Delíquios em Teyu’piog  (ficções à clef)

Lembranças baças:

mamonas,

araçás,

frutas-gogóia;

 

Mainha amanhando a massa, de manhã:

cuscuz com ovo.

De novo,

 

Uma locomotiva que passa:

preta, ela e a fumaça;

 

O Sancho:

Um Sanatório para pulmões;

Vitrais desbotados, na Igreja do Galo;

A luz das claraboias, num delíquio…

A Ilha:

a maré baixa,

o manguezal.

E a voz do vento,

ecoando no areal…

Uma criança come, cru,

um aratu:

Barriga seca deixa essa tontura azul…

 

(fragmentos oníricos, de quando, eu, menino)

 

 

I

one

 

Foi num quintal de Tejipió, que tive meu primeiro delíquio. Lembro até da hora, porque vi o trem das 12:15, passando, lentamente, para facilitar o embarque do Mr .Breckenfeld, chefe da estação de Jaboatão…

(eu estava escondido no mato, catando frutinhas pra comer, quando ficou tudo azul ao meu redor, e eu desmaiei).

É que a miséria grassava pelos arrabaldes e morros do Recife, mormente, depois que o Dr. Agamenon expulsou os ribeirinhos das ilhas e alagados da cidade. Aquilo foi uma tentativa de limpeza étnica. Minha família veio pra Tejipió, numa dessas levas de expropriados da Ilha do Leite.

— Vão morar de Macacos pra lá! E quem não pode viver, morra! vociferava o Dr. Agamenon, líder político da ditadura Vargas.

Longe dos manguezais, dos uçás, siris e mariscos, era intensa a privação de comida e a meninada, esquálida e famélica, começava a saquear os quintais arborizados. 

Notadamente, aquele quintal dos ingleses, rente à linha férrea, que era um verdadeiro paraíso:

mangas,

araçás,

gogóias,

macaíbas,

tudo era tragado com a voracidade de gafanhotos.

***

Lembro que o trem de ferro apitou duas vezes, resfolegou sobre os trilhos e foi desacelerando, desacelerando…

De repente, surgiu, por entre a névoa cinza da Maria Fumaça, lá no alto da escadaria, aquele homenzarrão medonho. Branco, muito branco, assim, albino, sivuca mesmo, com os olhos profundamente azuis.

(…eu espiava, no meu cantinho, escondido, e fiquei boquiaberto por alguns minutos.

É que, lá nos mocambos da Ilha do Leite, de onde eu vim, todos éramos pretos retintos. Para ver um branco, ou mesmo, um mestiço, precisávamos atravessar a longa ponte de madeira, que dava nos fundos do Colégio dos Salesianos. Meu avô me contava de um branquelo judeu, cuja profissão era matar galinhas, de casa em casa, para cabidelas…).

Mr. Breckenfeld saltou de sua escadaria para o comboio em movimento. Era mesmo um gigante! Sua cabeçorra ficava acima da porta do trem, e, por conta disso, ele só viajava dependurado no último vagão. Algum estudioso das raças humanas diria que se tratava de um descendente de algum gigante bíblico, à semelhança de Og, rei de Basã.

Parêntesis

[…E por falar em Og, permitam-me citar um gigante das Letras suburbanas: o Dr. Eustórgio van der Leidjen, morador de um palacete na Av. Dr. José Rufino. É dele a descoberta da verdadeira etimologia de Teyu’piog, que nada tem a ver com tejus e deu nome ao antiquíssimo bairro a oeste do Recife. Dr. Eustórgio discordava frontalmente da etimologia comumente divulgada da palavra Tejipió. De acordo com linguistas e filólogos, Tejipió vem do tupi-guarani tejupió, corruptela de teyu’piog, que significa raiz de teju, planta abundante naqueles sítios. Há uma variante que diz ser multidão de tejus (lagartos),  que se aproxima do que pensava o Dr. Van der Leidjen.

Descendente de judeus holandeses, além da língua de seus antepassados, Dr. Eustórgio era conhecedor profundo de línguas antigas, um verdadeiro poliglota. Ele, do alto de sua erudição, afirmava que, og, sufixo de teyu’piog, vem do hebraico e quer dizer, alto, grande, ou mesmo, gigantesco. No caso dos reis, como o de Basã, era também um título de grandeza.

