O Inescrito (um livre exame da criação)

Várias dessas modernas teorias da conspiração são calcadas numa interpretação particular da Bíblia. Desde as teorias dos antigos astronautas (ufologia) até o trans-humanismo (ciborgs).

No entanto, em tempos de evangelho da prosperidade e teoria do domínio, verdadeiras excrescências exegéticas, faz-se vital uma leitura direta e clara dos evangelhos canônicos, que pode ser saudável e salvífica. Eu diria, saudável, mentalmente.

Desisti de estar filiado a qualquer instituição (ou denominação) evangélica, desde os idos de 1977, quando percebi certos exageros doutrinais, semelhantes àquelas minudências formais da ultrapassada lei moisaica.

Não coma isso! Não fale aquilo!

Eram ordenanças infantis de um deus infantilizado, birrento, ciumento e outras atitudes, mais próximas de uma pessoa tóxica, do que de um deus.

Estarei blasfemando?

Não. De jeito algum!

Tenho Deus como aquele Aba, ou, paizinho querido, das crianças semitas. E sou deista, daquele Deus espinozano, no qual, andamos vivemos e existimos, conforme Saulo de Tarso.

Assim diz o Senhor: O céu é o meu trono, e a terra o escabelo dos meus pés. Que casa me edificaríeis vós? E que lugar seria o do meu descanso?   

Pai Ulisses, o inescrito

Eu já conhecia o Pai Ulisses, vizinho de sítio, no cocuruto de um morro, da rua Paralela à Estrada do Curado, em Teyu’piog. Conhecia  apenas de vista, ou, de quando ele passava embriagado e cantando a sua loa:

Falador passa má!

Mas, passamos a nos conhecer melhor, quando, numa noite de seresta enluarada, na esquina da Maranguape com a Estrada do Curado,  eu olhei pro céu e falei pros meus amigos de violão:

Que Lua arretada!

E uma voz mansa e aveludada me disse, por cima do ombro:

Mô fi, não diga isso com as coisas do céu!

Era o Pai Ulisses, preto velho retinto, carapinha branca, aparentava uns 80 anos, mas devia ter mais. Ele não sabia a data certa de seu nascimento. Nem sabia ver as horas no relógio. Não lia, nem escrevia. Sabia ver as horas na sombra do dendezeiro, da palmeira, do coqueiral. Lia nas estrelas, nas cores do céu, no tom da voz do triste e do alegre.

E chamava a todos de sinhôzinho, fossem pretos ou brancos, velhos ou moços.

O senhor diz isso, por quê?

Porque são as coisas de Nosso Sinhô!

Mas tá escrito na Bíblia?

O preto velho riu, mansamente:

Mesmo que tivesse, eu não sei ler. Mas não sou analfabeto, visse!

Como assim?

Meus bisavós viero da África e aqui nessa mata de São João  ainda tinha indio. Eles contaram aos meus avós, que contaram aos meus pais, que me explicaram como foi que os invasores do Brasil fizeram pra vencer a imensa tribo que já estava aqui. Duas armas inventadas por eles, para dominar as gentes:

as fronteiras e o alfabeto.

Antes, os indios conheciam tudo. Qualquer tribo, se tivesse saúde e vontade, saia andando pela mata e fazia suas malocas onde tivesse uma boa nascente d’água e boa caça.

Depois, os homens de batina trouxeram as letras, os badalos e a Cruz. A cobiça veio junto, com os donos das terras. Muitas doenças também!

Não sei ler, nem escrever, nem eu nem Maria, minha mulé.

Mas sei o dia de plantar a maniva e o dia bom pra arrancar da terra. Faço uma farinha que ninguém bota defeito. Boto na cangaia do burro e vendo onde eu bem quiser. Troco por charque, por rapadura da boa. Feijão, eu mesmo planto. Já tenho a farinha e, no Sítio, tem muita manga, banana e jaca. Lá no vale de Seu Noé, por trás do morro, corre um riacho em que abundam muçuns, carás e piabas. Casa de taipa, coberta de sapé. Durmo na rede, nunca paguei aluguer. Somos ricos, das graças de Deus.

