A ideia, leitores, é ir ouvindo os temas dos filmes de Morricone, começando por Malena, da linda Mônica Bellucci, posto que essa dissecação da vida sexual da boa idade é comprida e modorrenta, mormente, para os jovens ansiosos desta quadra inicial do século XXI.
Da Senectude
1
O corpo humano não passa de um artefato psicossomático para uso da consciência, diz um desses maharishis hindus.
Não me parece de todo improvável. Desde que se compreenda que o somático possui uma espécie de psiquismo biológico, que perpassa todos os órgãos, incluso o cérebro. Esse psiquismo, essa coisa inteligente dentro da gente possui miríades de dispositivos informacionais, chamados genes.
Deve haver gene pra tudo: gene de Deus, das doenças, da vitalidade, da senectude e… da morte.
***
Venham comigo:

O dia vai amanhecendo, as cigarras atiçam o Sol. Galos cantam e as fruteiras estão floridas. É verão no Nordeste!
Letícia acordou cansada, mas, feliz. Afinal, encontrara o grande amor de sua vida. Depois de perder a juventude ao lado de um marido irresponsável e sexólatra, conheceu Seu Francisco, dono de uma padaria em Teiu’pyog. Maduro, beirando os setenta, mas, arretado de bom.
Chico era português, da cidade de Braga. Divorciado, com os filhos já casados, estava há muito tempo no Recife. Começou como padeiro, na vila La Roque, com seu Armando, dono da famosa padaria da rua Leandro Barreto. Depois, comprou um forno usado e botou negócio próprio, no Totó, logradouro bom pra comerciar, entre a linha férrea e o rio que dá nome ao bairro. O negócio deu certo e logo Seu Chico era dono de dezenas de casas de aluguel, em Coqueiral e no Pacheco.
A felicidade de Letícia só não era completa, porque Chico queria vender tudo que tinha no Recife e ir morar com ela na região do Algarve, em Portugal.
Vamos embora, morena flor, tu hás de ser feliz em Portugal!

Mostrou-lhe fotos das praias lusitanas, numa insistência danada e, Letícia, nada decidia:
Vou pensar, Chiquinho! Vou pensar…
O fato de Francisco ser idoso pesava na sua decisão. Letícia, aos 55 anos, ainda tinha um apetite sexual de adolescente e seu médico até dizia que ela tinha saúde pra gerar filhos. Mas, Chico era tão carinhoso…
***
Dia seguinte, resolveu se aconselhar com sua amiga, dona Amara, que casara com um homem mais velho e tinha muito tino pras coisas da vida.
Entra, Letícia! O que te traz por aqui, tão cedo?
Dona Amara, arranjei um português, apaixonado por mim. Quer me levar com ele! O que é que eu faço? Ele é um idoso!
Enquanto Dona Amara Leonídia pensa no que responder, ouçam mais um pouco de Morricone:
Amara Leonídia começa a pensar na própria vida e o que já passou com o companheiro. Juntos enfrentaram o período mais difícil da ditadura, as perseguições políticas, tanta coisa, tanta luta. Mas a dedicação de Seu Baixa com ela era tão grande, que tudo passou, suavemente.
Como é esse seu português? Carinhoso? Atencioso? Qual a idade dele?
Ele tem 68 anos, mas é cheio de vitalidade. Muito caseiro, trabalhador…
Não foi isso que eu perguntei. Olhe, Baixa é mais velho do que esse teu português, cuida do pomar e das flores dele, mas, eu sou o centro das atenções do meu velhinho.
E naquelas horas? perguntou Letícia, olhando pro chão.
Oxente, Baixa é macho que só. Não troco por nenhum garoto!
Mas as coisas não devem ser assim. Eu conheci o Luiz Henrique, teu ex-marido. Bom de cama, galanteador, cheio de lábia. Até poesia fazia.
Olha aqui: cama não é tudo, mulher! Há coisas num companheiro que antecedem o ato sexual, o coito. É preciso observar bem. Afinal, irás pra longe de tudo. Pensa bem…
Chico e Baixa se conheceram, dias depois. Ambos tinham muita história pra contar e isso renderia boas conversas.
Havia algo em comum entre os dois sexagenários. A vida lhes ensinou a paciência e a temperança. Não precisavam mostrar nada pra ninguém e essa coisa de afirmar macheza, virilidade, nem passava por suas cabeças, nem aflorava nos gestos, nem nas palavras.
Mas estavam muito felizes e apaixonados. E disso falavam:
Como foi com dona Amara? Ela é bem mais jovem do que tu, Sebastião!
Nem sei direito, Chico. Ela namorava meu jardim e eu era encantado por ela. E então, aconteceu…
Da senectude
2
Estudos modernos chegaram a mapear todos os nossos genes, o famoso genoma humano. Desconfia-se que há nesse intrincado de ácidos e coisas do tipo, um gene determinante da morte. Funciona assim: se o indivíduo não morrer de acidente, de doença grave ou de outra causa exterior, e for avançando em anos vividos, toca um alarme eletroquímico:
Artefato obsoleto!
Defina-se a falência do sistema psicossomático.
Ou seja: Morte!
Semanas depois dessa conversa, Seu Francisco viajou pra Portugal.
Letícia ficou chorosa de saudade. Entre eles, um oceano Atlântico, feito de lágrimas.
Amara Leonídia tentava consolar a velha amiga:
Sossega, Letícia! Daqui uns dias ele regressa!
E Letícia chorava:
Meu coração diz que ele não vai voltar nunca mais!
Deixa disso, menina! O Francisco é forte, cheio de vida!
***
A notícia chegou pelos Correios, datada de 7 dias do mês de agosto. Um acidente trágico reduziu as ilusões de Letícia a pó, literalmente.
Chico alugou um carro de passeio e numa autopista entre Lisboa e Bonn, na Alemanha, Chico cochilou e foi atingido por uma imensa carreta. Morreu carbonizado.
Letícia criou uma coragem que não tinha e foi jogar as cinzas de Francisco sobre o Tejo. Era o último desejo do falecido.
Da Senectude
3
…portanto, nos recônditos laboratórios da genética, há uma árdua tarefa, quase alquímica, um opus alchimicum: desvendar em que gene se esconde o anúncio da senectude e da morte.
Alguns biólogos, cristãos ortodoxos, defendem a ideia de que Jesus veio abolir a morte. E o cristianismo tem por meta concluir a missão redentora do Cristo. Para eles, impedir o start da morte dentro do genoma humano é algo imperioso e sagrado.
***
Tu lembra dele, Bastião?
Dele, quem?
Do português que veio aqui, mês passado, com Letícia?
Seu Baixa não lembrava. Há poucos dias estava estranho e calado. Só falava da morte do pai. Precisava avisar os parentes, no Pacheco. A verdade é que seu pai morrera há 40 anos atrás. Seu Baixa estava perdendo a memória. O gene definhador começara sua inexorável tarefa…