
Uma epígrafe
Para Pierre Nora: “Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não há memória espontânea, que é preciso criar arquivos, organizar celebrações, manter aniversários, pronunciar elogios fúnebres, notariar atas, porque estas operações não são naturais”.
1 – Brevíssima história da ID do Arruadinho
Corria o ano de 2020, quando me veio a ideia de fazer intervenções na paisagem da comunidade onde moro:
Sinalização, arborização, ajardinamento, murais e outras ideias que me vinham à cabeça.
Considero, como Pierre Nora, (epígrafe acima) que não existe memória espontânea e que os registros precisam ser feitos por nós. Para isso, contactei o artista plástico, Fernando Serpa, com quem faço parcerias há, pelo menos, umas 3 décadas.
Começamos por uma identidade visual, que afixaríamos logo na entrada da rua principal. Tomei de um cartão de visitas, e, no verso, desenhei, a lápis, as 7 casinhas mais antigas e o S, do caminho centenário, onde elas foram erguidas; depois, contornei o desenho com uma oval, feito uma moldura e enviei essa imagem para o Fernando. Tudo tinha de ser feito virtualmente, posto que vivíamos o isolamento social de uma pandemia.

Assim surgiu o que seria a placa do Arruado do Engenho Velho.

by Fernando Serpa
Hoje, pesquisando nas redes sobre o tema Afrocentricidade, como costumo fazer, quando um assunto me interessa, me deparei com os ideogramas africanos do grupo linguístico, Akan, especialmente uma simbologia chamada, Adinkra.

(Os Adinkras constituem um sistema de escrita pictográfica e de ideias comprometidas com a preservação e transmissão de valores fundamentais.)
Era exatamente nisso que estávamos pensando, quando idealizamos a nossa identidade visual:
Preservação e transmissão das referências fundamentais da comunidade.
Como?
Através de mensagens simbólicas, em pinturas, murais e painéis ao ar livre, que denominamos de intervenções artísticas na paisagem.
Imaginem, meus 13 leitores, qual não foi minha surpresa, ao ver, nesses adinkras, a ave mítica, Sankofa e toda essa simbólica, riquíssima, para quem se interessa pela memória de um povo.
Nunca é tarde para volver ao passado, diz-nos Sankofa, com seu pescoço voltado pra trás:

O conceito de Sankofa (Sanko = voltar; fa = buscar, trazer) origina-se de um provérbio tradicional entre os povos de língua Akan da África Ocidental, em Gana, Togo e Costa do Marfim. Em Akan “se wo were fi na wosan kofa a yenki” que pode ser traduzido por “não é tabu voltar atrás e buscar o que esqueceu”.
Fonte: Fiocruz
Parêntesis – o presente
Eu tinha recebido um presente do amigo Rodrigues, colecionador e artista plástico: um pedaço de uma grade com arabescos. E pedi ao Serpa para fazer a arte da ID com aqueles elementos. Era questão de gosto, de estética.
Mas agora, ao ter conhecimento dos ideogramas Adinkras, vi que nada foi por acaso, nem o presente do amigo Rodrigues, nem a ideia de circundar a imagem com uma moldura oval (de ovo). Estávamos, intuitivamente, criando uma espécie de brasão, numa heráldica afrocentrada.

Abaixo o ideograma que aparece na grade:

(ideograma)
2 – Uma heráldica afrocentrada?
Sim. Isso mesmo.
E já explico:
Como vinha dizendo, quando da feitura da identidade visual, buscávamos uma simbólica, ou seja, uma maneira simples de comunicar com os moradores da comunidade, mesmo os que não soubessem ler. E foi sem querer, repito, que chegamos a essa composição. De qualquer modo, agora se pode depreender, nessa imagem, uma espécie de heráldica, num brasão, ou algo do tipo.
A heráldica, ou seja, a arte de criar armas e brasões, buscava a mesma coisa que nós, mesmo em outro contexto e com outros fins. Nas cavalhadas, nos torneios festivos, e, principalmente nas batalhas, os cavaleiros levavam as cores e as armas de seu clã, ou de seu reino, para que fossem distinguidos dos inimigos. Essa infantaria era em geral composta de soldados analfabetos. E as “armas e brasões assinalados” eram a maneira de lhes comunicar quem era quem, naquelas sangrentas batalhas. Os símbolos comunicavam quem era aliado, pelo desenho nos escudos, nos elmos e, até, na coberta das selas das montarias.
Nossos modernos guerreiros são os moradores e moradoras, alguns analfabetos, ou semianalfabetos, devido à sua infância de agricultores. E nossa simbólica afrocentrada cumpre com sua missão de comunicação simples e direta.
Conclusão
Os ideogramas dos nossos ancestrais que, intuitivamente, compõem a nossa identidade visual, calharam de ser justamente, a ave sankofa e a moldura oval. A primeira aponta para o passado, através do ideograma deixado em nossa arquitetura (mosaicos, grades, portões, como vimos acima). Nossa heráldica em nada deve à dos europeus. A mítica Sankofa nos ensina a ir buscar nossa história, silenciada e invisibilizada, pelos colonizadores. E a moldura oval, contendo as casas da usina, sugere seu ovo no bico, símbolo do futuro, apontando a potência ancestral que está nessa comunidade, mormente, nas famílias cujos ancestrais foram trabalhadores escravizados, nesse velho engenho.

Em tempo: (parafraseando Nora, se a memória se cria, eu a invento rsrs). P. ex.:
As Sankofas de asas abertas, nos 4 cantos da placa, podem remeter à superação dos limites do Engenho Velho.
