
Era um lugar como qualquer. Nele nada havia de interessante. A rua principal atravessava um riacho, subia e descia por uma colina. Na ladeira, vários chalés contíguos, um casario humilde, que serpeava, pela rua estreita, no cocuruto do morro e depois se espraiava, mais larga, pela baixada arenosa, em que havia surgido um comércio e se fez o terminal dos coletivos. No verão, a poeira cobria os toldos das vendinhas e barracas. Cobradores e motoristas tagarelavam, movidos a café e caldo de cana com pão doce. As moçoilas passavam sorrindo e os olhando de esguelha.
Dessa rua principal, saíam vários becos e travessas, feito espinhas oblíquas de um grande peixe ancestral . Algumas transversais seguiam para o Leste, na direção do resto da Mata Atlântica e outras subiam para Oeste, até alcançar o sopé da colina que circundava o logradouro.
Minha família morava numa dessas travessas. A Travessa do Marco.
O quintal era um charco, onde se banhavam os patos de minha avó, num labirinto de taiobas e moitas de cana de açúcar. No oitão, um poço com roldana, visitado por vizinhos, pela fama de água boa. Diz que minha mãe e meu pai se enamoraram puxando água desse poço.
Como lhes disse, nada acontecia. Então, a passagem eventual de um mascate já era uma festa de fim de tarde. Sua carroça era um trempe, em que se equilibravam panelas, quartinhas e cadeiras de balanço. Um jovem forte, de cor, era o seu auxiliar. A carroça balançava e as panelas faziam uma barulheira danada, que tornava desnecessário o pregão do velho mascate:
— Bules, chaleiras e panelas-de-pressão!
E descrevia em altos brados, minuciosamente, cada petrecho de sua venda ambulante. Sem pressa, ia de porta em porta. E, ao pé da escadaria, da Rua do Marco, ajuntavam-se as freguesas, ansiosas pelos produtos novos na praça. Para as moças e senhoras: pente-quente, óleo de ovo e banha Zezé. Além de biliros, marrafas, diademas e outros itens da moda de então. Chapéus, espelhos e canivetes suíços para os rapazes!
Foi aquele mascate vespertino quem me salvou o dedo, preso, por trela minha, na catraca de uma bicicleta alemã. Menino curioso, aos cinco anos de idade, girei a roda pelos raios e enfiei o dedo médio, na engrenagem robusta daquela bicicleta. Máquina pesada, a bicicleta alemã de meu pai, não era como essas magrelas de hoje em dia, fabricadas com ligas leves de alumínio. O dedo ficou pendurado e mole, enquanto o sangue escorria, sob os gritos desesperados de minha mãe.
O mascate acudiu, adentrou o nosso alpendre e, em dois tempos, retirou a corrente e meu dedo foi devidamente enfaixado, com um lenço.
— Vamos levá-lo para o pronto-socorro de Tejipió! Botem o menino na carroça!
Mesmo com toda dor no dedo, eu gostei de ficar encarapitado na carroça do mascate e desfilar pelas ruas, seguido por curiosos, rumo ao pronto-socorro de Tejipió. Eram uns dois ou três quilômetros, com gente na janela da rua principal. Fiquei famoso! Era o menino que foi socorrido pela carroça do mascate!
— Foi esse?
— Sim. É ele mesmo! sussurravam os passantes ao me ver, depois daquele dia.
Naquele trajeto, ladeira acima, ladeira abaixo, a carroça do mascate era o acontecimento do lugarejo. Eu ia ouvindo os rádios ligados nos programas de fim de tarde. A cada janela, um bolero, um samba-canção,um baião… O rádio à válvula era a sensação dos humildes moradores. “Nós somos as cantoras do rádio…” Estridente mesmo era o som das gafieiras, anunciando a programação da noite. Los Wavancos e Bienvenido Granda davam o tom e o ritmo do que se iria dançar, no salão encerado do Colônia Futebol Clube, bem na subida da ladeira.
Deveria lembrar da dor no dedo médio, (ou foi o indicador?), mas só lembro do passeio de carroça pelo Pacheco:
A casa de Mãe Alice, minha parteira e de quase todo o mundo, no bairro; a casa de Dona Nair, minha primeira professora, um de frente da outra (eram mãe e filha), no trecho mais alto da ladeira; a casa do aleijadinho com o qual eu trocava pedradas, a caminho do grupo escolar. Depois, a descida pelo Queira-Deus, o muro do Seminário Congregacional, a ponte sobre o riacho Pacheco, o largo do mercado, o pontilhão sob a linha férrea… e o SAMDU – Serviço de Assistência Médica de Urgência do Prefeito Miguel Arraes.
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Não me lembro do que almocei ontem. Mas, desse passeio de carroça aos 5 anos de idade, disso eu me lembro, e com detalhes. Né esquisito, isso?