UM ESTRANHO OFÍCIO

Ou o guardião do pomar

………………………a Rosa Menezes


Ciganos VIII


Alpondra,
alpondrinha,
deixe eu atravessar
o riacho que ainda não secou!
Alpondra,
alpondrinha,
deixe as águas passarem
para eu brincar de sonhar
Depois eu conto
de novo a história:
“Era uma vez um cigano”,
pobrezinho, diziam compadecidos uns;
rico, riquíssimo, desconfiavam outros.
Tão grande era a sua alma
que nele cabiam todas as pátrias.
Sôfrego bebia a paisagem,
sem precisar de óculos…


Bucareste, 1988
Ático Vilas-Boas da Mota
Ph D em Filologia Românica e Ciganólogo

***

Do sono aparente nasce um catálogo.
Inanimados jardins de ordem, flores de paciência.
Revela-se o parentesco infinito das séries,
Mapas, referências, dicionários,
Dos galhos pendem respostas maduras,
Todas ao alcance de qualquer,
Sob tua vista complacente, zelosa
De guardião do pomar.

Emílio Carrera Guerra




…MENINO estranho, calado, macambúzio, enclausurado em um sobrado colonial da Rua do Livramento. Atravessava as tardes com passinhos inseguros no assoalho de madeira. Longas tardes silenciosas, silenciosos corredores infindáveis; retratos desbotados que pendiam, senis, em paredes altas, muito altas. Altíssimas, as cristaleiras, guardando frágeis porcelanas, translúcidos copázios, tigelas azul-turquesa. E longilíneas portas, imensas, que se abriam em vastos salões com aquelas estantes, muitas estantes, e muitos livros, centenas de livros de capas esverdeadas, enfileirados e unidos como pelotões de soldados. Livros pesados e inalcançáveis, mesmo ficando ― ops! ― na pontinha dos pés. Livros escuros, de gente grande, nos quais não se devia nunca mexer, a não ser quando descansassem, solitários e esquecidos, sobre o escabelo do sofá…
***
…Meninice sem brinquedos de rua, sob rigores luteranos e lições de álgebra, de geometria (Há de me sair engenheiro!) e as enfadonhas declinações do latim (Quiçá, um respeitado juiz de paz!). Aos domingos, em vez de banhos de mar, as mesmas homilias com um mesmo Moisés furioso a quebrar sempre as mesmas tábuas da lei…
― Ai de mim, se não fosse uma certa tia amalucada, festeira e folgazã, dona de um sítio escondido no caminho de Jaboatão, onde, nas férias, se ia provar das saborosas mangas, jacas, pitangas, cajus e… cabritinhas. Como chegaria a me tornar o que hoje sou, e a exercer esse estranho ofício, sem os seus quitutes, carinhos, conselhos e aquelas coisas escondidas e gostosas. Dessas coisas, escondidas porque gostosas e gostosas porque escondidas, o meu reverendo pai jamais deveria saber. …Ali, naquelas férias fecundas, sem latim ou geometria, se forjava, sorrateiramente, esse homem arrevesado e, não obstante, profundamente adaptado ao seu mister.


— Disso, doutor, falaremos mais tarde, coisas do adulto em que todos nós, dia após dia, nos vamos transformando.

…Bem, ajuntem-se às seqüelas dessa meninice barroca ― entre a carne e o espírito, ― meninice sem jogos de rua (sabem lá o que é nunca ter armado seus próprios papagaios, jamais ter provado a emoção das folhas de seda recortadas, a goma arábica lambuzando as pontinhas dos dedos, o losango de taliscas se enfeitando para ganhar os céus, sabem lá?); juntem-se a tudo isso, uns temores noturnos, uma propensão para o desconhecido em um espírito pouco prático, dado a devaneios e sofismas; juntem-se esses traços de caráter e as, assim chamadas, circunstâncias, na alma de um menino urbano, solitário e fantasioso e, quiçá, alcancemos a compreensão dessa lida desregrada, dessa tola opção que tanto desgosto trouxe ao meu zeloso e metódico pai.

