Abre a janela lateral e se depara com um animal de proporções teratológicas, deitado à beira do caminho; provavelmente no lugar onde ficava a antiga senzala. Sua cabeçorra azulada olha na direção do oriente. Seu dorso, recoberto com uma pelagem estranha, parece feito de barro e de amianto. A longa cauda, dobra-se a noroeste, num ângulo incrivelmente reto.
Coça os olhos, surpreso.
Imagina-se em surto psicótico.
Desde menino que tem dessas zoeiras estranhas.
Convive com certa disfunção neurológica que embaralha a percepção dos sentidos. Os médicos dizem que não é doença. É “apenas” uma anomalia em que o cérebro pode interpretar os sinais externos de uma só vez. Uma em cada duas mil pessoas nasce assim. Podem ver sons, sentir cores ou o paladar das formas e palpar, sim, apalpar com as pupilas certas abstrações, forças e fluxos imateriais.
Nasceu assim.
Acalma-se, então.
Agora, limpa as lentes dos óculos.
Mas lá está ele. Continua deitado, sossegadamente, o monstrengo: bico de pato e pés de ariranha, cochila ao sol da manhã. Na sua barriga, há passagens, feito as escotilhas de um galeão. Em verdade, olhando bem, veem-se portas e janelas, feito casinhas conjugadas, de beira de estrada.
***
Enche-se de coragem e abre a porta da frente. Do jardim vem um perfume que o faz lembrar uma frase poética: “Agora, o cheiro áspero das flores leva-me os olhos por dentro de suas pétalas.”
O firmamento sopra o azul anil de uma sinfonia.
O azul lhe faz serenar.
Entrementes, do ventre do bicho começam a sair seres estranhos. Parecem gente, pois sempre sente o salgado das cores dos viventes que falam. Mas se forem mesmo pessoas, estão recendendo a melaço, à rapadura.
Limpa novamente as lentes baças dos óculos, mas esses seus sentidos embaralhados não lhe deixam saber sem sabores, ver sem música, como as cores desses tambores na voz dos pequenos seres à porta.
Essa doença maldita…
Não pode se afastar de casa. A mistureba de suas percepções o imobiliza. Ainda bem, que hoje virão vários doutores da capital. Uma junta, como dizem. Ele é um entre mil. Raridade…
No horizonte, uma nuvem cinza canta uma ária merencória…
Vem chuva.
Dedilha as pétalas das flores e sente um canto orfeônico lhe subir pelas falanges.
Um hino à manhãzinha.
Mas vem um toró.
Melhor entrar em casa e trancar portas e janelas.
Se trancar, feito um bicho na toca…
