BÁÇIRA VIII (A ciranda)

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Ninguém solta a mão de ninguém

Uma onda diz vai, vai
Outra onde diz vem, vem
E de mãos dadas vão e voltam
Ninguém solta a mão de ninguém

Nossa ciranda, da maré é um movimento
Em tempos de isolamento a ciranda vai rodar
E vai fazer entre nós mais uma ponte
Alargando o horizonte, dos sertões até o mar

Demos as mãos, nesta roda virtual
A ciranda contra o mal, ela não pode parar
Pois de mãos dadas a corrente não se parte
Contra o ódio, viva a arte, nossa voz não vão calar

Nossa ciranda, une os republicanos
Contra todos os tiranos que estão a governar
É uma aliança entre as forças progressistas
Contra os nazifascistas que voltaram a se agrupar

E faz trincheira com os povos da floresta
Defendendo o resta, da fauna, flora e de ar
Contra o garimpo, que faz mata virar pasto
Agronegócio nefasto, que só pensa em lucrar

Nossa ciranda quer Congresso funcionando
STF julgando, cada qual no seu lugar
Sem ditadores, cala-boca, sem censura
Calabouço, sem tortura, sem exílio além-mar

Ela é maior que as muralhas lá da China
Do Wua-wuá à Conchinchina ela vai se alastrar
Como a ração, desses de tarrafa e rede
Arrastando a fome e a sede para além do lado de lá

Nossa ciranda faz a onda, faz um laço
E no mundo dá um abraço, e abraçada vai lutar
Contra o racismo, flagelo da humanidade
Pela luz, fraternidade, pelo mundo vai rodar

Dança no passo, da ciência pro futuro
Não dá mão ao obscuro, aos que negam o bem virá
E essa dança que nasceu em uma praia
Ganha o mundo, se espalha, está em todo lugar
!

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)Ï Ï(

— Vamos dançar uma ciranda! disse, de repente, o compadre Carlinhos.

Ï(((

Eu fiquei perplexo. Meu compadre, um pesquisador tão sério e circunspecto, nos fazendo aquele convite inusitado. Ademais, com um Golem voador sobre as nossas cabeças. O homem endoidou!

)Ï Ï(

(Dr. Carlos animando a tribo)

— Bora, gente! Chamem os curumins, as cunhatãs, os bichos pequenos e os bichos grandes da floresta, peixes e aves, chamem Compadre Sapo e Compadre Urubu com sua viola, A Mãe Gaia, o Pai da Mata. Vamos fazer a grande roda girar e dançar dentro da Báçira!

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Eita! pensei eu, meu amigo velho tá maluco! Mas, seria isso mesmo de caso pensado?

E era!

Ï(((

Um estudioso das jornadas arquetípicas, o nosso mitólogo de Glória do Goitá, teve uma intuição, que depois seria plenamente confirmada..

Dançamos aquela ciranda, tendo sobre nossas cabeças o voo sinistro do Golem. Mas ninguém soltou a mão de ninguém. Aprendemos isso nos tempos de chumbo. Era uma maneira de protegermos uns aos outros, nas passeatas, do sumiço dos camaradas. Se levasse um, tinha de levar todos. E os covardes da polícia política queriam fazer tudo, sigilosamente.

Esse era o motivo visível daquela dança circular. Mas, na Báçira, como já lhes disse, tudo é misterioso e diferente. Portanto, dançar ciranda, na Báçira, tinha o condão de unir o natural ao sobrenatural, o mundano ao divino, o temporal ao eterno.

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No entanto, de onde vinha aquela música de cirandar?

Ï(((

Essa junção do material ao espiritual só acontece no axis mundi, no umbigo, no coração, sim, no coração do mundo. Quando Moisés sobe o monte Sinai e a terra treme sob céus pés, soam trompas celestiais e a Divindade lhe fala numa sarça fumegante Naquele instante, o Sinai era o coração do mundo.