***

― Ora, se o mundo, o orbe, o universo está assentado em bases racionais, geometricamente equilibrado sobre seus eixos; se mensuráveis são as suas forças, formas e movimentos, era com a mais justa razão que o meu pai me queria fazer engenheiro. Deu-me aquelas lições de ciências, comprou-me régua e compasso e me apontou o caminho de um mundo exato em seus cálculos.

No entanto, doutor, a vocação que me persegue, ― se a isso se pode chamar vocação, a essas vozes misteriosas que me atraem para o caminho oposto ao desejo de meu pai, essa força, trágica sina, quase edipiana, contra a qual não pude mesmo pelejar, ― surgiu desde a mais tenra infância:


Certa vez, lá pelos doze ou treze anos, no caminho de Jaboatão, naquele sítio onde por vezes meu pai me permitia descansar dos livros e das tabuadas, descobri, de forma misteriosa, a minha vocação para esse estranho ofício. Lembro desse acontecimento marcante que poderá nos ajudar a trazer luz sobre a origem de meus descaminhos. Espero que, ainda que não me entendam, pelo menos doravante aceitem (os meus pais), com mais compassividade e tolerância, minha total inaptidão para o mundo quadriculado, lógico, com seus colarinhos alvos e engomados, do qual me transviei.

Uma digressão:

― Que livro estranho, ― recordo agora, doutor,― repousava um certo dia sobre o escabelo do sofá. Na capa grossa, de couro, o busto de um homem em alto relevo com uma inscrição em letras douradas que dizia:
“Tão grande a sua alma que nele cabiam todas as pátrias.”
Folheei, curioso, aquelas páginas cintilantes, cheias de passagens esquisitas, exóticas, herméticas:

1 Durante muito tempo assentará diante dessa tábula com instrumentos vários:
provetas, tubos de ensaio, cadinhos, uma pequena balança;
a um canto da Oficina, a forja dormirá o sono dos dragões,
a bigorna, besta do chifre de ferro, espreitará o vão, guardiã.
2 Pesará o imponderável e forjará o que não sabe se existe. Quem do imundo tirará o puro? Nas trevas, a sua alma, vil como o mais vil dos metais, preparar-se-á para a Grande Tarefa.

***

…Naquele dia, a pretexto de algo que não me lembro agora, escapuli da enjoada escola dominical e, ― nem sei como consegui escapar, ― rumei, num trem suburbano, pro sítio de Jaboatão. Chegando lá, encontrei Balduíno, o velho caseiro bem falante, contador de causos, que, dentre outras virtudes mágicas, era o dono do pastoril que animava os presépios das redondezas do sítio. Perdoe-me, meu pai, mas lembro da raiva que tinha do senhor, quando me obrigava a assistir àquela enfadonha cantata natalina, enquanto lá no sítio a meninada se divertia com as trapalhadas do velho Badu e de suas pastoras com saias bem curtinhas, deixando entrever quase a b… ai, Jesus Menino, que tentação!
Foi o velho Balduíno quem me disse que tia Jurema não estava em casa. Tinha ido ao arruado dos Moura, ali bem pertinho, participar da festa do Cigano. Curioso, pedi para que ele me levasse até lá. Lembro que meu pai, o reverendo Abraão, sempre ralhava quando a gente queria ir pra essas bandas. “Gente perigosa, maligna, sensual!” dizia. “Não pense em se envolver com eles, Isaque! Sua tia Jurema é mesmo uma maluca de se meter com aquela gente! Dizem que têm um cotoco, um côto de rabo escondido. Vade retro!


