O anjo flaneur (contema)

 Então o Senhor disse a Satanás: Donde vens? E Satanás respondeu ao Senhor, e disse: De rodear a Terra, e passear por ela. (Jó 1:7)

Por que são todos brancos?

Quando eu menino, tinha pavor do Coisa Ruim. Cresci e meu medo mudou Hoje, meu maior temor é dos senhores da Terra. Esse planeta azul vai sendo explorado, como se tivesse fontes inesgotáveis de recursos, a servir à ambição das elites. Nos últimos anos, o capitalismo aperfeiçoou-se e aprendeu a especular sem mais necessidade de fábricas, serviços e extrativismo. Agora, dinheiro cria dinheiro. O capital se tornou autônomo e globalizado. Eu diria que o diabo, que testou o pobre Jó, na pequenina aldeia de Uz, agora sacaneia todos os recantos do orbe. Não perdi a fé, mas há momentos em que estremeço. Tenho dificuldade de acreditar naquele anjo flaneur, a passear pela Terra e autorizado por Deus a fazer diabruras contra o pobre Jó.

Foi num desses momentos que escrevi um poema quase conto, uma espécie de contema, cujo título fala de minha renitente, mas, enfraquecida, fé cristã :

O NEGRINHO E A FÉ NO VAZIO

O negrinho favelado, magro e feio orava todo dia,
Pedia queijo e pão
Boneca pra irmã
Sapatos e um pião…
Passava o dia perambulando pela cidade,
Bigu nos ônibus, pela traseira;
Catando lixo
Cheirando cola
Batendo bola, carteiras e relógios;
Banhando-se nas fontes
Salto solto das pontes, fugindo dos meganhas.

Mas, à noite, no barraco,
Daquela Ilha-sem-fé-e-sem-arrimo,
Rezava com insistência,
Pedia a Deus clemência:
Decerto ia mudar, crescer e estudar.
Dar duro no batente,
Morar numa casa rica,
Ter uma mulher bonita e um cobertor de lã.
Que Deus não esquecesse a boneca da irmã…

Até que um dia, o negrinho foi flagrado
Fumando a erva numa esquina da favela
E angustiado, perguntava ao soldado:
Se eu rezo tanto, por que não sou atendido?
Menino besta, porque Deus nunca existiu.
Quando se reza, a gente fala com o vazio.

E o negrinho, magro, feio e favelado, nunca mais rezou.
Ficou mais magro, feio, favelado e triste.
E, dentro do peitinho desolado,
Um deus distante, surdo e mudo, inacessível,
A quem culpava por sua vida de excluído.
Mas, quando adormecia no barraco, ébrio de cola, fome e frio,
Ainda sonhava haver no céu um estranho deus:

O Vazio…

Lula Eurico

Fonte do poema:

Bóstrix N’água (romance experimental)

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