Permitam-me começar esse causo, meus 13 pacientes e argutos leitores, pensando nos olhos, diabolicamente verdes, do personagem Alírio, do conto, O pecado da rua Queira Deus, que acabei de lhes narrar.
Eu sabia coisas tão sérias sobre aquele pastor, que tive receio de lhes contar, tal era o tamanho da tragédia no desfecho daquela história.
Esse texto será, pois, uma espécie de pós-escrito ao pecado da Queira Deus. Nele direi as coisas com seus nomes verdadeiros. A história por trás da história é o que passo a narrar. Conto com a vossa atenção e paciência.
Sem mais delongas, vamos ao causo:

Em verdade, quem me contou esses bastidores, foi o detetive Saulo Santos, meu amigo e comissário de Paudalho. Aquele caso da Queira Deus, envolvia paranormalidade, pecado trevoso e até ecos do imaginário popular, disse-me, Saulo.
(quem nunca ouviu de uma avó, a história da menina enterrada no quintal de um rei, cujos cabelos crescem como capim, cuja touceira cantava, quando o capineiro ia fazer a poda?
Capineiro de meu pai,
Não me cortes os cabelos!
Minha mãe me penteou
Minha madrasta me enterrou…)
Mas o espirito cartesiano de Saulo Santos lhe dizia que ali tinha mais de crime do que de pecado escondido. Por conta disso, aquele caso criminal não foi abandonado por ele. Depois de acharem o cadáver da mocinha no Riacho Pacheco, Santos fez diversas diligências por iniciativa própria.

Numa dessas diligências, o detetive Santos visitou, no hospital, a paciente Lourdes Leitão, esposa do pastor Alírio, obesa e acamada, custodiada por um agente, amigo de longa data, do comissário, que facilitou sua entrada na enfermaria, com recomendações do médico e de uma autoridade desconhecida, para que o causo em questão não fosse acessado por nenhum veículo da imprensa.
Estranho, né?
Ali começava a se destrinchar o misterioso causo da Queira Deus.
Dona Lourdes estava ciente de seu estado terminal e não se negou a contar o que sabia. A não ser as coisas acontecidas para além da Queira Deus. Alírio era membro de uma sociedade secreta, muito bem relacionado nos meios cientificos. Diz que privava da amizade do professor Van der Leidjen, um reconhecido intelectual de Teyu’piog, que também pesquisava o caso, sob a ótica da paranormalidade.
Esquisito, isso. Anotou o detetive, sobre o pesquisador de nome estrangeiro.
A moribunda fez o seguinte relato, anotado pelo comissário Santos, que, além da memória excelente, nosso Sherlock sabia estenografia:
O senhor não sabe das agruras e atribulações da minha vida conjugal. Desde jovem, me encantei pelos olhos verdes daquele homem enigmático e belo. Casamos rapidamente, por cuidados de meus pais. O namoro abrasador assim exigia. Em poucas semanas, eu já sabia que meu casamento fora um erro. Assustada, não contei nem aos meus pais, nem à igreja.
Meu marido era diferente. Algo nele era artificial. Frio como uma pedra de gelo. Nunca se despiu na minha frente. E só fazia “aquelas coisas” no escuro. Fazia e parecia gostar muito de fazer. Era macho, isso eu sei. Mas tinha um apetite sexual desenfreado. Eu não conseguia dar conta do vigor dele e comecei a aceitar seus casos extraconjugais. As domésticas, as jovens da igreja, as mal casadas, as solteironas… ele tinha um furor sexual quase diabólico. E eu aceitava tudo. Até que surgiu a caboclinha, nossa menina, nossa Capí…
A essa altura, dona Lourdes lacrimejava, arrependida de tudo.
Mas, prosseguiu:
Sabe, doutor delegado, eu não queria aquilo… não falo da morte, mas daquilo…
E vacilava em contar.
Aquilo o quê, dona?
Ele me hipnotizava e fazia com as duas, sabe? E fazia a gente namorar também. Era um louco. E eu fui me apegando à minha menina e ela a mim. Uma protegia a outra. A gente se apaixonou… tenho vergonha disso mais não. Acho que ele se enfureceu porque Capí se tornou mais minha do que dele… Até que naquela noite, ele me hipnotizou e me fez afogar a bichinha no Riacho Pacheco. Eu juro que não estava em mim. Eu amava minha mocinha.
E desatou num pranto convulso.
Van der Leidjen
O inspetor Santos saiu do hospital muito intrigado e aturdido. Ela parecia sincera. Então, sua intuição lhe fez procurar o Dr. Eustórgio Van der Leidjen.