― Aquela gente… Ah, doutor! Como eram lindas as ciganinhas do pastoril! Morenas arredondadas, bundudas. Dançavam freneticamente, remexendo as cadeiras, as mini-saias deixando ver tudo, enquanto batiam com os pandeirinhos nas mãos. Foi o som daqueles pandeiros que ouvimos ao nos aproximarmos do arruado. Eu vinha encarapitado no lombo de um jumento. O caseiro vinha a pé, arrastando um cabrito e um galo preto. Eram presentes para o Cigano. Descemos por uma ribanceira, contornamos um pequeno canavial, resquícios de um antigo banguê, e logo estávamos às portas do povoado. Ficava num vale, banhado por uma das nascentes do rio Jaboatão. Terreno fértil, entre lajedos, protegido por duas colinas e pela mata rala que sobrou das queimadas para o plantio da cana. Chamava-se Povoado dos Moura (que uns chamavam maldosamente Gomorra) porque ficava nas terras da tradicional família Gomes de Moura, descendente de alguns semitas que, na famosa batalha dos Guararapes, lutaram ao lado dos holandeses, ― a quem deviam favores, ― contra o irascível João Fernandes Vieira. Com a derrota, uns se converteram ao catolicismo, trocaram seus nomes e se espalharam pelo interior do nordeste. Outros abandonaram suas terras, fugindo para regiões mais ao norte do Novo Mundo. Aquele lugar mais que centenário era ocupado por um herdeiro distante e menos abastado, tetraneto daqueles marranos que ficaram por ali. Era, como os seus ancestrais, cheio de esquisitices. Cumpria um desígnio de seus antepassados que, perseguidos e obrigados a negar as suas crenças e costumes, desenvolveram em sua comunidade um sentimento de tolerância e fraternidade com todos os povos proscritos: durante séculos eles abrigariam todos os nômades que cruzassem suas terras. Ali viveram gitanos de Málaga, calons , boêmios e bailarinos de Granada, zíngaros romenos, turcos, ladrões de cavalo , romanichéis, cossacos, manuches, roms, beduínos salteadores e toda a sorte de giramundos, (ainda que fossem gajões) que ali pousavam e se iam ficando. Várias nações ciganas passaram por ali e foram deixando no seu rastro os costumes mais díspares. Dizem que ali se cuidava de heresias, deuses espúrios e seitas secretas, e que fundidos estavam, nesses domínios, cabala, corão e ritos egipcíacos. Muita coisa se diz do que só se conhece por ouvir dizer, no entanto, cautela: a água toma a cor de seu recipiente.

Vivia sozinho, o tetraneto dos cristãos-novos. Seus poucos parentes, pequenos comerciantes do Recife, haviam voltado pro Oriente Médio quando do advento do Estado de Israel. Ele não. Resolveu fincar ali suas raízes e, há mais de cinqüenta anos, cuidava do povoado e cumpria a sua missão. Seu nome era Francisco Modesto das Chagas Canabarro. Mas chamavam-no Chico das Chagas, Chico Judeu, Chico Cigano, o Turco, ou, apenas, “seu” Chico. Dizem que seu nome era conhecido em várias partes do mundo, sem que nunca precisasse ter botado os pés fora do povoado.


“Tão grande a sua alma que nele cabiam todas as pátrias.”

A festa do Cigano, pois, era a festa do seu Chico. Nela se cantava em várias línguas, dançavam-se as danças de vários países. Isso é o que vinha me dizendo o velho caseiro. No entanto, ali se viam misturados os rituais de todas as tribos romanis do mundo. Esse é que era o problema! Isso talvez fosse o verdadeiro motivo das preocupações de meu pai.

O Povoado dos Moura era um lugar pequeno pra comportar tanta história e tanta ebulição. Na realidade havia ali uma única rua de casinhas conjugadas, parede meia, todas com calçada alta e frontão português. (Os povos que durante séculos por ali passaram, não costumavam construir mais do que tendas). No fim do arruado, a casa grande de seu Chico: a única que possuía quintal, terreno largo e bem varrido. Naquele dia, o quintal estava especialmente embandeirado. Era o dia da festa. No centro do terreiro um mastro comprido de sucupira, brilhando de banha, escorregadio como o quê. Era o pau-de-sebo. Num dos cantos, a corda estendida e o pote do quebra-panelas. Tudo preparado para uma festança. Contudo, uma coisa foi logo me intrigando ao adentrarmos aquele arraial. Não eram as ciganinhas do pastoril que estavam batendo os pandeiros que ouvimos ao longe. Eram algumas velhotas vestidas de baianas e uns xibungos, nus da cintura pra cima, usando umas saias brancas rodadas. Esse fato me causou estranheza. Fiquei mais intrigado ainda quando percebi que eu era a única criança naquele lugar bizarro. Onde andaria a meninada?