Pois, Báçira era o centro do mundo, enquanto a gente girava a cirandar!

Ï(((

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Uma digressão

Mas, quero lhes pedir licença e paciência, meus 13 leitores, para lhes falar de outro centro do mundo, que eu não conhecia, mas que me foi revelado por Seu Pavão.

Vocês conhecem a Várzea de Baixo?

Bem, pelo menos foi assim que a chamou o povo da Báçira, sendo a Várzea de Riba, ou de Cima, toda a bacia hidrográfica do Rio Capibaribe, de São Lourenço por diante, em direção do interior de Pernambuco.

Várzea de Baixo, gente, é a freguesia de São João da Várzea, onde moram os Brennand. Pois é na terra dessa tradicional família que, segundo Seu Pavão, existe um axis mundi. (Não se preocupem que já volto a falar da peleja contra o Golem rsrs, mas o balanço dessa ciranda me fez lembrar de minha sossegada varanda do Sítio das Quintas, nas Olindas)

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Numa tarde tranqüila, estava eu, religiosamente, folheando pela enésima vez, os Diálogos do Paraíso Perdido, desse artista telúrico, chamado, Francisco Brennand, cujo saboroso teor me vai infundindo ao espírito uma mitologia profunda e subitamente arcaica, que ele vai resgatando nessa sua Várzea do Rio Capibaribe; uma mitologia fincada na Terra, na Mãe-Terra, cujo viés ecológico vem de tempos antigos, em que ainda não havia nem essa palavra, ecologia; tempos de seu velho pai, o irascível protetor da Mata do Segredo, cujo segredo continua preservado, junto com sua fauna, flora e seus mananciais, que hoje ajudam a dar água de beber e ar puro, a essa planície salgada e sedenta, dos mangues e aluviões, a oeste do Recife.

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cavouco lago

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É da Terra que molda Brennand, os seus mitologemas de oleiro. E é sobre a Terra que nos questiona em seus Diálogos, esse Francisco, universal e varzeano:

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“(…) Será que não existe o vulcão? Os terremotos? As forças vivas da natureza? A gente pensa então que só porque anda em cima do asfalto, ou em nossas casas atapetadas, de madeira ou cerâmica, embaixo disso não é a Terra? A Terra, essa divindade antiga, com seus mistérios interiores, até chegar mesmo ao seu núcleo incandescente? (…)”

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A Terra amada e disputada, pelo que há sob o solo, pelo que vale a superfície. A Terra demarcada, a Terra marcada pelo sangue dos aborígenes, a Terra conquistada e dividida, em sesmarias, em latifúndios, em  lavras e em lotes.

Acabo de ouvir no rádio, que a Organização das Nações Unidas deu ganho de causa aos Xucurus de Pesqueira, cuja demanda judicial remonta aos idos de 1989. Agora a Terra pertence de novo aos indígenas. Mas, a que preço? Quantas mortes, nesses tristes trópicos! Cacique Chicão? Presente!

Sob os nossos pés, a Terra e suas forças subterrâneas. Na superfície, as desavenças seculares. Por ela as famílias se digladiam, se odeiam… se matam. Mesmo sabendo, há dois mil anos, que só “os mansos herdarão a Terra!” Nada disso importa, quando se mexem em marcos antigos.  A Terra é mãe, mas o seu dono é o pai, o patriarca, e, se morre o dono, levanta-se a matriarca, encarnando toda a volúpia pelo poder que a posse da Terra parece ofertar.

Toda essa gana de posse da terra alimenta os Golens, pelo planeta.

Sabedores de que as crianças do futuro podem ser diferentes, as gentes da Báçira planejam mudar a mentalidade dos povos ditos civilizados.

(N. do A.: No próximo episódio, o enfrentamento ao Golem voador vai ser pra valer! Prometo!)

Sinalética da Báçira:

Experimento gráfico, a partir das técnicas de formatação de roteiros

(consulte o almofariz para ver a sinalética)

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