de 2 metros na mão direita, seguido por 30 homens negros retintos, diversas yalorixás, umas jovens e outras muito idosas.
Quando o cortejo aproximou-se da ponte, a chuva cessou, miraculosamrnte. O preto velho avançou, com a longa vara erguida, qual um Moisés negro. Tocou nas águas e foi pisando, pé ante pé, sobre a velha ponte submersa, seguido de seu cortejo, que cantava loas em nagô. As mulheres mais velhas foram levadas por jovens robustos, pisando nos mesmo lugares da ponte, em que o preto velho pisara.
Todos passaram e ajudaram a quem quis e teve coragem, a passar sobre a ponte.
Um engenheiro do Saneamento do Recife, que a tudo observava, aproximou-se do preto velho, gabando-lhe a esperteza.
Não se trata de esperteza, doutô! Minha gente faz isso há séculos, em África. Chama-se dar vau num curso d’água. Não há magia, nem truque, essa é uma solução simples de raciocínio. No ocidente, se diria que é uma técnica de travessia. Meus antepassados viram muitas cheias do Rio Oyá, do Rio Congo e até do grande Rio Nilo. A Ciência de vocês nasceu por lá!
O engenheiro inglês se desculpou e, entrando no mercado público de Teyu’piog, encontrou um motorneiro da Companhia de Bondes, e lhe perguntou quem é aquele homem à frente do cortejo.
Aquele é o Pai Ulisses, o homem mais sábio dessa região de Teyu’piog! Descende de uma longa linhagem de reis e sacerdotes de África, escravizados pelos traficantes de pessoas, no Brasil Colônia.
O engenheiro britânico cofiou os bigodes, depois, tirou da sobrecasaca um livro de anotações e escreveu:
Extraordinária personagem, um sacerdote dos trópicos, cuja ciência emana da experiência e da tradição.