Crônica de uma (quase) Botija

Segundo os entendidos em mistérios,  assombrações e encantamentos, existem requisitos indispensáveis para que um achamento de moedas, medalhas e/ou joias seja rotulado como botija.

Botija tem de ter um sonho ou premonição, com um aviso do tipo paranormal ou coisa que o valha, marcando lugar, dia e hora para a escavação do suposto tesouro.

Um conhecido caso de botija no bairro da Várzea nos foi contado pelo saudoso Índio Batera (Rosevaldo Brito), durante a primeira reunião do antigo, MRP-Arruado (hoje, AMA-Arruado) em 2014, conforne vídeo abaixo:

O causo da botija

Aquele causo, contado pelo finado Índio, contemplava todos os requisitos que a tradição exige para que um achado seja chamado “botija”.

Há poucos meses, um morador das casas mais antigas aqui do Engenho Velho me relatou o achamento de diversas moedas no quintal. A princípio,  eu registrei o achado como de botija,  pois imaginei ter sido produto de uma escavação.  Mas, de qualquer forma,  a esse achado faltaria o tal sonho, em que o dono do tesouro, o “de cujus”, desencarnado ou encantado, viesse avisar o sonhador.

Não teve sonho e muito menos escavação. Depois que eu disse ao morador que tudo que é encontrado debaixo do chão pertence ao Governo Federal, veio o esclarecimento. Contou-me então que estava a capinar o quintal, quando foi encontrando algumas moedas, mais ou menos espalhadas, numa área de 2 metros quadrados, ao rés do chão. Disse-me também que, consultada a senhora mais velha da casa, o caso teve sua versão final:

O fato é que um tio-avô daquela senhora tinha o costume de guardar moedas no colchão. Morrendo ele e, descobertas as moedas “sem valor”, a família jogou no lixo,  ou seja, no quintal.

As moedas, afinal, chegaram às minhas mãos, para que eu as juntasse aos ferros de engomar, ao candeeiro e outros utensílios,  que a mesma família já tinha doado ao nosso improvisado museu comunitário, que há pouco recebeu a certificação do IBRAM – Instituto Brasileiro de Museus,  como Ponto de Memória.

Em sendo assim, não temos uma botija, nem nada que pertença à União. Moedas de família, guardadas dentro do colchão, são propriedade privada e, agora, pertencem ao conjunto de objetos reunidos na museália do Arruado do Engenho Velho.

N. do A.:

1 – Brevíssima crônica que vai dedicada ao amigo prof. dr. Edelson de Albuquerque, que sempre me disse que no Arruadinho existia uma botija.

2 – Vai também dedicada às alunas e aos alunos da Arqueologia, que se interessam por esses artefatos antigos, escondidos nos quintais do Engenho Velho da Várzea.

Recife, 03 de Setembro de 2023

Luiz Eurico de Melo Neto

One reply to “Crônica de uma (quase) Botija

  1. Que maravilha de histórias e texto🙌🏾👏🏾 O arruado deve ter grandes botijas enterradas. Vamos cavucar esse Cavouco😅👏🏾🙌🏾🤗😃🍀🌿🍃

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