Tia Jurema apareceu na porta do casarão, toda enfeitada, pulseiras e colares azuis, vermelhos, um carnaval. Logo sumiu pelo corredor. O caseiro nos levou, a mim, ao galo preto e ao bodinho e deixou-nos a um canto da sala. “Fique aqui, garoto, não saia até ser chamado”. Pela fresta da porta, vi uns xibungos com túnicas brancas, carregando um grande alguidar e colocando-o no centro do terreiro. Outros traziam um feixe de lenha seca como quem vai armar uma fogueira junina. Que é isso aqui? perguntava a mim mesmo, desconfiado. As pessoas se movimentavam numa azáfama de quem prepara uma cerimônia solene. Enquanto isso adentrava o pátio um cortejo de homens pretos, carapinhas de algodão, conduzindo um andor nas costas. Acima deles balançava um monstrengo feito de barro, todo enfeitado com grinaldas, parecia um pequeno buda, ou um santo dos que eu via passar nas procissões católicas da rua do Livramento. Lembrei-me, naquele instante, de uma lição de História que eu havia decorado antes das férias:
As festas pagãs dos fenícios, celebradas em Byblos anualmente, tratavam-se de cerimônias fúnebres nas quais se expunha o esquife do deus Adônis, levado solenemente pelas mulheres através das vielas da cidade, entre cantilenas e lamentações. Mais tarde juntava-se ao cortejo fúnebre um rito alegre para celebrar a sua ressurreição.

Cantavam também os pretos velhos, tristemente, carregando seu deus de massapé, da mesma maneira que, mal comparando, cantavam os devotos naquelas festas da Conceição, cujo andor esquisito eu me havia acostumado a ver passar na minha rua.
Por que se parecem tanto, meu Deus, em lugares e épocas distantes, esses mitos, esses ritos hierofantes? Haverá uma base psíquica comum a todos os humanos, que se reproduza em suas imagos, seus deuses, seja nos sonhos das pessoas comuns, dos reis ou dos sábios, nas lendas, nos delírios dos loucos e nas religiões que arrastam as massas?
Crescido no piedoso bairro de São José, (lugar piedoso, mas, carnavalesco, é bem verdade, entre o sagrado e o profano) tantas vezes assisti, como Luciano em Byblos, as devotas do Coração de Maria, todas de preto, cruzarem o pátio do Terço, carregando o Senhor Morto entre rezas fúnebres e hinos merencórios. Na minha porta também desfilavam os seresteiros notívagos e os cordões animados de Vassourinhas e dos Batutas de São José. Todavia, o cortejo que vi naquele dia tinha algo estranho e macabro. Na minha mente de menino assustado, talvez tenham restado imagens distorcidas e dúbias. Mas, em verdade, aquele cortejo era diferente. Não era apenas triste como o das devotas de Maria, nem profano como o dos animados Batutas. Ali havia algo sobrenatural.


Outra digressão:


Era um códex, uma brochura antiga com iluminuras medievais, numa linguagem cifrada, quase ininteligível:

3 Mil anos de luta aguardam sua hora. Uma guerra sem testemunhas. Caminhará sozinho e às cegas. Uma águia sobrevoará sua cabeça comendo as próprias asas. Terá seus sonhos sobressaltados;
4 No laboratório da alma, em seus recantos mais sombrios, abrir-se-á uma porta, estreita porta, sobre a Noite Original.
5 Aí encontrará a sua Sombra, o Nigredo, o lado escuro da mente. Se for a sua hora, libertará a alma do mundo, anima mundi, que estará aprisionada na Matéria. Com o fogo derreterá o metal e sua alma profunda regressará a si mesma.