Passe lá no Sítio numa noite sem Lua, quero te falar sobre as estrelas, que só lá,  na escuridão do cocuruto do morro, se pode ver.

***

Realmente, o céu visto do cocuruto do morro de Pai Ulisses, sem um lampião aceso, era atapetado de estrelas…

No meio do mato, também brilhavam vagalumes, que o Pai chamava caga-fogo:

No sertão da Bahia, de onde veio minha gente, esses caga-fogo se chamam, uauás.

***

Silencie e Observe:

Tudo o que se vê em derredor tem seu anjo protetor, seja uma estrela ou um uauá, uma pedra ou uma galinha pedrês.

Tem protetor da bananeira e do araçá, da jaqueira e da fruta-pão.

Tá vendo esse seixo? Ele tem seu anjo, como chamam na igreja. Eu chamo de axé. Tudo o que existe tem seu axé. Mas axé é apenas uma palavra…

Aliás, de onde surgem as palavras, hein, sinhôzinho?

Ahn?!

É tão simples… Tu num sabe?Toda palavra vem do silêncio!

👀

E tudo que existe veio da palavra! A palavra falada, entende?

Tá vendo as 3 Marias, ali no céu?

Na terra ancestral de meus bisavós aquilo era o cinturão de um caçador. E os observadores do céu, como nós estamos fazendo agora, diziam isso do caçador, pra poder entender essa multidão de uauás, piscando na noite.

Assim, os observadores do céu, achavam nomes fáceis de decorar, pra poder contar aos filhos, e os filhos aos netos, e assim chegar até nós. E não se sabia escrever nem uma palavra, mas o cinturão do caçador  chegou até nós.

Foi dali, daqueles observadores do céu,  que sairam os magos, que o padre conta na Bíblia. Os magos eram como nós, sacerdotes da natureza, que veem o axé numa ave, numa pedra, numa planta e numa estrela. Os magos sacerdotes levaram o axé, na mirra, no incenso e na pepita de ouro e depositaram aos pés do menino-deus.

***

Aquela foi pra mim, uma noite iniciática. Pai Ulisses era como um sábio pre-socrático ou um maharishi indiano. Ele me falou muitas coisas, do jeito simples dele, com as palavras que ele colhia no silêncio.

Disse-me entre outras coisas que Deus é um aconchego, um dentro. Um lugar em que se pode relaxar, como quem bóia. Deus é útero!

Eu, que estava fugindo da fé dogmática, fui tomado por um júbilo transcendente com o divino. Um homem que nunca leu uma linha de nenhum livro sagrado, nem da própria Bíblia, descerrou os véus do divino diante de mim.

Era um tempo em que vinha surgindo a vertente neopentecostal, chamada, Casa da Benção. Ou seja, pague o dízimo adiantado, que Deus abrirá os cofres do céu. Dinheiro no gazofilácio, bencãos na vida!

Voltamos várias vezes ao cocuruto do morro, a conversar com o Pai Ulisses. E lhe fiz muitas perguntas francas e diretas, com respostas sempre sábias e simples.

O senhor já viu Deus?

Estou vendo aqui e agora.

Onde?

Em você! Deus está em tudo que existe. E, em nós, ele se reflete mais. Se ele está lá nas estrelas, brilhando, aqui dentro da gente ele está olhando o brilho delas.

E por que tudo morre?

Nada morre, meu amiguinho. As coisas mudam de lugar, de posição. Hoje nós comemos as frutas, amanhã seremos o adubo da terra de onde brotam as árvores e subiremos pelo tronco até a folhas mais alta, de lá pra fruta, até voltar pra terra.

***

O enterro do Pai Ulisses foi seguido por uma multidão. Tinha padre, tinha pastor, tinha as três forças militares, da terra, do mar e do ar. Um coro de crianças cantou um cântico da terra dele: Uauá, sertão de Canudos. Não vi muito choro de gente triste, vi muitas lágrimas de saudade.

De noite, fui com os amigos e um violão, pro cocuruto do morro e cantamos Luar do Sertão, pra ele, pro nosso paizinho que foi pro céu, pro Sete-estrêlo, de onde ele veio…

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