O pecado escondido da Queira Deus

Revisitando as ideias dos maharishis hindus, numa antiga enciclopédia de curiosidades, lembrei da recomendação de que nossa realidade é maya (ilusão). E, a partir disso, faço a ilação que me ocorreu, antes de lhes contar esse causo:

Se a realidade em que estamos é uma ilusão,  carecemos todos de uma (des)ilusão, para vermos o que realmente somos e vivemos.

A propósito dessa realidade paralela (ilusória),  vai nessa historieta, uma preocupação de ordem vital e urgente. Não devemos permitir uma teocracia no nosso país, seja sob o domínio de qualquer religião que seja. A laicidade nos protege da opressão que um dia descanbou nos Tribunais da “Santa” Inquisição.

As entranhas da nova igreja cristã, ou que se apresenta como tal, são sinistras, por abrigaram aquilo que o seu fundador, o Cristo, chamava de hipocrisia. Portanto, tem pelo menos dois milênios, essa face oculta de certas congregações de fachada, que escondem o apego ao poder, à riqueza e à luxúria. Hipócritas!

Lembram de quem ofereceu ao Cristo,  no deserto, poder, riquezas e glórias terrenas?

Sim. Ele mesmo: o capiroto.

***

Dito isso, me volto pros fatos acontecidos na congregação cristã da rua Queira Deus, em Teyu’piog:

1

Talvez ninguém lembre, pois era um tempo sem as facilidades de comunicação de nossos dias. Mas houve um terrível caso de pedofilia na igreja de crentes ali, às margens do riacho Pacheco, em Teyu’piog.

Era um pastor muito distinto e erudito, de modos delicados e gentis. Eu diria, um Lord inglês.

Mas pecava pela concupiscência dos olhos.

(Peço licença pra esclarecer que nesses contos e causos há fatos e pessoas reais e fictícias. Os nomes das pessoas reais serão pseudônimos inventados por mim, principalmente quando exponho deslizes, pecados e crimes alheios. Mas há sempre um propósito ao escolher temas e fatos. Esse propósito espero que meus 13 inteligentes e sensíveis leitores, percebam nas entrelinhas do escrito. Fecho o parêntesis, que há de servir para todos os meus textos.)

***

Alírio era o nome do pastor.  Muito querido da igreja e, principalmente,  da juventude. Tinha ideias libertárias,  que, de certo modo, se contrapunham à doutrina da denominação a que servia.

Havia, no entanto, algo esquisito, estranho mesmo, nos olhos de Alípio. Eram olhos absurdamente verdes e, no confessionário, as jovens se diziam magnetizadas por aqueles olhos profundos.

Muitas jovens crentes suspiravam pelos corredores do templo:

Ai! Aqueles olhos verdes...

**

2

Cabriela

Chegara de Sertânia, uma família modesta, mas muito dedicada à igreja. Tinham parentes no Pacheco, ali pertinho e vieram congregar na Queira Deus. A filha, conhecida de todos por Capí, sim, isso mesmo, por ter o notário trocado o G pelo C, lá naquele distante cartório do interior. Ficou Cabriela, a cabocla sertaneja. E não derivava de caprino, mas, ficou assim, devido ao erro ou distração daquele infeliz notário.

Bela e feliz, a mocinha, uns 14 aninhos. Nem se importava com o apelido de Capí, que seria a Gabi, de Gabriela.

Logo, Alírio aproximou-se da família e Capí ficou hipnotizada pelos olhos verdes do pastor. Meses depois, morrendo os pais, em trágico acidente, numa viagem ao sertão,  Alírio resolveu perfilhar a menina. A igreja achou louvável a iniciativa de seu líder. A sorte de Capí estava decidida. Iria morar na casa pastoral, nos fundos do templo. A esposa do pastor, Lourdes Leitão, não opôs óbice algum. Era obesa e  estéril e Capí seria uma ótima companhia.

Essa é a fachada desse drama.