***

O cortejo estacou no meio do terreiro, onde uma espécie de ara foi erguida com seixos enormes. Os pretos velhos colocaram o andor sobre aquele rústico altar de seixos que eles chamavam peji. Trouxeram o cabrito e o amarraram ao pé daquela estatueta com cabeça de barro, olhos e boca feitos de mariscos, com pedacinhos de metal espalhados pelo seu tronco disforme. Chamava-se, o pequeno deus, Elegbará, que, anos depois, eu viria saber que se tratava de uma divindade totêmica afro-brasileira, usada em certos rituais de feitiçaria. O bodinho, pressuroso, ficou me olhando como se fossemos cúmplices naquele infortúnio. Quieto em meu cantinho, — também tinha vindo até ali arrastado, arrastado pela minha desobediência – eu espiava, com meus olhos de criança assustada, aquela estranha liturgia. Cadê tia Jurema? O que é que eu vim fazer aqui nesse lugar tão esquisito? perguntava-me, já arrependido da trela.

Agora entraram com o galo preto, as asas amareladas pela farofa de dendê. Alguém sussurrou em meu ouvido numa língua desconhecida: “Do-ú, doum.” O bode começara a berrar e dois negros fortes desfechavam pancadas vigorosas em enormes tantãs. Eram os ogãs que percutiam, com raiva quase lasciva, os tambores da festa…Meu Deus! Tia Jurema! Meu pai! Foi à tua revelia, meu pai, que eu achei de dar com os costados nesse antro barulhento! A cerimônia estava começando e algumas mulheres de vestes coloridas, ouvindo os atabaques, começaram a rodopiar no terreiro. A mais velha entre elas vem ao meu encontro. Eu me encolho todo. Ela me ergue em seus braços e me joga no rosto uma, duas, três, quatro, baforadas de seu cachimbo fedorento. Tento escapar, esperneio. Não consigo. Sinto o mundo girar. As outras então desatam num coro jubiloso:


“São Cosme e Damião,
Do-ú, doum,
Doum, do-ú,
São Cosme e Damião.”


Uma delas, saia vermelha, cabeça raspada, cai de borco à nossa frente, atirando-se aos pés da velha que me agarrava, a pulso, com seus braços corrugados. “Mel, Do-ú quer mel!” grita a velha para as outras dançarinas. Um pote de mel de engenho é trazido rapidamente. A careca derrama o mel sobre a cabeça, lambuza-se toda, depois me oferece. “Do-ú quer mel?” Dou um golinho, atemorizado. Ela começa a se despir. Tiram também a minha roupa. Vertem mel sobre meu corpo nu. A velha aplica-me mais cachimbadas fedorentas. Procuro, desesperado, Tia Jurema, entre as dançarinas. A fumaça do cachimbo me enceguece. Agora os tambores rufavam feito taróis. A ialorixá, já despida, nua e linda, canta uma linha malemolente. Sua voz, em solo agudíssimo, me dói nos ouvidos até agora. Um canto sensual em uma língua incompreensível. As outras baianas também começam a despir-se. Por que não me põe no chão, essa velha asquerosa? Nu, e todo lambuzado de mel, sinto-me envergonhado e desprotegido como aquele cabritinho amarrado ali no centro do terreiro. Que hão de fazer conosco, meu bichinho? Essa gente maluca irá nos fazer algum tipo de maldade? Vem-me à lembrança, doutor, como em uma anagnosia, frases de um livro antigo:

6 O peso do martelo retumbará na bigorna. Para onde fugirá o teu espírito? O teu caminho foi medido. Medida está a tua andança. A tua tocha difusa arderá nas duas pontas.

Os tambores agora tocam um batuque frenético. As filhas de santo me envolvem numa túnica branca e me deitam sobre o feixe de lenha. E a leitura supranormal me anuncia:

7 A lua regerá a tua dextra e alumiará tuas núpcias com a Rainha das Sete Faces, a Pomba, a Ninfa, a Mulher, o Albedo.

Uns homens trazem o grande alguidar e o deixam perto de mim. Trazem o bodinho e o galo preto. Tia Jurema, em transe, sai de uma casinhola, toda nua, o corpo alvo depilado, usando apenas as pulseiras e os colares de continhas coloridas no pescoço. Na cabeça, um cocar feito de penas de pavão. Os xibungos vêm dançando em volta dela. Vejo em sua mão um enorme cutelo. Avança em minha direção, os olhos esbugalhados. Estremeço de pânico.

