Uma Nova Gênesis, na Queira Deus.

O irmão Filipe sofria de um tipo de demência,  cujo sintoma era um rápido alheamento, uma  espécie de ausência, diagnosticada, precipitadamente, pelo seu médico, como epilepsia. Filipe era jovem, uns 23 anos, mas com semblante triste, que lhe fazia parecer mais velho. Morava, por coincidência,  na Rua Arealva, antiga Queira Deus, cenário de alguns fatos extraordinários que há pouco lhes narrei. Para todos, o irmão Filipe era apenas um frágil epilético, mas…

***

…um certo comissário Saulo Santos, já conhecido de meus 13 pacientes leitores, teimoso como um burro chucro, continuava fazendo diligências por conta própria, sobre aquele caso da moça encontrada morta no Riacho Pacheco.

E o irmão Filipe congregava, coincidentemente, na mesma igreja pentecostal da Queira Deus. E então, um belo dia, topou com o comissário xeretando nas dependências do templo.

Novo crente,  empoderado e fiel ao pastor Alírio, (afastado injustamente da igreja por intrigas “do inimigo de nossas almas”), o irmão Filipe abordou aquele homem estranho e perguntador:

O senhor é da polícia, moço?

Ahn! Balbuciou Saulo, surpreso.

É mouco…  pensou Filipe.

Não precisa responder, disse o rapaz, revirando os olhos e se segurando na parede, como quem iria desmaiar.

Você está bem, meu jovem? Acudiu Saulo.

O jovem voltou a si, em poucos segundos, empertigou-se e bradou, olhando nos olhos do detetive:

SHURYA! SHURYA! DUM LAICOTE NOBERRETE! Sim! Você é o comissário Saulo Santos, lotado na regional de Paudalho. Age por conta própria e de forma ilegal! Jeová Deus vai destruir sua vida se você não se arrepender e dobrar os seus joelhos diante Dele! SHURYA! SHURYA! ALELUIA!

Em seguida desmaiou aos pés do comissário.

Do portão de uma casa nas proximidades, ouviu-se um grito desesperado:

Jesus! Meu filho morreu?

Uma senhora correu na direção do jovem desfalecido, que já recebia os primeiros socorros do comissário, acostumado com situações extremas.

Calma, mãe! Ela só teve um desmaio.

Vamos leva-lo ao SAMDU de Teyu’piog! Suplicou a mãe, muito aflita!

***

Foi um incidente muito estranho, mas, de fundamental importância para as respostas que o comissário buscava, na Congregação Cristã da Queira Deus.

***

Já no Serviço de Assistência Médica de Urgência, SAMDU, criado pelo Dr. Miguel Arraes, em meados de 1961, anos antes de ser deposto do cargo de governador, o jovem foi medicado e logo recuperou a consciência.

O médico, que já conhecia o paciente, disse ter sido um episódio de “ausência “, provavelmente porque Filipe se recusava a tomar os remédios para controlar sua epilepsia.

Sim, mas e a glossolalia? E como ele descobriu meu nome? Falava o comissário,  com seus botões.

A mãe, percebendo o seu espanto, chamou o detetive a um canto do corredor:

Moço, essas coisas os médicos não sabem! Eles são ateus! Não acreditam nos dons espirituais! Vamos embora daqui!

***

Filipe lera os pensamentos de Saulo e isso o fez lembrar do pastor Alírio, o ciborg.

Será que vai começar tudo de novo?

Acácia – símbolo secreto

Revisitando Van der Leidjen

Mesmo com o pé atrás com o professor, que já suspeitava ser um quinta coluna, o nosso determinado investigador voltou ao palacete de Teyu’piog:

Boa tarde, professor! Desculpe incomodar e lhe tirar dos seus afazeres…

O mestre, fez um gesto com a mão e aparteou o comissário:

Saulo, Saulo, você já faz parte dos meus afazeres. Fui designado pela equipe muldisciplinar do projeto Nova Gênesis, para lhe orientar no que pudermos. Mas há uma linha vermelha da qual não posso passar. Há segredos internacionais, nesses experimentos.

Professor, aquela congregação da Queira Deus é cheia de fenômenos estranhos. Agora me aparece um jovem telepata, ou que lê pensamentos, sei lá! Trata-se de outro ciborg?

Nada posso lhe contar, detetive,  mas o seu afã de compreensão desses fenômenos é saudável. Todavia, para acessar esse nível de informação, o senhor há de ser apresentado à nossa sociedade secreta e fazer, compulsoriamente, o pacto de sangue. O senhor quer mesmo isso?

Saulo nem pensou nas consequências. Estava decidido a seguir investigando. E respondeu afirmativamente.

Van der Leidjen esboçou um ar de riso, enigmático, e prosseguiu:

Mas cuidemos do que posso te adiantar. E eu te pergunto: tu vens de família cristã? Saulo é nome de evangélicos.

Pode-se dizer, cristã, se uma família é de kardecistas? Se sim, mestre, sou de origem cristã não-evangélica. Mas, cristã!