Capí, meiga e sonhadora, com todo o viço da puberdade, nutria uma verdadeira adoração pelos seus benfeitores. Chegou a chamar dona Lourdes Leitão de, mãinha. Era um doce de menina. Mas não era correspondida. Dona Lourdes tinha um extremado ciúme do marido, embora já lhe perdoara vários deslizes. Sedutor das jovens e até de algumas casadas, Alírio não tinha freios nas suas paixões.

Seu sogro, um velho presbítero congregacional, chamava Alírio de, “Salomão” pela quantidade de concubinas daquele sábio rei bíblico. Era uma chacota machista e conivente com os modos do genro namorador.

***

Alguns meses depois, a igreja foi surpreendida pelo sumiço da Capí. Uns diziam que ela fugira com Josué,  um rapaz bonito, morador da rua da Alegria. Josué apareceu na igreja e negou. Talvez tivesse fugido pra Sertânia,  pra casa da avó.  O pastor viajou pra lá e nada!

Um ancião da igreja propôs chamar a polícia.

O pastor se opôs, veementemente. Isso seria um escândalo. Ela vai aparecer, gente. Vamos esperar!

E esperaram, nove longos meses. Dona Lourdes Leitão,  cada vez mais obesa, não levantava da cama pra nada e passava o dia a chorar por Capí.

Até que um dia, veio de Sertânia,  um médium. Era um velho cacique xucuru. Disse que o espírito da moça pedia a presença dele.

Os crentes não gostaram disso de espírito.

Mas, o cacique disse que era ele ou a polícia e, até, a imprensa.

A igreja se rendeu. Melhor esse médium maluco do que o escândalo.

A touceira de capim

O cacique, esperto nas coisas da vida, já havia feito contato com os detetives da Civil, um seu amigo, comissário de Paudalho. E começaram a vasculhar as cercanias da casa pastoral. Lá nos fundos corria o Ribeiro Pacheco,  afluente do Rio Tejipió.  Notava-se na margem esquerda do riacho, uma enorme touceira de capim santo, que de tão grande e viçosa, chamou a atenção do cacique e do detetive.

Algo estranho estava acontecendo ali, disse o médium. E pulou dentro d’água.

Meus 13 leitores não vão acreditar. Aquela touceira eram os cabelos de Capí. Seu corpo jazia sob as águas e deu trabalho para ser retirado pelos profissionais da polícia científica.

Essa estória foi contada pelos moradores antigos da Queira Deus e, pasmem,  nada saiu nos jornais. Dona Lourdes Leitão foi internada no Sancho e, dizem, morreu de desgosto.

O pastor foi rapidamente substituído e ficou afastado por muitos anos do local. Dizem também que a Loja Maçônica a que ele pertencia ajudou a abafar o caso e arranjou um bom emprego pra ele numa grande loja de departamentos,  na Av. Conde da Boa Vista, onde se aposentou.

Na tribo Xucuru, conta-se a versão do velho cacique:

Eu sempre desconfiei daquele casal, crentes de fachada. A velha descobriu o caso entre a mocinha e o pastor e fez vistas grossas, até que veio a gravidez indesejada. Então,  marido e mulher afogaram a menina gestante na parte funda do riacho Pacheco e os encantados me levaram ao corpo, porque Capí era da nossa linhagem. Até seu nome é Caapii, caá- mato, como em caatinga, e pii, fino, do antigo tupi ka’pii, este de ka’a ‘mato, erva, planta em geral, mata’ + pii ‘fino, delgado’.

A nota mais triste e trágica, relatada pelo comissário Saulo Santos, de Paudalho, foi a presença do  feto, encontrado pelos legistas, dentro do cadáver da moça, um pequenino xucuru, que nem chegou a nascer. Deus o tenha!

Por essas e outras, que não pode haver teocracia. Todas as pessoas são livres para cultuar seus deuses e venerar seus santos!

Amém!

Assim seja!

Axé!

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