Ï(((
Como eu ia dizendo, saímos a campo aberto, indefesos e com armas primitivas e singelas . Os índios traziam arco e flecha e tacapes, as onças mostravam as garras; os passarinhos, seus bicos afiados. Todos de moral elevado e aparentemente preparados pela preleção do comandante Carlos, da Glória de Goitá.
Só não vimos Seu Pavão. Esquisito isso! Muito esquisito, mesmo!
***
[PG]
O Golem surge no horizonte.
Suas asas fazem um barulho ensurdecedor.
É um pássaro? É um dragão?
Parece furioso e decidido a atacar a Báçira.
Abre as asas e se mexe, de uma lado pra outro, no pico mais alto da montanha.
Algo acontece por lá.
Parece que ele conversa com alguém.
Há uma hesitação no monstro.
Cá embaixo, a tropa dos nativos aguarda o combate fatal!
***
[PC]
(De repente, os capangas de Seu Pavão chegam correndo, esbaforidos.)
)Ï Ï(
— Pessoal, Seu Pavão tá lá no alto. Ele resolveu negociar um acordo com a fera! Não sabemos o que deu nele!
***
[PG]
Subitamente, o Golem alça voo.
Ruge. Bota fogo pelas ventas.
Rodopia no ar.
Faz parafusos e loops, com impressionante aerodinâmica.
Mostra seus olhos de fogo e se prepara para o ataque.
***
[PM]
As mulheres desmaiam. Dona Pavoa chora pelo marido. Compadre Lula pensa em correr, mas lembra das peripécias na caverna e desiste. Doutor Carlos, serenamente, acalma os combatentes e pede para quem é de reza, reze; quem é de meditação, medite; quem é de oração, que ore. Os índios, que não sabem o que é isso, decidem pelo velho e bom toré.
***
[PG]
Numa nuvem branca, Mãe Gaia/Pai da Mata espreitam as façanhas, com um sorriso presciente.
***
[PG]
O Golem sobe até acima das nuvens e mergulha no ar, direto e reto na direção da assustada infantaria do Dr. Carlinhos! Eita! É o fim do mundo da Báçira!
Foi então que Mãe Gaia fez um aceno e a nuvem branca ficou cinzenta de chuva. Desabou sobre todos aquele famoso toró da serra da Báçira. Foi um toró sobre o toré, pois os índios fizeram finca-pé na dança e nos ritos de guerra. Bonito de se ver. Apesar dos perigos.
A Rainha dos Raios surge com seus coriscos e relâmpagos. Troveja e a terra treme! Uma seta de luz atinge o Golem em pleno voo. Ele rodopia no ar. Foi ferido no olho. Mas consegue pousar. Ergue-se do chão e ruge furiosamente para o apavorado exército dos nativos. Mais um raio flamejante o acerta no peito. Ele cai pesadamente. Uma voz conhecida sai de dentro do Golem:
)Ï Ï(
(voz no bucho do bicho)
— Socorro! Chamem um vate!
(voz de um nativo)
— Um vate?
***
Ï(((
Dr. Carlos olha fixamente pra mim. Um vate, um bardo… um poeta.
(Ï)
Eu? Eu não. Eu sou tímido feito uma criança.
)Ï Ï(
(Dr. Carlos responde telepaticamente)
Você,, mesmo, compadre. É hora de deixar de ser medroso. O poeta aqui é o senhor!
***
Ï(((
O bichão ainda estertorava no chão, quando fui me aproximando. O que é que eu iria dizer ali. Não sei meus poemas de cór.
(Ï)
— Diga qualquer coisa, homem de Deus, falou Dona Miúda, dentro da minha cabeça.
Ï(((
[“txt”]
Eu tirei forças, não sei de onde e recitei, de olhos fechados o meu poema, Sagração, que começa com um versículo bíblico:
SAGRAÇÃO
…unge a tua cabeça, e lava o teu rosto
Mt 6:17
Fiz-me ao mar de mim.
Sou um silêncio
em que se funda o mito;um mar intenso.
Fiz-me ao mar de noite.O meu nigredo. E ouço o marulhar: mistério e medo.
(Essa totalidade eu não invento.
Se estou uno, a unicidade vem de dentro. )
Ï(((
Abri os olhos e o bicho nem se mexia. Mas a voz de dentro dele disse.