8 Estremecerá no seu ventre a semente do mal, que será separada e lavada e cozida e queimada e fundida. Uma pedra nascerá dessa torpe fusão. A pedra de si mesmo, o albedo-rubedo, o sinal de seu proprium, a Labuta Maior.

Desato a gritar por meu pai, por minha mãe. Um dos negros tapa-me a boca. Outro arrasta o cabritinho pelos chifres. Grito eu, berra o cabrito…

― Creio eu, doutor, que alucinado entrei a delirar, (quem sabe movido pelo remorso por ter traído a confiança de meu pai) olhei para o alto e vi um enorme pássaro, um gavião, um carcará, girando em círculos sobre mim, como fazem os abutres. Girava cada vez mais rápido, deixando atrás de si um rastro azulado parecido com o da esquadrilha da fumaça. Começa então a desenhar meu nome no firmamento. Isaque. Nesse instante, não sei por qual artifício, vejo o céu se abrir como uma tela de cinema. A cena que surge ante meus olhos é quase real. Meu pai, com as vestes dos magos caldeus, um turbante negro na cabeça, manda um serviçal me deitar sobre um feixe de palha seca e diz: “Deite fogo na palha! Queimada a palha queimar-se-ão os pecados do menino!” Fico desesperado. Tento fugir. Grito por mamãe. Não a vejo. O que vejo são os olhos de Tia Jurema. Ela ergue o cutelo até a altura da fronte. A lâmina prateada brilha ao sol. Ouço um coro de arcanjos. Terei morrido de alguma forma ali, doutor?

Um sacerdote ergue a hóstia consagrada até a altura da fronte, os sinos repicam, os coroinhas balançam os turíbulos, sente-se um cheiro acre de fumo de rolo, e o incenso invade a nave sacra. O santo padre repete as palavras da última ceia. In memoriam. Abaixa as mãos. Agora ergue o cálix e diz as palavras litúrgicas. É o momento eucarístico. Todos os fiéis se ajoelham. O padre parte a hóstia, embebe-a no vinho, como fez o Cristo com o pão que deu ao Judas Iscariotes e, reverentemente, mastiga-a. Eis o mistério da fé.

Tia Jurema fecha os olhos, inspira fundo e, enquanto solta um grito lancinante, enterra a lâmina afiada na jugular do bodinho.

Vejo as devotas do Coração de Maria. Todas de luto, vão cantando pelas ruas do Recife. Os fiéis conduzem o corpo do Senhor Morto pelas ruas de Byblos. Os Batutas de São José surgem no pátio do Terço usando trajes fenícios. Deliro. A deusa Istar vem à frente do bloco aspergindo a todos com a água da Vida. O deus Tamuz regressa do reino dos mortos. Ouve-se o frevo Vassourinhas. É o sábado de Aleluia. Depois, chocolates, vem o domingo de Páscoa. O velho do Pastoril passa abraçado a um orixá de Umbanda.

A ialorixá de cabeça raspada salta sobre o bodinho, babando e uivando. Ajoelhada, ao modo muçulmano, a bunda enorme à mostra, deita o rosto ao solo e suga na jugular do bicho que estertora. O sangue esguicha da artéria do cabrito e vai escorrendo pela boca da moça até encher o alguidar.
 Acredito, doutor, ter visto, mesmo entre o pavor e a luxúria que me tomavam, um côto de rabo naquela linda bunda, nua e negra.
Nesse instante, o sol escurece e eu desabo do feixe de lenha onde me haviam deitado. Acordo no meio da noite. Ouço minha mãe ralhando com a sua cunhada maluca por me ter levado, sem o seu consentimento, à festa do orixá Ibeji Dois-dois, no terreiro de Chico de Omonolu.