Não ficava distante do hospital do Sancho, a casa do tal professor Van der Leidjen. Resolveu ir a pé. Muitas conjecturas iam lhe tomando a mente, acostumada a decifrar mistérios, mas esse, em especial, não tinha lógica. Não parecia racional. Tudo o levava a crer que o buraco era mais embaixo. E era fundo…
Chegando ao palacete do ilustre dr. Eustórgio, foi anunciado pelo caseiro e logo adentrava aquele jardim tropical, cheio de bromélias, helicônias… e uma grande acácia amarela.
Pode entrar, doutor, disse o caseiro, abrindo a porta.
Obrigado. Mas não sou doutor. Ando assim, de terno e gravata, por força do hábito, respondeu o detetive, entrando numa imensa sala de estar, com móveis coloniais da famosa fábrica Holanda, percebeu o arguto policial.
Dr. Van der Leidjen logo surgiu de um dos corredores, cachimbo no canto da boca. Aparentemente, tranquilo. Talvez, acostumado a ser visitado por investigadores.
A prosa foi longa, disse-me o amigo, Santos. Longa, surpreendente e reveladora.
A certa altura, o professor tirou um livro da sua estante. Seu título era meio ridículo: Androides sonham com Ovelhas Elétricas.
Pode levar pra ler com vagar. A leitura vai ajudar o senhor a entender as coisas aparentemente bizarras, que vou lhe revelar.
E prosseguiu:
Senhor Saulo, já ouviu falar de trans-humanismo? São estudos recentes, feitos, principalmente, na América. O autor desse livro, Phillip K. Dick, utiliza-se desses estudos, para criar essas incríveis histórias, que, embora ficcionais, revelam alguns segredos que só os neurocientistas conhecem. Usando o gênero ficção científica, ele pode falar dessas coisas, sem parecer maluco ou, simplesmente, um reles mentiroso.
Disse essa última frase e riu-se, enquanto baforava o belo cachimbo:
Aqui no Brasil há poucos estudiosos desses assuntos. Eu sou um deles, e, sem falsa modéstia, tenho descoberto tantas coisas, quanto os melhores cientistas da América do Norte.
Pois bem, vou direto ao ponto:
Tudo leva a crer que o Alírio era um trans-humano. E já lhe explico esse conceito, tecnicamente.
Permita-me, antes, dizer das minhas observações durante conversas com a esposa dele…
Algo que distingue um humano do não-humano é a empatia.
Pelas declarações, feitas a mim, pela senhora Lourdes Leitão, inclusive, sob hipnose, Alirio não era humano. Não sentia empatia nem compaixão. Alírio era aquilo que Phillip K. Dick (1928/1982) definiu como um replicante, em 1968.
E como se pode discernir quando um indivíduo desses é humano ou não, mesmo sendo um psicopata, frio e sanguinário? Indaga o comissário, surpreso com os desdobramentos que aquele assassinato iria ter e, ao mesmo tempo, curioso com essas novidades, do que se dizia, em voz corrente, que era pseudociência.
Como fazer essa distinção sem ter habilitação em Psiquiatria? Fez outra indagação, apressada, o nosso detetive.
Calma, senhor Santos! Uma coisa de cada vez! Redarguiu Van der Leidjen.
Pode parecer engraçado, mas, perguntei à nossa desditosa enferma, se o pastor tinha insônia. A resposta foi surpreendente. Ele quase não dormia, e, no escuro da noite, podia se ver dois fachos de luz esverdeada quebrando a escuridão do quarto. Eram seus olhos brilhando. E tem mais, o próprio Alírio disse a esposa que contava carneirinhos pra dormir. Mas seus carneiros eram elétricos. Percebe?
Se o senhor detetive tem insônia e conta carneirinhos pra dormir, esse é um bom sinal. Pode parecer engraçado, mas é a pura verdade. Androides sonham com ovelhas cibernéticas. Nada mais evidente.
Ufa! Meus carneirinhos são de verdade! Retrucou, Saulo, em tom de piada.
Dr. Van der Leidjen então propôs uma entrevista com uma autoridade que protegia esse causo, posto que havia interesse internacional no sigilo desse fenômeno, incluso, o crime.
Marcaram outra data, mas Saulo percebeu que tinha alguém que lhe podia dar uma explicação: o agente que custodiava a esposa do pastor.
