
É uma estranha anomalia, dizia-me, no banco de trás do Mercury preto, o Dr. C. H. Fort, pesquisador que atravessara o Atlântico para essa espécie de perícia. A neurologia quase não existia no Brasil, por essa época. Com ele vieram vários estudiosos de São Paulo e do Rio de Janeiro. Eu era, ao mesmo tempo, assistente, chofer e guia.
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Sentaram o menino sobre a mesa da sala, os pés dependurados:
Levante a mão direita! disse um dos peritos.
O menino levantou a perna esquerda.
Levante as duas mãos, garoto!
O pivete balançou a cabeça, feito um pêndulo.
Ouvi os brasileiros cochicharem, traduzindo o doutor Fort:
Parece não ter propriocepção.
Um deles, que dizem ser um dos maiores neurologistas do Brasil, aventou a possibilidade de testarem os fusos musculares e outros receptores:
Precisamos fazer todos os testes: fotorreceptores, mecanorreceptores, quimiorreceptores, termorreceptores, entre outros. A percepção dos diferentes tipos de estímulos que permitem a interação com o ambiente pode estar prejudicada.
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Mas, ele fala? perguntou outro médico, virando-se para os pais, que se mantiveram calados, o tempo todo.
Bem, nem sempre é voz, o que sai dele… respondeu a mãe, hesitante.
O clínico encostou o ouvido nas costas do pequeno e disse:
Diga trinta e três!
O que se viu, dentro daquela casinha humilde, foi a coisa mais admirável que vi em toda a minha pobre vida.
Da boca do pequenino, saíram várias borboletas multicoloridas. A sala foi invadida por interjeições de espanto…
Cada fonema tinha uma borboletinha com sua cor. Bilabiais verdes, linguodentais azuis, oclusivas cinzentas, e o escambau.
Fonemas com asas…
Oh, my God! disse o Dr. C. H. Fort, enxugando a testa com um lenço.
Dias depois, os jornais do mundo inteiro estampavam o fato insólito, na primeira página.
No hemisfério norte, uma revista trimestral, de nome, Doubt (A Dúvida) publica o resultado do estudo da junta de pesquisadores, sobre o bizarro causo do menino do interior do nordeste brasileiro, que falava borboletas coloridas.