
As reminiscências nos Delíquios de Teyu’piog não são mera nostalgia. Não se trata de passadismo. Reflitam comigo:
Beber água é algo muito antigo, né?
Eu diria que é um gesto multimilenar.
Mas, beber água é nostalgia ou necessidade?
Claro que é um gesto absolutamente necessário e vital.
Talvez essa não seja a melhor analogia, mas o argumento é bom.
Então tomemos como exemplo a linguagem humana, falada ou escrita, num idioma qualquer.
O uso da Língua não é nem pode ser nostalgia, mesmo sendo a Língua, um milenar artefato verbal, o seu passado é indispensável ao seu uso no presente.
Um idioma é feito de passado e de processo histórico. No entanto, sem o prineiro, não existiria o segundo. A civilização como a temos hoje é cheia de coisas pretéritas, arcaicas, antiquíssimas, mesmo. Porém, o passado é falado nos becos, nas ruas e vielas do presente, imbutido nas palavras. Sem o passado não haveria Língua, tampouco, a possibilidade do existir humano. O uso da Língua é necessidade básica e não passadismo. Né mesmo?
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Anninka me falava essas coisas com uma leveza que me alçava a uma espécie de êxtase intelectual Sua voz e seu vocabulário me deixavam num prolongado enlevo.
Foi assim que ela me educou, não só para a cama, mas para a vida.
Antes de me ensinar a escrever, ela me fez perceber que a leitura emerge de mim e de meu mundo. Nos meses de inverno, passei muitas noites aprendendo sua geografia, seu relevo, as saliências arredondadas de suas costas, alvas como a areia das praias do nordeste brasileiro. Ela era meu mundo. E me ensinou o erotismo das coisas, a potência das palavras e de como se escreve, vivendo.
Ela amava as proparoxítonas. E dizia que as palavras mais belas da Língua Portuguesa eram ósculo e cópula. Depois, me fazia beijar toda a sua pele, repetindo essas palavras, com voz lasciva e trêmula.
Como esquecer de uma mulher assim?
Cuidava de mim como a um animal de estimação e eu amava ser seu cão.
Cachorrinho… sussurrava em meus ouvidos..
Seu sotaque era suave e pronunciava as palavras como quem canta um cântico gregoriano, ou melhor, como quem aboia uma manada infindável de tons. Às vezes, gemia, às vezes, uivava, loba e mulher.
Foram aulas indeléveis… Invernos eternos…
Tornei- me o que sou, nos braços de Anninka.
E, hoje, só me resta o seu vocabulário…
***
Quem esperava uma interpretação dos Delíquios em Teyu’piog, deve estar frustrado. Nesse pós-escrito, não tratarei da narrativa escrita, mas da vivida. Posto que um texto à clef, por mais contraditório que pareça, não tem chave. Por uma razão simples: ele não tem portas. Nem janelas. Tem vãos desvãos, que se abrem com as chaves da imaginação de quem lê.
Se Anninka existiu, de verdade?
Claro que sim!
Aliás, a existência dela é só minha. Eternamente…
Anninka é a possível tradução de um tempo e de um mundo que passou, que passei. Entretanto, ela está aqui e agora, na língua que falo. Falo e escrevo.
Ela existe dentro desse mundo, dentro de mim.
A esse mundo pretérito, eu denominei, Teyu’piog.
E é só…