BÁÇIRA (bastidores)

Foto por Tom Fisk em Pexels.com

Seu Pavão manda carta à produção do folhetim virtual Báçira, dizendo que nós, os “roteiristas”, não exploramos bem a questão dos minérios escondidos na serra.

Dona Miúda, como sempre, escreve o que ele dita. Por isso, tenho quase certeza que os poemas de Drummond com que ele argumenta foram ideia dela. Ficamos, nós, eu e meu compadre Carlinhos, muito tocados com a leitura que faz Drummond da mineração em Itabira. Imagine o que ele não diria, se vivo fosse, das tragédias de Mariana e Brumadinho e da triste morte do Rio Doce, na sua Minas Gerais.

Era isso que queriam realçar, os missivistas: a Báçira sempre foi alvo da cobiça das mineradoras. Se eles soubessem que há ouro no fundo do Sumetume… seria o caos.

Para não transcrever todos os reclamos de Seu Pavão, deixamos aqui os poemas da lavra poderosa do poeta itabirano e voltemos a cuidar da nossa Báçira, enquanto ela r/existe:

O maior trem do mundo
(Carlos Drummond de Andrade)

O maior trem do mundo
Leva minha terra
Para a Alemanha
Leva minha terra
Para o Canadá
Leva minha terra
Para o Japão

O maior trem do mundo
Puxado por cinco locomotivas a óleo diesel
Engatadas geminadas desembestadas
Leva meu tempo, minha infância, minha vida
Triturada em 163 vagões de minério e destruição

O maior trem do mundo
Transporta a coisa mínima do mundo
Meu coração itabirano

Lá vai o trem maior do mundo
Vai serpenteando, vai sumindo
E um dia, eu sei não voltará
Pois nem terra nem coração existem mais.

A montanha pulverizada
(Carlos Drummond de Andrade)

Chego à sacada e vejo a minha serra,
a serra de meu pai e meu avô,
de todos os Andrades que passaram
e passarão, a serra que não passa.

Era coisa de índios e a tomamos
para enfeitar e presidir a vida
neste vale soturno onde a riqueza
maior é a sua vista a contemplá-la.

De longe nos revela o perfil grave.
A cada volta de caminho aponta
uma forma de ser, em ferro, eterna,
e sopra eternidade na fluência.

Esta manhã acordo e não a encontro,
britada em bilhões de lascas,
deslizando em correia transportadora
entupindo 150 vagões,
no trem-monstro de 5 locomotivas
– trem maior do mundo, tomem nota –
foge minha serra vai,
deixando no meu corpo a paisagem
mísero pó de ferro, e este não passa.

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