
Foto por Maria Orlova em Pexels.com
Ninguém pode fotografar emoções!
Que dirá, os afetos?
Quem, pois, se arvore a registrar o que não se pode ver e nem se pode tocar, deve estar preparado para um intrincado e longo caminho…
Trata-se de registrar memórias, alegres ou tristes, mas, memórias. Dores e prazeres, perdas e ganhos, essas coisas invisíveis, no mais das vezes, que alguém um dia chamou de afecções da alma.
Então, seria isso registrar afetos? Se a proposta é criar uma espécie de museu de coisas intangíveis, a pergunta é:
Como colecionar e catalogar essas coisas silenciadas e silenciosas, que se escondem lá no fundo da alma da gente, das gentes?
Diante desses desafios da expressão e da comunicação, sempre apelo para os poetas, para a poesia, mormente, quando tenho pela frente algo novo a ser feito. Ou seja, apelo para a função poética da linguagem…
Será?
Será que essas coisas funcionam na prática? Aqui, no mundo concreto?
Vejamos:
Gilberto Gil, poeta e imortal, inventa um cântaro que canta, num verso magistral, em que o verbo, no infinitivo, se junta ao artigo e fonetiza um substantivo:
Derramar o bálsamo
Fazer o canto “cantar o cantar” (Palco, Gilberto Gil)
Né genial, esse Gil?
E é a partir desse verso divinal, que tentaremos entender como a musa musealiza seres e coisas.
A questão está posta no verso: Fazer o cântaro cantar.
Oxente! E pode?
Pode se olharmos as coisas com a possível semiótica que nelas há ou que delas exalam. Como em Cartola, outro poeta genial:
As rosas não falam,
simplesmente, as rosas exalam
o perfume que roubam de ti… (As rosas não falam, Cartola)
Ihhh! Então quer dizer que devemos ser poetas para musealizar os afetos?
Sim e não! rsrsrs
Se poeta é “aquele que faz”, em sua origem etimológica, então, sim!
Mas, não, não precisa ser um Gil nem um Cartola.
Precisa apenas inventar o novo.
E como se faz isso?
Bem…
Como se faz isso? Esperem um pouco…
Eureca!
A linguagem! As linguagens!
Será que é essa a nossa tangente, para escapar desse círculo vicioso e viciado na mesmice nossa de cada dia? A linguagem!
Linguagem de fazer o cântaro cantar! O cântaro, os potes, os vasos, o escambau, as coisas todas em derredor, mesmo as coisas invisíveis e silenciosas, as pessoas silenciadas, as gentes invisibilizadas… fazê-las cantar, contar e recontar, remememorar, relembrar e traduzir os seus afetos, suas afecções d’alma, suas alegrias e tristezas, sua labuta, seu ócio, seu negócio, seus fazeres e saberes. Cantar e descantar, poetas de si mesmas, as pessoas, que cantem e que contem, narradores deve haver, no meio do povo!
Mas não é só isso! Para as linguagens, que se tragam os artistas, os inventores, os criativos e os inovadores. Mas que venham também os leitores, os decifradores, os apaixonados por gente, por povo. Eles, nós, todos e todas, juntos faremos o coro do canto, faremos um canto cantar o cantar, ou, o cântaro cantar os afetos e deixaremos que as musas se emusem e musealizem o que foi e o que ainda é, e o que já não é, e o que é de novo, o novo e a novidade.
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