Voltou às pressas, quase a correr, até o hospital do Sancho. Temia que o plantão do amigo, Wilson, era esse o nome do agente, já tivesse acabado. Por sorte, o encontrou no portão principal, já de saída.
Wilson, quem é essa autoridade desconhecida que te colocou de plantão, protegendo essa senhora?
Saulo, eu não sei. Mas se tem alguém que sabe é o professor Eustórgio!
Van der Leidjen, o pesquisador?
Sim. Foi ele quem trouxe o ofício me designando pra essa missão. O delegado me disse que ele é assim com os generais do Comando Militar do Nordeste. Nem pensei duas vezes, né. Eles que mandam. Toma cuidado com essa história. Deixei você entrar porque te devo favores. Tu sabes. Naquela emboscada, em Arassoiaba, se tu não fosse bom de dedo, eu tinha me lascado. Mas, não mexe com esse povo fardado, não.
Certo, amigo. Pode deixar. Tou fora!
***
Dias depois, na Delegacia do Paudalho:
Saulo! Ó, Saulo, vem cá!
Era o delegado, Dr. Daniel Fidélis, aos berros!
Diga, Chefe!
O que tu andas fazendo? Teve aqui um estafeta com uma mensagem confidencial pra tu! Olha o remetente!
Brigadeiro Ivson Borges, II Comando Aéreo do Recife.
***
O Dr. Fidélis liberou a viatura, e Saulo se mandou pro lugar chamado, Porta Larga, zona sul do Recife.
***
Então o senhor anda xeretando as coisas sigilosas das Forças Armadas?
Eu? Não senhor!
Não minta! Tem uma pessoa aqui, na sala ao lado, que pode testemunhar contra o senhor. Conhece o professor Van der Leidjen?
Sim, senhor!
O brigadeiro do Ar, Ivson Borges, pegou do rádiotransmisdor e deu um comando:
Tragam-no!
O professor Van der Leidjen entrou na sala, com ar de surpreso, escoltado por dois soldados.
O brigadeiro mandou o professor sentar, e falou por meia hora. Disse que o pastor estava desaparecido. Disse também que o serviço de informações da Sétima Região Militar tinha um relatório completo sobre as pessoas que estão no entorno da família do pastor. E que, por isso, nós, eu e o professor Eustórgio, estávamos detidos, até que o pastor aparecesse.
***
Final
No fim da tarde, depois de horas de espera, sem um cafézinho sequer, veio a ordem de soltura. O ciborg, Alírio, foi encontrado zanzando na praia de Candeias.
O professor voltou comigo na viatura e pediu para eu desembarcar com ele, em Teyu’piog. E eu me vi, novamente, naquele palacete, curioso por saber de que se tratava aquilo tudo.
Arremate
Daqui pra frente, preciso alertar meus 13 leitores, que apenas repasso o que ouvi do comissário Saulo Santos, sendo dele toda a responsabilidade pelas informações confidenciais aqui transcritas.
1 – O nome Alírio, que significa, “meu pastor”, em hebraico, era um codinome, usado por uma equipe de neurocientistas e neurocirurgiões de vários países, num projeto militar, ultrassecreto, chamado Nova Gênesis, que testava um ente trans-humano.
2 – A congregação protestante em Teyu’piog tem origem nos Estados Unidos e foi escolhida e preparada para receber o primeiro experimento de um ciborg, ou seja, a mistura de órgãos humanos e cibernética, pesquisada desde o pós-guerra, na corrida tecnológica entre as duas grandes potências da guerra fria.
3 – Alírio foi um experimento que falhou e vai ser desmontado, em breve. Ele é considerado inimputável e um ente despersonalizado para fins jurídicos. Vai ter seus órgão ciberneticos retirados e ficará sob observação da equipe de neurocientistas, até a sua morte natural ou sua eliminação para “queima de arquivo”. Outros ciborgs estão em testes pelo mundo, principalmente no jovem Estado Sionista, há poucos anos criado pelas Nações Unidas. Lá esses seres cibernéticos devem ser testados nas forças de guerra, em luta contra os povos da região, que se opõem à criação dos kibutz judeus na Cisjordânia ocupada.
4 – Dona Lourdes Leitão morreu de falência múltipla dos órgãos e o pastor Alírio morreu de velho, na cidade de Salvador, pra onde se mudou, depois da aposentadoria. Dizem que morreu cego e na velhice seus olhos foram retirados das órbitas para serem implantados em outro ciborg.
***
Eis o outro lado do causo do pecado escondido da Queira Deus, descoberto pela insistência do valoroso comissário, Saulo Santos.