Das leituras interculturais e das assombrações

1- A Roda

Deliciosamente assombrosa, a roda de conversa virtual de ontem, 16/11/21. Assombrosa, no bom sentido. Primeiro, o susto. A plataforma streamyard (é assim que se escreve? rsrs) desabou mundialmente, segundo os meninos da técnica, e ficamos fora do ar, antes mesmo de começar. Os mesmo meninos sabidos da técnica nos reconduziram para o Googlemeet e o susto foi passando, passando e….

2- Então veio o melhor…

Os convidados da roda, Roberto Beltrão e Rúbia Lóssio, eram muito mais do que meros pesquisadores, experientes no tema da cultura popular. Eram mais. Eram e são, duas raridades. Duas pessoas humanas sensíveis, afáveis, amorosas e cultas. Essas duas primeiras falas imprimiriam o tom das conversas, um tom de saber acadêmico, mas sem perder a doçura. Aquelas vozes suaves feito duas flautas doces, lembraram-me o Dom, o dom do amor, o nosso saudoso Dom Hélder Câmara. Sussurraram um saber de obras feito:

Roberto publica, há anos, o blog Recife Assombrado e já escreveu vários livros sobre o assunto. Faz mais: vai às escolas, visita as bibliotecas comunitárias, convive com os seus leitores e se emociona com eles. Todas e todos da roda deixaram aflorar uma lágrima no canto do olho, quando Roberto contou sobre um estudante muito tímido, que passou toda uma palestra calado, ao fundo da sala de aula, na Escola Oswaldo Lima Filho, no bairro do Pina. Roberto falava de assombrações do Recife e até pensou que o aluno poderia estar assustado. Qual nada! Ao final, o menino se aproximou e lhe pediu… Tio me dá um abraço! O jornalista experiente, o escritor de causos assombrosos, não resistiu e chorou, num abraço carinhoso. Todos nós choramos com ele, nessa roda virtual de conversa. Salve, Roberto! Que momento de amorosidade!

Rúbia, pesquisadora da cultura popular, folclorista da melhor estirpe, forjada à sombra das árvores centenárias da FUNDAJ, e de seu mestre, Mário Souto Maior, falou em seguida e nos trouxe uma abordagem teórica, com uma tal suavidade, que afagou a alma dos participantes da mesa. Parafraseando a propaganda de um banco: Nada mais CE e nada mais freireano, em tão poucos minutos, meia hora, talvez, para cada um dos convidados.

3- Mas não era só doçura…

A leitura das assombrações ganharam profundidade e um sutilíssimo, mas vigoroso, viés antropológico. Nas suas falas, Roberto e Rúbia, parceiros de livros e de pesquisas, nos levaram a ler as assombrações como um médico que apalpa seu paciente, buscando causas da dor, uma etiologia das aparições, das lendas, dos mitos urbanos e rurais. Nessa fala mansa e simples, sem citações nem pedantismo, fluíam as vozes de Geertz ( e sua descrição densa), Ginzburg (e o paradigma indiciário), quem sabe Aby Warburg, por seus engramas sociais. Tudo isso, embutido no modo de ver e ouvir os sinais das coisas, dos fenômenos, das assombrações, decerto, foi nos levando a uma leitura intercultural. Citados, de passagem, foram os mestres, Gilberto Freyre, Câmara Cascudo e Mário Souto Maior. Um verdadeiro banho de cheiro de cultura viva. Evoé!

4- Uma pergunta no ar…

Nesse bordado inconsútil, em poucas frases, meia hora, talvez, as aparições e lendas viraram esfinges populares, nordestinas, brasileiras, a nos exigir sua decifração.

O que dizem essas assombrações sobre nosso povo, nossa sociedade, o que dizem de nós mesmos?

Taí! Uma boa aula de escutatória!

Ora, direis, ouvir fantasmas?, certo perdeste o senso!

Então, não posso esquecer daquelas primeiras páginas de A Importância do Ato de Ler, pequeno grande livro do nosso saudoso Mestre Paulo Freire. No quintal arborizado de Casa Amarela, ele lia a cor das mangas, lia as nuvens e a ventania, e, quem sabe, o menino Paulo Freire, também observava um carreiro de formigas, rsrs, (quase todos da roda, confessamos que espiávamos formigas em nossa tenra infância). Líamos o mundo, gente! Líamos a palavramundo freireana! A primeira leitura de tudo!

E por que não ouvir e ler assombrações?

5- Inconclusões…

Pois foi isso, que, em rápidas pinceladas, nos trouxe a dupla assombrosa, Rúbia e Roberto, emoldurando e dando um belo cenário de fundo, para a excelente apresentação do e-book, Lendas e Aparições do bairro da Várzea, organizado pela professora Elizama Messias.

A roda foi mediada pela multiartista Beta Ferralc, que dispensa apresentações, e também esteve presente, com uma pequena contribuição, este que vos digita, Lula Eurico, ou, Seu Lula do Arruado, fazendo uma homenagem póstuma aos contadores de causos e de histórias, Dona Creusa do Arruado e ao Índio Batera da Várzea. Um desses causos, A Noiva do Arruado, foi adaptado por Beta Ferralc, em um lindo vídeo, que foi exibido na roda, que ficou encantada e assombrada, também! rsrs

Abraços em todas e todos!

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