Adentra o terreiro, o Cigano: Francisco das Chagas Modesto Canabarro. É a hora da festa! Assobia três vezes e a criançada, que estava escondida, surge de todos os lados, invadindo o arruado deserto. São meninos e meninas de todas idades, cores e raças, saindo da mata, falando todas as línguas indizíveis da infância universal: gugus, dadás, mamãs, papás, risos inocentes. Outro assobio: quebra-se o panelão das guloseimas, as crianças vibram e o bodinho se transforma em uma gaita de fole. Todos começam a dançar em círculo, como a cirandar:

beduininhos, moleques do sítio, infantas dançarinas lusas, pivetes roms, childrens sioux, apaches, manuches, romanichéis, curumins tapuias, fulniôs, calons, ciganinhos judeus, negrinhos bantus, bororos, romanis, bambinas zíngaras, , pastorinhas celtas, niñas bailarinas de Córdoba, de Granada, filhos de candangos, matutinhos paus de arara…e eu.

Meu avô Chico das Chagas abre solenemente um livro de páginas reluzentes e lê Ibn Sina pra mim. Todos os outros netinhos sentados no chão, ao seu redor, escutam-lhe o sermão:

Hoje ganhaste um novo nome. Serás chamado Ismael. Como o filho da minha amante, aquele que eu não acolhi, serás um novo “arif”.

“O arif procura a verdade, e a quer por ela mesma e não por qualquer outro motivo. Não há nada que ele prefira a este conhecimento profundo: e ele não presta culto senão a ela, e não por ardente desejo ou temor. O arif é alegre, de bom humor, sorridente, honrando o pequeno além de sua modesta condição, como honra o grande. Diverte-se com o homem obscuro tanto quanto com o personagem célebre. (Zé Buchudo ou Jesus Cristo). E como não seria alegre quando a verdade e todas as coisas o enchem de alegria, porque em todas as coisas ele vê a verdade? E como não poria todas as pessoas num mesmo pé de igualdade, desde que para ele todos são iguais. (judeus = palestinos), objetos da misericórdia divina, depois de terem sido ocupados com futilidades? Do mesmo modo é-lhe igual por vezes ter o hálito fétido ou exalar um perfume, e escolhe, de preferência cheirar mal quando lhe vem ao espírito o desprezo pelo que não é a Verdade.”

O reverendo, doutor, me mandava repetir o Ato de Contrição, a contragosto. Os colegas de escola, todos sentados na primeira bancada da Capela, caçoavam. Meu pai me fitava, sobrecenho carregado. Todos rezavam uma Salve Rainha. O coroinha balança o turíbulo e eu começo a tossir com aquela fumacinha. Minha mãe me acode com um leque. Antes de encerrar a liturgia eu desmaio de fome, de raiva, cansaço e descrença.

― Por isso eu venho aqui…


Fecho a porta da biblioteca que herdei de um bisavô. Atravesso o longo corredor, passos firmes no assoalho de madeira. Na parede, a foto de meu saudoso pai. Seu olhar segue-me ainda sobre os pincenês. Saio de casa e alcanço o pátio do Livramento, hoje deserto e silencioso, sem a algazarra habitual dos camelôs. Uma voz ultrafânica, vinda dum tempo remoto, ecoa dessas pedras carcomidas. “Ecoa em minh’alma uma voz, ou oiço a voz vazia de nonada?”

9 revolverás os vales e aluviões das correntes das águas; à busca das areias auríferas, explorarás as preciosidades da gleba e da língua; com a batéia, gamela afunilada dos tolos, lavarás todo o cascalho do ser com semicúpios, pedilúvios, banhos de cheiro,
10 banhos turcos seguidos de duchas frias, fricções n’alma com panos molhados em águas radioativas, e todo o emprego terapêutico da água que era usado pelos roms do vale do Nilo.
11 registrarás vozes eólicas, o troar das catadupas, o trom e o silvo da procela, mesmo que te chamem louco ou raca, mesmo que te creiam néscio. Eis tua sina, eis o teu fado. Avia-te, ó bardo!

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