
pássaro mítico africano
A ideia de buscar meus ancestrais de África me parecia, até pouco tempo, ingênua e supérflua. Tinha até um certo preconceito com os mórmons, que têm verdadeira obsessão por árvores genealógicas.
No entanto, ao entrar em contato com os estudiosos e estudiosas de uma afrocentricidade epistemológica*, despertei, como que de um sono profundo. Alguma corda, no recôndito de meu ser, vibrou, afinal; e, a partir daí, essa crosta eurocêntrica que me foi acrescentada ao longo dos meus 68 anos, estremeceu, ante a potência de minha ancestralidade.
Não se trata mais de buscar uma genealogia. Sei que Américo e Luiza, meus bisavós paternos, fundadores do que hoje é a Ilha do Leite, não tinham sobrenomes. Mesmo libertos. E jamais saberei da sua origem em África e de seus verdadeiros nomes.
Não se trata, portanto, de buscar um tempo histórico, um pretérito com biografias. Mas, potências que se afirmaram no espaço historicizado, apesar de diaspórico, como Américo e Luiza, vidas humanas que floresceram e frutificaram, naquele terreno inóspito, entre mocambos e palafitas.
Nem se trata de buscar mera metafisica ou uma filosofia meramente especulativa. Esse viés afrocêntrico, que quase apalpo com meus olhos, mais parece o desabrochar de uma ontologia vital e vitalizante.
Trata-se, enfim, de pensar africanamente…

meus avós paternos
Como assim? já devem estar a perguntar os meus 13 leitores.
Ainda não sei muito bem.
Mas uns lumes, uns vislumbres, feito um bando de uauás, vagalumes, na noite escura e sem luar, vão me clareando a mente. Em verdade, busco mais uma iniciação do que uma aprendizagem. Mais um fazer do que um ser. Pouca metafísica e mais vivência, numa nova centralidade cartográfica e num mapa mundi de ponta cabeça. Não quero me orientar, nem me nortear, quero mesmo é sulear, como propõe Aza Njeri.
Esse é um bom começo para um saber afrocêntrico?
Talvez.
Entretanto, já comecei a leitura do Pensar Nagô, de Muniz Sodré, sugerido pelo professor Jayro de Jesus, em excelente vídeo no canal, África e Diáspora: História e Cultura, que abaixo incorporei.
Creio que é uma pequena dobra de pescoço de Sankofa, essa leitura e esse vídeo. E assim, a ave mítica vai me preparando para buscar o ovo (futuro) no passado e para alçar esse voo temporão.
Irei trazendo as novidades para o blog, à medida que eu for me iniciando nesse espaço e nessa força, que sinto emergindo em plana terceira idade.
Asé!
* Docentes e discentes do LABERER/UFPE- Laboratório de Educação das Relações Étnico-Raciais