O Inescrito (a vida é terna)

Cuidado especial, irmãos, com um certo Ulisses, ou Pai Ulisses, pois estamos perdendo fiéis de nossa congregação, mediante sua lábia refinada.

Argumentava, em reunião secreta, um “inspirado” presbítero pentecostal.

Vejam o exemplo da irmã Marluce. Abandonou a fé cristã, por influência do tal Ulisses.

A breve história de Marluce

Conheci essa moça,  sempre chorosa, vestida com blusas que escondiam o seu pescoço, e saias que quase arrastavam no chão. Chorosa de vergonha e de frustração. Ela morava nas imediações da rua da Capela e eu sempre cruzava com ela quando ia comprar pão quentinho, no fim da tarde. Eu indo e ela voltando.

Oi, Lúcio!

Oi, irmã!

Falava e escondia os olhos profundamente tristes, vermelhos de tanto chorar no círculo de oração.

***

Um dia, timidamente, ela me perguntou se eu ainda era da igreja Batista.

Não, irmã. Hoje sou um desigrejado.

Gostaria de saber como é lá. Mas…

Como é a doutrina? Lá só batizam nas águas. Não acreditam no batismo pelo Espírito Santo.

Não. Né isso, não. É sobre a escola dominical. Separam as moças virgens das que se perderam?

Ah, entendi! Não. É só pela idade, mesmo. As jovens casadas, se quiserem, podem ficar na turma das solteiras.

Ai, irmão Lúcio, passo tanta vergonha lá na minha igreja. Estudo com as casadas. Quando me converti, eu contei minha vida ao diácono. Foi minha desgraça. Tem muita jovem que é mais assanhada do que eu. Você sabe. Têm a virgindade, mas praticam todo tipo de ato libidinoso com o namorado. E eu, que fui estuprada pelo meu padrasto, fico exposta pra toda a igreja. Muita tristeza. Já pensei até em morrer. E agora minha regra está irregular. Só faltava isso! Me ajuda, irmão!

Ó, irmã. Me dá um abraço!

Não pode, amigo. Vão pensar mal de nós dois.

Certo. Mas você me encontra no Sítio do Cocuruto, à noitinha. Vou falar com dona Maria. Ela conhece de chás e vai te ajudar a regular tuas regras.

Posso confiar em você? Né nada de safadeza, não?

***

Mesmo cismada, Marluce foi ao sítio. O casal, Dona Maria e Pai Ulisses, nos recebeu com um sorriso franco. Estavam acostumados a lidar com jovens casais atribulados.

Marluce contou sua triste história, aos prantos e, enquanto dona Maria fervia a água da infusão, sentamos numa raiz da jaqueira grande,  de onde se avistava a chaminé da velha olaria e, principalmente, se vislumbrava o céu, com suas miríades de estrelas.

Qual é seu nome, minha menina?

Marluce Vieira da Silva

Seu nome tem duas coisas bonitas: tem mar e tem luz. Não é, irmão? Lúcio também. Eu não sei escrever, mas pelo som dos nomes eu advinho de que  eles falam. O teu é Mar e Luz.

***

Conversamos noite a dentro.

Dona Maria tratava do corpo, com chás e afetuosidade; Pai Ulisses descortinava os céus. E sua palestra simples nos aquecia o coração.  Contou dos seus antepassados, falou da presença deles na gruta do menino-deus. Que essa visita simbolizava que o rei nascido era rei de todas as nações.

Marluce ouvia a tudo, enlevada. Aquelas palavras falavam bem dentro de sua alma sedenta.

Marluce estava encantada pela palavra amorosa, sem ranço nem preconceito, do Pai Ulisses.

No amor não há regras a serem seguidas. Papai do céu nos deu livre arbítrio, no amor.

O senhor parece um teólogo…

Não, moça. Nem sei ler, nem escrever. Eu posso não compreender os mistérios do universo,  mas tenho uma presença misteriosa dentro de mim, em que eu existo. Cada parte de mim tem esse nervo do divino.

Aqui é um terreiro?

O Pai sorriu e continuou:

Sim. Mas não é um terreiro religioso. Aqui é um observatório do céu. Né, Lúcio? Aqui não se fala da vida eterna, como nas igrejas (nada contra). Aqui alertamos para o fato de que a vida é terna. Foi por ternura que papai do céu fez essas estrelas e pendurou na noite, para a gente se guiar.

***

Nessa noite dormimos sob as estrelas. Marluce curou todas as suas dores. E me permitiu todos os abraços que eu desejava. Fomos felizes!

Nem ela, nem eu voltamos para a igreja. O cocuruto do morro de Pai Ulisses ganhou mais dois aprendizes dos observadores do céu…

Vivemos como um casal, por uns 10 anos, até que Papai do céu a chamou. Todas as suas dores foram mitigadas. E, em mim, agora essa e/terna saudade.

***

Temos informações de que esse Pai Ulisses faz reuniões secretas em sua casa, o que está proibido pelo Ato Institucional n. 5.

Sugiro a essa assembléia que se oficie ao delegado de Teyu’piog, sobre isso.

Quem concordar levante sua mão direita!

A denúncia maldosa foi aprovada à unanimidade…

Deixe um comentário

close-alt close collapse comment ellipsis expand gallery heart lock menu next pinned previous reply search share star