
1 – Breve introito
Conheci a socióloga, pesquisadora e folclorista, Rúbia Lóssio, numa roda de conversa virtual, promovida pelo Centro de Educação da UFPE. Fui pra roda como morador do campus, autodidata e enxerido. E vosmecês, meus 13 leitores, já sabem como é autodidata, né?
Pois é… autodidata é que nem piolho.
Piolho?
Sim.
É doido por uma cabeça pensante! rsrsrs
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2 – Os ganchos das interrogações
Que fiz eu? Enviei o meu despretensioso, Andaime Poético, nº1, para a mestra Rúbia, pedindo suas considerações.
Foi desse modo que ela me deixou a par do causo da feira livre popular de Carpina. Eu disse “causo”, porém, tratava-se da aplicação de uma metodologia de pesquisa de campo, com entrevistas sobre o imaginário existente naquela feira. Em texto publicado no site, Wall Street International Magazine, a nossa pesquisadora relata o acontecido:
“(…) No decorrer das entrevistas com os feirantes sobre o imaginário existente em uma feira livre popular pude perceber que o roteiro de entrevistas não fornecia os resultados devido às respostas dos feirantes serem monossilábicas. Foi então que surgiu a pergunta – Conte o Seu Dia? Daí então, os feirantes começaram a soltar o verbo, e numa narrativa melancólica, histórias do dia a dia entre a lógica e a estética do mercado e da vida surgiam para enfeitar o universo popular. (…)”
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3 – Saboreando a resposta
Creio que meus 13 leitores, tão pacientes quanto inteligentes, sacaram que, nesse trecho acima, está a resposta da mestra Rúbia, às minhas inquietações de autodidata. O roteiro de entrevistas, no caso em tela, fazia os feirantes darem respostas lacônicas, monossilábicas. Eram as perguntas que provocavam esse tipo de respostas.
Logo me vem à mente o meu escritor de cabeceira, José Ortega y Gasset, que quem acompanha meus blogs, já está cansado de saber.
Pois bem, meu guru espanhol dizia que as interrogações possuem aqueles curvos ganchos, justamente para que não deixemos escapar as respostas essenciais. Só chegam às melhores respostas, os que trazem boas interrogações.
Saber perguntar, abrindo o leque das possíveis respostas, esse é o ponto a que a mestra nos vai conduzindo. Ao contar a sua experiência pessoal, no meio dos feirantes, a mestra, sutilmente, nos indica um caminho, uma trilha, um método para quem pretende colher as memórias afetivas de um grupo, para posterior musealização. Todavia, essa argúcia, esse jogo de cintura da entrevistadora não cai do céu. Só se aprende lidando com o povo, lidando com gente, e privilegiando essa abordagem , que a mestra Rúbia Lóssio costuma chamar de sociologia do cotidiano, ou, sociologia do efêmero, expressões criadas, segundo ela, pelo professor doutor Wellington Pereira, da Universidade Federal da Paraíba “para se referir às criações e recriações existentes nas culturas populares.”
O causo dos feirantes lacônicos é exemplar e nos ensina que saber perguntar é algo que não se aprende apenas na academia, mas na vida, na forma de ver o mundo, eu diria, orteguianamente, na forma de compreensão do mundo. Para Ortega, a vida é, ela mesma, o órgão da compreensão.
4- Dos sinais
E para finalizar essa prosa, que já se alonga, retomo a questão posta no meu despretensioso Andaime Poético n 1:
A linguagem, gente!
E retomo para dizer que a linguagem é símbolo, símbolos. E, sobre isso, lembrar outro guru, agora português, Fernando Pessoa, que no prólogo de seu, Mensagem, nos orienta a propósito dos símbolos da linguagem, para quem quer enveredar nessa selva simbólica:
“a compreensão é uma das condições ou qualidades do intérprete dos símbolos. Mas entenda-se por compreensão o conhecimento de outras matérias que iluminem o símbolo, interpretado por várias luzes.”
E assevera:
“(…)não direi, erudição, nem direi, cultura, (…) direi, a compreensão é uma vida.”
Termino, louvando a perspicácia da leitora do mundo e da vida, a professora doutora Rúbia Lóssio, que soube captar os sinais (símbolos) trocados com os feirantes lacônicos, pois o silêncio entre as falas de um interlocutor pode dizer muito a quem aprendeu a observar, percucientemente, o seu entorno, como essa mestra.
(Ia lhes contar o causo da observação do carreiro de formigas, mas, isso requer uma postagem especial. A mestra me entenderá e os meus 13 leitores terão de aguardar! rsrsrs)
Paz e bem!