)Ï Ï(
(a voz dentro do bicho outra vez)
— Outro poema. Esse não deu!
(Ï)
E agora? Ô povo pra gostar de poesia! Lembrei de outro. Fechei os olhos e mandei:
[*]

Ï(((
[“txt”]
CEIA
Assentados à mesa,
repartem o peixe mitológico.
(mil anos os espreitam das escamas carcomidas)
Mil olhos
Mil’entes
Ante a mesa posta, verbofágicos, os comedores de palavras
― ceiam ázimos
― bebem verbo
― gestam lácteas estrelas.
Vejam-me d’entre eles:
meus múltiplos eus e eu,
afiando essa faca ineffabille,
repartindo, nesse médium volátil,
Esse pães guturais…
Ï(((
O Golem se transformou num peixe-boi, com um olho cheio d’água. Parecia que chorava…
Eu então criei coragem e disse o poema final…
[“txt”]
Peso aos habitantes do Recife (antipoema trágico)
Parte I
(para ser lida aos berros)
Tudo é símbolo para o poeta.
Mas nem tudo é poesia.
Fotografar com palavras
A imundície verbal
Que emana da violência é arte?
Creio que nem os realistas soviéticos
Usaram desse grosseiro linguajar (poético?).
Contudo, se o que se espera de um vate
É o vaticínio,
Hoje vos apresento uma profecia pós-moderna,
cujas vísceras estão expostas nos jornais de ontem:
“Mais de 33 mil adolescentes
serão assassinados entre 2006 e 2012,
prevê o Indicador de Homicídios na Adolescência (IHA),
divulgado ontem pelo Governo Federal,
Unicef e Observatório de Favelas.
As cidades do Recife (PE) e Maceió (AL)
estão no topo da lista dos piores números
entre as capitais,
com 6 mortes para cada mil adolescentes.”
Ó civilização necrófila e decadente!
Até quando pseudo-intelectuais
Venderão milhares de livros com capas coloridas,
Como se descrever a ignominiosa morte
De jovens fosse a última moda em arte?
Eu chamaria isso de sado-masoquismo.
Arre!
Afagar a pereba com incenso e mirra
Não é cura para a gangrena.
Ficar a olhar para o lixo que bóia sobre
o Rio Capibaribe
Não é defender suas águas putrefatas,
em que deslizam os dejetos que nós mesmos lançamos.
Contar historietas (literárias) de assaltos em ônibus;
Documentários, ditos artísticos, de milícias do apito,
de meninas que se prostituem;
fazer kitsch com uma tropa escatológica,
e di/vulgar tudo isso em festivais com gente perfumada e feliz:
É como presenciar, indiferente,
um corpo que desaba do alto de um edifício
E seguir, com olhar abúlico, a morte certa
à velocidade de 10 m/s ao quadrado.
Estou em crise.
E crise profunda.
Em crise por uma sociedade nauseabunda
Que faz saraus etílicos
E vernissages com doces e salgados
Para expor a banalização da morte
E a nossa própria indiferença diante de tudo.
Aviso aos navegantes:
O mar é alto,
O barco está a pique e nós com ele.
Não há sequer um escaler para salvar mulheres e crianças!
Parte II (leitura silenciosa)
Se um corpo cai no mar
(E tudo aqui é símbolo)
Quem sabe mergulhar
Que salte e vá salvar
a vida que se afoga…
Assim a arte, essa sonda submarinha,
Essa antena profética,
Esse radar da intuição
Há de vislumbrar
Na noite escura dos tempos
O archote que perdemos
A bruxuleante luz dos áugures.
O que fizemos a nós?
Em que matrizes míticas
nos fundamos?
De que barro,
Nos geramos?
Que os bardos vaticinem
De que Éden nos perdemos.
Eis a única poética possível,
num mundo que estertora
Com o desamor no âmago.
…E alguns ainda me perguntam
Pra que amar?
Por que fraternidade?
N. do A.:
O que aconteceu depois de berrar esse poema, que ecoou pela serra da Báçira. fica para a próxima edição desse folhetim virtual rsrsrs
Sinalética da Báçira:
Experimento gráfico, a partir das técnicas de formatação de roteiros
(consulte o almofariz para ver a sinalética)