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Veja que você cria o espaço em que o mundo se move, o tempo em que ele dura. Perceba que o mundo é apenas areia. Você pode brincar com ele, você pode andar sobre ele, mas não construa nele seu castelo. Não há jornada como se diz. Pode parecer que não, mas estamos sempre de volta para onde começamos. O que fomos em essência, e o que seremos em essência, é o que somos em essência. (Wu Hsin)
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A morte é apenas uma passagem. Sempre ouvi dizer essa frase, em diversas tradições religiosas e filosóficas. Tudo muito bem. Mas, quando estamos nos encaminhando pra ela, de maneira subitamente absurda, tudo muda.
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— O senhor pode escolher, Seu Lula. Nosso verdadeiro convidado é o Dr. Carlos. Mas, já que o senhor recebeu o convite, dou-lhe a chance de desistir desse ritual. disse-me Seu Pavão, no ponto mais alto da montanha.
(E, virando-se para o meu compadre, bradou: )
Pule, doutor! Vamos, pule!
Meu compadre hesitou. O abismo se abria à nossa frente. Um índio, sutilmente, lhe deu um empurrão. Ouvi seu grito de socorro ecoar pelos desvãos da serra.
— Já se decidiu, senhor Luiz?
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Prezados leitores, eu não tive coragem. Prefiro ser um covarde vivo. E, como tinha a opção da escolha, fiquei ali, atônito, olhando pro fundo do abismo.
De repente, a terra treme. E um vulto enorme se alevanta do abismo. Era o gigante, dessa vez, em sua forma feminina. Na sua destra espalmada, estava o trêmulo Dr. Carlinhos. A Mãe Gaia sorria, sua cabeleira sarará, batendo nas nuvens brancas. Colocou o meu compadre sobre o rochedo e com um gesto de mão, evaporou-se. Eu, entre aliviado e envergonhado, percebi o quanto eu era medroso.
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(Seu Pavão, que parecia ler meus pensamentos, disse, baixinho, ao meu ouvido:)
— Calma, homem de Deus, você terá outras oportunidades de aperfeiçoamento…
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E essa oportunidade não tardou. Os índios parrudos abriram a passagem da gruta da Pedra Tapada e indicaram o caminho a meu compadre Carlinhos. Ele me olhou de soslaio, pedindo socorro. Eu me enchi de coragem, lembrando da ajuda da Mãe Gaia, e adentrei a caverna. Era, em verdade, um antigo sepulcro dos sacerdotes da Báçira. Dentro dela, várias inscrições rupestres. Assim que meu compadre entrou, os parrudos fecharam a pedra, nas nossa costas.
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(Lá fora as gentes e os bichos voltaram a gritar: )
Morte! Morte! Morte!
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Preso naquele cubículo, minha velha claustrofobia foi me tomando. Meu compadre, mais calmo, viu duas camas de pedra, como as de necrotérios. Lembro que me faltou o ar e desmaiei sobre uma das camas.
O resto da história me foi contada pelo meu compadre Carlinhos. Assevero tudo o que ele me disse e dou meu testemunho de que é tudo verdade. E assim se passou:
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A Morte dos Cegos de Nascença narrada por Dr. Carlos Pequeno do Espírito Santo
Era um sepulcro aberto na pedra, ao modo dos ritos funéreos dos hebreus. A escuridão era total. A turba que gritava lá fora, de repente, silenciou. Foi então que começaram os prodigiosos eventos, que agora lhes conto.
Um vozerio. Sim, eu ouvi um vozerio. As vozes falavam das grandes civilizações, dos impérios que dominaram o mundo de então e que tiveram quedas desastrosas. Surgiram imagens na parede, como os filmes dos Lumiére, colorizados:
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1 – um sacerdote, Ur dos Caldeus, enfiando um cutelo no pescoço de uma cabra, toda branca;
2 – um galo, cujo pescoço cortado, sangrava dentro de um alguidar, diante de um altar feito de pedras:
3 – uma criança sorridente, subindo pela escadaria de uma pirâmide maia:
4 – dois bonecos de vodu, sendo espetados nos olhos.
[…]>
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Quando as agulhas perfuraram os olhos dos bonecos, senti uma dor intensa meus olhos e acordei. Meu compadre Lula também deu um pulo da cama de pedra. Abrimos os olhos e estávamos num vale paradisíaco. Um rio caudaloso corria por dentro de uma floresta tropical. Araras, bugios, onças pintadas, veados… parecia o nosso Pantanal mato-grossense. Mãe Gaia nos espiava, por detrás de uma montanha muito familiar. Sim. Era a Báçira! Estávamos numa Báçira mais profunda! As cores da paisagem eram mais vibrantes. Muitos tons de verde, vermelho-urucum, pássaros coloridos e as plantas que hoje em dia estão rareando ou extintas: araçás, gogoias, carrapateiras. Uma beleza exótica, de uma paisagem edênica, sim senhor!
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Teríamos morrido?
Seria essa Báçira, o paraíso?
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E. B. Brito
Sinalética da Báçira:
Experimento gráfico, a partir das técnicas de formatação de roteiros
(consulte o almofariz para ver a sinalética)