Parece que o deus Eros provoca, nos velhinhos, a transposição das papilas gustativas para as pupilas, de sorte que os anciãos que insistem e têm saúde para tal, saboreiam a vida com os olhos. Observar se torna um prazer tal e qual o paladar ou a degustação. Esse erotismo nos olhos apalpa as coisas e se torna uma força vital e vitalizante. Não há pecado. O idoso observador sente mais ternura do que tesão.
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Quem andou pela Estrada do Curado, nos idos de 1970, deve ter conhecido “Mô Tí“, ou Meu Tio, cidadão com quase 100 anos, que era o maior “tirador de onda”, de pulha (no sentido de deixar o interlocutor “empulhado”), o que hoje se diz “pegadinha”; mas nào só isso.

Antes do advento do motel, os lugares ermos eram o refúgio dos amantes e a velha olaria do Filipe Camarão era o cenário das mais tórridas paixões carnais.
Pois, Mô Tí era um conhecido voyeur de muitas cópulas escondidas nas galerias e fornos da olaria extinta. Por conta disso, ele é uma quase lenda urbana para aquela juventude dos anos dourados de Teyu’piog, eu, entre eles.
Mas não é sobre isso que se vai falar, nessa breve estória. O mote é o erotismo na terceira idade.
Eu disse, erotismo, não, vida sexual. Ressalvando que só entre quatro paredes se revela essa hora de explosão orgonica das pulsões das pessoas apaixonadas.
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Jota Medeiros
Jota Medeiros era um caminhoneiro muito querido das moças do Teyu’piog. Pra nós, adolescentes cheios de hormônios, era o nosso ídolo. Namorava as mais bonitas, as mais gostosas. Bancárias, estudantes, domésticas, casadas, independentes, todas…
Ah… que inveja!
Foi Jota Medeiros quem me contou o causo a seguir:
Estava com uma namoradinha, nas preliminares, num refúgio entre carrapateiras, que descobriram no fim da rua Paralela da Estrada do Curado. Era um ermo total, a não ser pela existência de uma casinha de taipa, a um canto do matagal.
Por conta da virgindade da moça, coisa séria naqueles anos, Jota ficaria apenas nas preliminares, conhecidas por sarro. Forrou o chão com sua jaqueta Lee, despiu as calças e estava de bunda pra cima, quando sentiu uma presença no ar. Focado nas preliminares, com a moça apertando fortemente suas têmporas entre as coxas, não viu o vulto que se aproximava, até que sentiu uma bengala fustigando sua bunda.
Jota deu um salto!
Que é isso, filho da p.!
Era Mô Tí, saído das sombras, arqueado, com aquela braguilha intumescida pela hidrocele, que retrucou:
Fdp, nada! Meu quintal não é recurso*!
A menina baixou a minissaia e, constrangida, ameaçou correr dali.
Jota, aborrecido, pegou na sua mão e subiram a ladeira da rua Paralela, na direção da Vila dos Bancários, onde morava a sua jovem namorada.
Essa história contada da perspectiva de Mô Tí, com a picardia de um velho de pastoril profano, correu as esquinas e bodegas de Teyu’piog. Sempre recontadas pelos homens, carregadas do machismo entranhado nas estruturas patriarcais da cultura popular.
Mô Tí, que era quase cego, contava detalhes das sardas da bunda do Jota, que, por mais que tentasse desmentir a calúnia, nada conseguia. E o nosso Don Juan suburbano passará à história como um bunda de dálmata, que era assim que o Mô Tí descrevia seu traseiro. Da moça, ele nada descrevia, até porque era filha de um amigo próximo e carpinteiro como ele. O corporativismo falava mais alto do que as pilhérias do velhinho. No entanto, a mim, ele confessou que o Jota estava tão entranhado entre as coxas da namorada, que não pôde ver o essencial. E dava uma gostosa gargalhada, ao dizer essa palavra: o essencial.
E encerro essa narrativa com a frase exupèriana, que dizem ele replicou do Hegel:
O essencial é invisível aos olhos.
Talvez o Jota Medeiros possa, se tiver a ocasião de ler essas mal digitadas linhas, descrever o que só ele viu… rsrsrs
* recurso era o nome dado aos quartinhos dos bares de beira de estrada, que antecederam os atuais motéis.