Em seus Estudos Comparados de Tupi-guarani e Línguas Indo- europeias, diz o nosso pesquisador, que, “em verdade, teyu’piog quer dizer, lagarto gigante”, ou seja, os ancestrais dos nossos silvícolas assim chamavam os dinossauros, que existiram nessas plagas e que um dia serão encontrados pelos nossos arqueólogos…]

 ***

Mas, fechemos o parêntesis e voltemos ao nosso gigantesco chefe de estação:

Meus olhos de menino da maré nunca tinham visto um ser como aquele. Sei que a barriga vazia nos faz ver coisas. A fome, gente, é alucinógena:

Vi um relógio de pulso dourado, que reluzia ao sol do meio-dia;

Aqueles óculos rayban, que só os ricos podiam comprar;

Um quepe, com as inscrições The Great Western of Brazil Railway Company Limited, bordadas em amarelo-ouro…

(…aos meus olhos de criança pobre, Mr. Breckenfeld era a imagem de um rei, de um deus, sei lá!)

***

Acordei com o olho esverdeado do João Polako a me olhar bem de pertinho, olho no olho. Dava pra sentir seu hálito recendendo a uísque ou aguardente, sei lá. João Polako devia ter uma adega diversificada e um gosto por nossa cachacinha.

II

dwa

No entanto, naqueles dias de exploração das cercanias da nova casa de Tejipió, (que agora era de taipa, diferente do mocambo de retraços de madeira e coberto de palha, lá da ilha);

Bem… eram dias de invadir quintais, procurando comida. E, numa dessas incursões famélicas, eu tive um segundo delíquio.

Foi nos fundos de um palacete vermelhão, que tinha um delicioso pomar, de há muito conhecido da molecada das redondezas.

Jaca dura e jaca mole, cajueiros, pitangas

e até um bananal imenso, que margeava o Rio Tejipió, até as franjas da mata dos Uchoa.

Se eu tinha tomado um susto com Mr. Breckenfeld, jamais imaginei ter outro, e, pasmem, ver outro ser tão descomunal, outro gigante.

O palacete vermelhão, o mais bonito de Tejipió, abrigava uma família de estrangeiros enormes. João Polaco, era o vulgo do dono da casa. Jamais esquecerei de sua manzorra, me pendurando pela gola da camisa:

Cê tá roubando minhas frutas, moleque?

Minha vista escureceu, o mundo girou, azulado. Desmaiei de novo.

Ah… acordou! disse o gigante, com surpreendente ternura.

Venha comigo!

E me levou até um alpendre, nos fundos do casarão. Uma mesa estava posta. Sua esposa, loira e linda, me serviu, com um sorriso angelical.

Você sempre desmaia, assim, meu pequeno deus de ébano?

Polaca, 1935
Guido Viaro
Óleo sobre tela, c.s.d.

Ela fora enfermeira na grande guerra e conhecia esses passamentos, essas ‘bilôras, como se diz no popular. Enquanto me dava café com leite puro (do peito de uma vaca leiteira, que mugia ali por perto), a bela senhora me fazia perguntas, uma atrás da outra:

Quantos anos você tem?

Teus pais sabem desses delíquios?

Você toma algum remédio?

E virando-se para o marido:

Esse menino precisa de um médico. Isso parece epilepsia, John!

Né nada disso, Anninka! Você não vê que ele está muito magrinho. Desnutrição, meu amor, Desnutrição! O nome disso é FOME, querida, melhor discar pro Dr. Eustórgio!

III

drie

Cinco minutos depois da ligação telefônica, um luxuoso Simca Chambord preto parou na frente da casa dos polacos. Era o Dr. Eustórgio, em pessoa. De terno escuro e gravata de listas verdes e amarelas, aquela figura venerável adentrou pelo suntuoso jardim do palacete. Não era médico diplomado, no entanto, era sempre consultado no bairro, sobre doenças raras.

Rábula, nos assuntos jurídicos, esculápio, nas questões médicas, o venerando doutor, com o auxílio da esposa do Sr. John, começou mais uma série de perguntas, que eu, assustadíssimo, mal respondia, cabisbaixo. O medo e a vergonha me faziam encolher feito um imbuá.

E, voltando-se para o seu anfitrião, confirmou, com um sorriso jocoso no canto da boca:

Fome, sim! Fome e verminoses! Tens razão, John! São delíquios de fome! Pela semiologia que você e sua amável esposa referiram, não se trata da moléstia sagrada, a assim chamada, pelos antigos, alferesia, essa criança está desnutrida e faminta!