Então é por isso que desconheces a glossolalia do irmão Filipe. E o dom de profecia, também. Em verdade, Filipe não leu teu pensamento, mas foi “intuído” pelo que eles, os pentecostais, dizem ser o Espírito Santo. Foi pela palavra profética que ele disse onde trabalhas e coisas do tipo. Deves ter visto isso em sessões mediunicas. O fenômeno é semelhante.

Sossega, pois só havia um ciborg na congregação, o Alírio. Filipe é apenas um jovem médium de excelente qualidade. Pena que seja um fanático. Aliás,  há interesse do imperialismo, que essa doutrina mais mística prospere no meio evangélico da América Latina,  e principalmente,  no nosso país,  para confrontar e enfraquecer a Teologia da Libertação. Sabias que já existem pentecostais até mesmo entre os católicos. Tudo implantado pelos americanos. Chama-se Renovação Carismática. E só posso te adiantar isso. O resto,  saberás da boca de nosso Grão Mestre. Volta aqui no próximo sábado, que iremos até o Grande Oriente do Recife, onde farás a tua iniciação.

***

O Grão Mestre do Grande Oriente

Na tarde do sábado estava o nosso comissário sentado numa cadeira de espaldar, isolada das outras,  num anfiteatro. Era o local dedicado aos neófitos.

O mestre Van der Leidjen tinha sumido por um longo corredor da Loja Maçônica e um velhote barrigudo, com cavanhaque e pincenez, palestrava sobre um tema incomum:

A grande tarefa do trans-humanismo

Poucos irmãos sabem, mas o grande iniciado russo, Nikolai Fiodorovitch Fiodorov, um filósofo cristão ortodoxo, foi o  principal teórico do Cosmismo, movimento filosófico russo do início do século XX, que, como nós da Nova Gênesis, pugnava pelo uso de métodos científicos que possibilitassem a prolongação da vida, a imortalidade humana e a ressuscitação de pessoas mortas. Mas é importante esclarecer que o propósito dessa filosofia é sublime e redentora.  Em verdade, o cristianismo perdeu seu rumo ao desprezar a relação do evangelho com a preservação da vida física, como pregava o Rabi da Galileia.

O velhote pigarreou, bebeu um gole d’água e prosseguiu:

Jesus veio pra vencer a morte e, a nós, prometeu vida em abundância. Lembrai-vos dos grandes patriarcas, como o irmão iniciático, o sacerdote Melquisedec, cuja vida atravessou quase um milênio,  sem doenças, sem cansaço e sem velhice. Ele é o nosso modelo de super-homem. E o G. A. D. U. nos deu a ciência de ponta para implantarmos órgãos artificiais eternos nos nossos voluntários.  Temos tido cases de sucesso. Alírio foi útil como protótipo e deu sua cota de sacrifício a essa sociedade.

E finalizou, olhando pra trás:

Hoje iniciaremos um valoroso jovem, que, esperamos, aceite a missão de ser o novo ciborg do projeto Brasil, com o apoio irrestrito do general-presidente da República Federativa do Brasil!

Com grande ovação para essas últimas palavras, o orador convocou para a tribuna, o Grão Mestre do Grande Oriente de Pernambuco.

***

A essa altura, Saulo já estava totalmente arrependido de estar ali e media a distância entre a sua cadeira e a janela.

Uns dois metros, avaliava o intrépido comissário.

Dá pra fugir! Não vou me submeter a pacto algum e nem pretendo ser um ciborg!

Enquanto isso, o anfiteatro irrompe em aplausos. Ao som do Hino Nacional do Brasil,  adentra o nosso professor, com uma vestimenta solene, uma espécie de fraque, envolto por um avental de cetim, em que se via uma acácia amarela, tal e qual a do seu jardim, encimada por um olho de Hórus.

Era ele? O Grão Mestre era o professor Van der Leidjen?

Era, sim! E antes de pular a janela lateral e de se esborrachar na grama de um canteiro,  Saulo ouviu as palavras do Grão Mestre, Van der Leidjen:

Irmãos,  eis o nosso voluntário,  o nosso novo Adam Kadmon, corajoso e cheio de esperança no futuro da humanidade! Recebam o jovem irmão… Filipe Silva, o valoroso vencedor da Morte!

Adam Kadmon

***

Saulo já estava longe, dobrando a esquina da Rua Imperial, quando uma viatura do Exército fez sinal pra ele parar.

Comissário Saulo Santos? O senhor está preso!

Quem deu essa ordem?

Veio de uma autoridade desconhecida. Mas exigiu que o senhor fosse bem tratado. Que pena… Disse o soldado PE, um brutamontes, riso sádico no canto da boca, enquanto estalava as falanges das mãos enormes.

***

Aqui termino, meus 13 pacientes leitores. O comissário Saulo,  meu amigo, não quis ou não pôde me contar nada além disso. Disse-me, apenas, que a Autoridade Desconhecida determinou que ele fosse transferido, e que agora participava de uma força tarefa especial, lotado na Rua da Aurora, num departamento diretamente ligado ao Secretário de Segurança Pública. E que, para minha segurança, evitasse de lhe fazer perguntas, nem pelo telefone.

Ainda me pagou um chopp na Sertãzinha e depois sumiu…

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