
Overstory?
Eita, século XXI! Guerras, extremismos e teorias do fim do mundo! Releituras fanatizadas de filosofias e religiões.
Onde tudo isso foi gestado?
Eu lhes garanto que, excetuadas as guerras, parte desse século foi gestada no quintal de Seu Baixa, em Teyu’piog.
Gestada, onde?!!!
Calma!
Já lhes explico:
(Advirto-lhes, antes da explicação, que há estudiosos que afirmam, lá eles, que a imaginação antecede (e faz parte da) realidade. A imaginação cria as narrativas acima da história, uma super-história, uma overstory…)

E. B. Brito
***
Pois bem…
Nesse tempo, a estrada velha do Engenho Curado ainda pertencia a Teyu’piog. Era uma estrada carroçável, margeando o que restou da mata de São João, que um dia foi propriedade do André Vidal de Negreiros. A velha estrada serpeava, cruzando as pequenas elevações do terreno, outeiros, colinas, daquelas terras que um dia pertenceram aos engenhos extintos, a sudoeste da freguesia da Várzea: o Peres, o São Sebastião, o São Paulo e outros.
Na esquina de uma de suas muitas travessas enladeiradas, havia uma antiga chácara, erguida sobre uma chã de terra fértil e sombreada. Ali morava Seu João Sebastião, ou Sebastião, chamado, Baixa, viúvo, com alguns filhos solteiros. Fatos insólitos aconteciam naquela pequena quinta, como de resto por todo o arrabalde de Teyu’piog. Fatos bizarros e não apreciados pela ciência, com sua metodologia seletiva e excludente, nem pela religião oficial, com suas crenças e certezas, também segregadoras, mas vários fenômenos ocorriam pelo misterioso, Teyu’piog, um lugarejo com vocação para as anomalias.
Anomalias….
1…um certo estudioso norte-americano incluía em seus estudos todos os fatos e fenômenos excluídos pela ciência e pela religião, numa certa linha de abordagem chamada, Anomalística. Ecos de suas ideias estão nesse causo.
Continuemos…
Ainda não havia eletricidade, ali, na velha estrada, mesmo assim, Seu Baixa era um leitor voraz, um rato de biblioteca, um comprador contumaz de livros usados. Lia muito, ainda que à luz de lamparinas. E nada disso impedia que sua coleção de enciclopédias ocupasse todo um cômodo, nos fundos da casa. (Guardem essa informação, pode ser valiosa para a compreensão desse causo).
***
Amara Leonídia
Naquela manhã, a proprietária do sitio contíguo ao de Seu Baixa, espionava, como de costume, o quintal do vizinho. Poucos quintais tinham a diversidade da fauna daquele:
garnizés, marrecos, perus, galinhas d’Angola, pavões…
Amara Leonídia, professora de primeiras letras, amava contemplar o quintal de Seu Baixa. Sim, era uma contemplação:
uma cerca viva de crotes coloridas e viçosas;
um canteiro de tulipas, vindas de Holambra;
e as frágeis orquídeas, na umidade de um muro de arrimo, lá no fundo do terreiro.
Tá admirando minhas plantinhas, comadre? Indagou uma voz rouca, saindo de trás de uma mangueira.
O senhor num sabe que eu adoro seu sitio, Seu Baixa.
Eu sei, Dona Amara! Mas minha casa está na mira dos milicos. E fico preocupado com gente espionando meu quintal. Mas a senhora é de confiança! Lembra do compadre Honório?
Sim, lembro, sim! Mas Seu Honório proclamava abertamente ser adepto do comunismo, pelas ruas desse subúrbio. Deu no que deu! Foi muito pau, na delegacia!
(Era um tempo em que qualquer mexerico podia botar uma pessoa na cadeia. A ditadura tinha seus informantes, e Seu Baixa, por ser dono de muitos livros, era suspeito de ser subversivo.)
Imagine, comadre, que um primo meu, sargento do Exército, me aconselhou a dar fim a certos livros de Jorge Amado. Ora, veja só que besteira!
Eu sei até quem foi, compadre. Ele me falou. É cuidado contigo, Baixa. Ele gosta muito de você!
E nessa conversa de quintal, eles se entretinham, manhãs e tardes de verão. Os dois solitários: um viúvo e a outra, uma bela balzaquiana, ainda solteira. Baixa tinha um olho comprido em dona Amara Leonídia, mas, era muito tímido.
Tudo caminhava sossegadamente, quando o Exército resolveu dar uma batida na venda de Mané Pereira. Nada encontraram por um motivo simples: Leocádio, comissário de polícia e ex-noivo de Amara Leonídia, avisou dias antes:
Leonídia, avisa ao pessoal da estrada do Curado que “os home” vão dar uma busca por lá!
Eram tempos difíceis! Tortura, sequestros, toque de recolher.
Apesar de tudo, o sítio de Seu Sebastião florescia. Suas ideias também. Livros são perigosos, dizia a propaganda da ditadura. E ele os tinha, às mancheias, livros e ideias!
A Oitiva
E foi assim que chegou aos ouvidos do delegado, a história do Livro dos Danados, que estava na biblioteca que Seu Baixa herdou do avô.:
Que danado de livro é esse? Indagou o Dr Carlos de Sá, na delegacia do Cordeiro, pra onde foi levado Seu Baixa, numa Veraneio azul.
Posso falar, doutor?
Deve!
Eu herdei de meu avô uma centena de livros das mais diversas origens. Esse, em especial, foi escrito na América do Norte e nada tem com soviéticos.
Então é livro de feitiçaria de magia ou ocultismo? Eu soube que o senhor é letrado e que ouve até rádios estrangeiras e tal. É verdade?
Sim. Ouço a rádio Deutsche Welle, por causa da Filarmônica de Berlim. Tenho um xará, o João Sebastião Bach, compositor que gosto muito. É só por isso que escuto essa rádio.
Dr. Carlos de Sá tinha coletado, pelos seus informantes e araques, muitas denúncias falsas e mexericos sobre o interrogado. E de repente, veio com essa:

E essa história de galinha azul? O senhor é xangozeiro? Faz sacrifícios com aves?
***
Enquanto isso, na Delegacia de Teyu’piog, um grupo de parentes e amigos, liderados pela professora Amara Leonídia, buscava informações do paradeiro de Seu Sebastião, chamado Baixa. O delegado de plantão disse que ele foi levado para uma regional pra ser interrogado.
Se não fora a interferência do sargento Moura, da gloriosa PM, eles ficariam procurando por Seu Baixa, de bairro em bairro, pois essa era uma prática costumeira nos desaparecimentos dos suspeitos de subversão: conduzir o preso por vários distritos, para dificultar a sua localização pelos parentes e amigos.
***
Seu Sebastião teve muita sorte. Topou com o Dr, Carlos de Sá em um bom momento… Eram famosas as suas sessões de tortura e de humilhações dos presos em geral e, especialmente, dos presos políticos.
Contudo, por incrível que possa parecer, aquele torturador era leitor de livros de ocultismo e tinha um pé no xangô de Dona Nadir, no Sítio da Trindade.
Pois me fale desse livro dos danados. De que se trata?
E, virando-se pro escrivão, mandou que ele se retirasse.
Essa parte da oitiva não irei por a termo. E, ligue o rádio na Deutsche Welle, por gentileza!
Pela primeira vez, desde o golpe cívico-militar, aquela delegacia foi inundada pela leveza da música clássica.
Fale agora, Seu João Sebastião!
O interrogado, surpreso, fez uma breve peroração:
Confesso que nunca imaginei falar desse assunto numa oitiva…
Desembucha, homem!
Baixa falou:
0 Livro dos Danados não é um livro, por assim dizer, normal, doutor.
Trata-se de uma compilação de recortes de jornal e resumos de estranhos fatos históricos e de narrativas de fenômenos que, aos olhos desavisados, carecem de explicação científica adequada – fenômenos que vão de chuvas de peixes e sapos, a avistamento de luzes estranhas no céu, tudo isso pacientemente anotado pelo colecionador de anomalias, Mr. Charles Hoy Fort.
Lançado originalmente em 1919, O Livro dos Danados vem a ser a mais potente denúncia jamais publicada sobre o dogmatismo da Ciência e da Religião.
***

Dá licença, Dr. Carlos! Tem umas pessoas à sua procura na recepção, anunciou o escrivão.
São parentes e amigos do suspeito…
Suspeito? Nada disso! Sebastião é meu amigo. Mande um agente preparar a Veraneio. Vamos visitar a chácara do amigo Baixa!
Nenhum fenômeno que se possa descrever em Teyu’piog pode ser comparado a esse da oitiva de Seu Baixa, na famosa delegacia do Cordeiro.
Quando a Veraneio estacionou na frente da chácara, juntou gente. O guarda Wilson e o Mago, araque temido pela população, estavam boquiabertos.
Esse é o Dr. Carlos de Sá, aquele que dizem ser o terror dos comunistas?
Né, mesmo, Wilson! Ele botava os presos pra dançar tudo nu, depois de levar chibatadas nas costas. Dizem que eles cantavam uma loa:
“Quem é o delegado mais temido do lugar/ é o famoso e valente/ Seu doutor Carlos de Sá!”
As tulipas do quintal pareciam mais belas do que nos dias comuns; Amara Leonídia sorria por dentro, com uma certeza no peito: não suportava a ausência do vizinho. Era o único interlocutor naquele recanto afastado de tudo. Ela pensava e deixava aflorar uma vitalidade que só se comparava ao viço do jardim de Baixa. O rádio foi ligado e era Schubert, a Serenata, que fazia o fundo musical para seus sentimentos…
***
O regresso de Sebastião fez as plantas do seu jardim se renovarem. As tulipas 🌷 vicejavam, como em Holambra, as orquídeas riam, tímidas e úmidas. Amara Leonídia ria por dentro, como quem descobre uma juventude que se havia perdido.
Os senhores aceitam um refresco? São as melhores pitangas do sítio!
Os dois mal responderam, entretidos no folhear de um velho almanaque. Nem pareciam com um torturador e um torturado…
Aqui estão elas, as araucanas, oriundas do Chile. São acinzentadas, mas os ovos são de um raríssimo verde-anil.

Na rede, madrugada longa, ela disse a Baixa que não saberia viver longe dele.
Eu também, Amara! Os momentos em que imaginei que nunca mais voltaria foram terríveis. Não admitia morrer, sem te abrir meu coração…