Dr. Eustórgio, então, numa oratória professoral, discorreu sobre os primórdios da doença sagrada, recitou de cor o Lunário Perpétuo, cujas prescrições bizarras, faziam rir ou corar, a bela enfermeira.

Dizia ele:

No fim do século passado e no alvorecer deste século XX, chamava-se alferesia, a essa moléstia.

Em 1901, meu mestre, Dr. Batllori, debruçado sobre essa doença, asseverava que:

“El chiquillo ha sido maleficiado ó tiene alferecía ó tiene hambre…“

Ou ainda:

“La alferesía en los niños la curan dándoles el cocimiento de las pepitas de membrillos.”

O Almanaque da Farmacopéia Popular recomenda:

“Contra la alferecía se prescribe dar a tomar al niño enfermo, en pequeñas copas, orines de su madre con polvos de coral rojo o madrépora canariense.”

Eles falavam naquela língua engrolada e eu nada entendia. Delíquio pra cá, delíquio pra lá! Eu, hein!

No entanto, meu verdadeiro delíquio se daria anos mais tarde. Aprendi essa palavra, na prática.

Eu vivi minha pré-adolescência sob os devotados cuidados de dona Anninka. Cresci saudável, um negrão parrudo, e, aos 17 anos, fui contratado como caseiro e cuidador do pomar.

Foi então que descobri duas coisas:

Primeira:

Seu João Polaco tinha uma esposa e filhos na Europa, para onde viajava, durante todo o verão do hemisfério norte. Seis meses lá, seis meses cá Era bígamo.

Segunda:

a enfermeira Anninka não era sua esposa de verdade, mas veio com ele, escondida dos seus pais, ainda adolescente, e, no Brasil, viviam como casados.

Ela me contou tudo isso, naquela noite chuvosa, com raios e trovoadas sobre Tejipió. Seu João havia embarcado havia meses. A patroa estava inquieta e estranha, muito estranha. Olhava pra mim de um jeito diferente, com seus olhos verdes agateados:

Não vá pra casa hoje, meu pequeno deus de ébano. Estou com medo desse temporal.

Sempre que precisavam de mim, eu dormia na cocheira, com as vacas. Eu disse que sim, e, quando ia me dirigindo pro quintal, Dona Aninka pediu pra que eu esperasse. Entrou no quarto do casal. Logo, voltou, linda e loira, envolvida numa camisola diáfana e florida. Sua silhueta com curvas perfeitas entrou pelos meus olhos arregalados, entre a surpresa e o acanhamento.

Deitou-se no enorme sofá da sala, aquela mulherona, de quase dois metros:

Vem cá, pequeno deus de ébano. Deita sobre mim…

Senti partes do meu corpo enrijecerem e lembrei da minha mãe dizendo: menino, se você pensar safadeza, Deus castiga e você pode virar uma estátua de sal…

Foi assim, nessa noite de toró sobre o Recife, que conheci os segredos do casal e aprendi o significado de delíquio, palavra que soava tão bem na voz fricativa e sensual da minha polaca.

Foi minha primeira vez com uma mulher e meus primeiros jáculos de sêmen dentro de uma…

E essas belas palavras, ébano, jáculos, cópula e outras tantas, também aprendi com a bela Anninka, meu primeiro amor.

***

Despertamos com os raios do sol na claraboia, extenuados, num quase delíquio, sobre a alcatifa da sala de estar…

Recife, 04/02/2024

Luiz Eurico de Melo

Da série Teyu’piog, ficções à clef

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3 replies to “Delíquios em Teyu’piog  (ficções à clef)”

  1. O Ele-lírico de Eurico eu conheço de tempos: duas décadas, lá vão! Com incursões na música , na poesia e na prosa. Pois bem! Bom provador que é traz narrativa fluídica que comecei ler com sofreguidão, com votos de que seja bem absorvida pelo leitor em geral. Vai lá, Luiz Eurico! Narra!

  2. Tenho orgulho imenso em dizer-te que és meu amigo, compadre Lula Eurico. Um poeta de primeira classe!!! Suas escritas são acalantos pra alma. Prbs meu cumpadi lindo demais ✨👏🏾🤗😍 Lendo e relendo e repartindo esse bem precioso, entre tantos outros para os os outros amigos e amigas tbm. ❤️🤗👏🏾✨🍀🌿 Evoé🥳

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