
1

(cena em flashback ou diálogo na jipona)
)Ï Ï( ……………… [*]
LULA
Compadre, o senhor trouxe os apetrechos para essa viagem?
CARLOS
Sim. Claro!
LULA
Cadê? Tua mochila está vazia.
CARLOS
Trouxe o toolkit orteguiano, que o compadre já conhece.
LULA
Os curvos ganchos das interrogações…
CARLOS
Quem adentra o ignoto só precisa das perguntas certas.
LULA
Mas, meu compadre, nós temos um problema: a Língua. Na Báçira há muitos dialetos.
CARLOS
Creio que a professora Miúda poderá ser nossa intérprete.

A paisagem da região da Passira está esturricada; Mas a vegetação é renitente e sobrevive, junto com uma fauna escassa e sofrida.
2

(retomando a cena da subida do morro)
… De fato, o caminho espiralado era uma engenharia dos plantadores de cana. Mas, quem nunca viu um pagode chinês no alto de uma montanha, com aquelas escadarias que vão contornando as paredes escarpadas? Tão antiga quanto as mais antigas soluções de acesso aos templos tibetanos, assim era a subida da Báçira. A Báçira, em si, era uma coisa antiga. Muito antiga…
A chuva resolveu desabar. E Dona Miúda, guiada pelos uauás, nos levou a uma fenda na rocha. Foi ali que vimos aquela inscrição:
[“txt”]
A Báçira é um axis mundi.
***
Ï(((
Meu compadre Carlinhos sacou de sua famosa caderneta de Notas do Imprevisto e fez o devido registro.
A chuva foi engrossando e já se viam os relâmpagos cruzarem os céus na noite escura.
)Ï Ï(
(Dona Miúda avisou:)
— Vamos por dentro, gente! e apontou para a fenda do Sumetume.
***
Ï(((
Foi quando vimos que a fenda era uma abertura para uma enorme caverna. Os vagalumes, agora em bando numeroso, inundavam de luz, a cavidade. O tal Sumetume era um vão estreitinho, em direção ao subsolo. Passamos, um a um, agachados. Mas, para surpresa nossa, a uns poucos metros de profundidade se abria um grande corredor, com um curso d’água, que serpenteava por dentro do morro de pedra.
)Ï Ï(
(Creio que andamos uma meia hora, quando Dona Miúda apontou para uma saída:)
— É essa! Vamos sair em cima da aldeia. Se nos apressarmos, chegaremos na hora da pajelança. Mas, eu tenho de preparar os senhores para certas coisas diferentes que acontecem nessa tribo. A primeira delas é a comunicação. Eles quase não falam. No entanto, os falantes usam o que vocês chamam lá fora de poesia. Aqui não há preocupação em ser entendido. A expressão dos sentimentos se sobrepõe à mensagem. Bem… há outras coisas. Vocês verão!
***
3
[“txt”]
A PAJELANÇA
Ï(((
Eis o morubixaba da tribo, o pajé. Faz uma saudação aos visitantes em seu dialeto, que Dona Miúda traduz como “sintam-se em casa”. Um chá foi servido em tigelas de barro. O ritual só começava depois que todos, sem exceção, bebessem todo o conteúdo das tigelas.
Eu já tinha ouvido falar da ayahuasca e de certos frutos mágicos da região. Mas, na Báçira até a epifania é diferente. A Báçira é um umbigo do mundo, mesmo.
Depois do chá, tudo se transformou. E o pajé, tomado por um espírito encantado, começou uma estranha ladainha, que Dona Miúda traduziu assim:
Há uma fogueira ancestral, no coração dessa mata!
E dança em círculo, uma gente jubilosa.
No céu, giram miríades de astros sorridentes.
Deus vela pela alegria do efêmero,
e pela festa ao instante que passa…
Sua Mão cuida das nossas órbitas.
Nele vivemos, nos movemos e existimos...
Nele, o infindável movimento circular.
Giremos, pois, nessa ciranda.
Dancemos ao Eterno fluir…
Assim seja, sempre!
***
Pura poesia! Eu estava deslumbrado. Mas meu compadre Carlinhos me chamou a atenção para uma ciranda de índios e índias albinas. Cabelos crespos e sararás. Dona Miúda levou o dedo ao bico, a nos pedir silêncio. O chá nos fazia falar alto demais. Meu compadre fez um croqui dessa ciranda, que o nosso amigo Emanuel Bezerra de Brito, lá do Crato, transformou em obra de arte.
[*]

***
Ï(((
A Báçira ia tomando corpo aos nosso olhos extasiados. E essa era só uma das surpresas. A Báçira escondia um mundo original. Dr. Carlos anotava tudo, mesmo sob o efeito do chá. Talvez, por isso, essas notas, que aqui transcrevo, mudem seu ritmo e seu tom. É a linguagem da psicosfera da Báçira.
Uma velha índia, no centro da roda de ciranda, começa a vaticinar a canção de tudo. Dona Miúda me informou uma coisa interessante. Os nativos dessa tribo não chamavam esse ritual de pajelança, mas de, INAUGURAÇÃO.
(Ï)
(A anciã sussurrava em seu dialeto, uma prosa que Dona Miúda traduziu:)
Ï(((
Há uma melodia em tudo o que se move. Uma música aleatória. Eu diria, que há mesmo um timbre subreptício no fluxo do ser das coisas, ab initio. Uma música no carreiro das formigas e das galáxias. Uma música de tudo… uma sinfonia
Desde o movimento imenso, o belo Sete-estrêlo , até o humilde arroio, em seu áspero leito.
Esse silêncio:
oiçam a débil vibração das asas de uma vespa. e uma oitava acima, o luminoso som da aurora boreal,
Os entretons da voz sonora das carambolas que ora penduleiam entre as galhas que farfalham
que espalham uma melodia.Os sons. A impressão dos sons… esse ranger de dentes, um interno trote, um galope, o coração..
A voz presa na glote, o fagote, a úvula, a uva e o euritmo da chuva.
O cravo temperado, o som das mangas verdes, em diáfanos vestidos (não vedes?)
Gravetos percutidos pelos pés. Mil setas que sibilam. E o pipilar das aves, dentro e fora.A música do agora, brilhante e bela música de uma eterna estação, ecoa consoante
desde antes, muito antes, na música desse instante.
***
)Ï Ï(
(Os dois amigos na taba, sentaddos numa esteira)
— Que coisa mais bonita! Né, compadre?
— Oxente! E apois…
Ï(((
Alumbramento. Eis de que se tratava. Epifania. Estado de poesia. Não me perguntem de onde vinha aquela prosa. Sei que estávamos num Brasil profundo e atemporal. A fusão da cultura de variados povos e de mentalidades distintas ali reinava, soberana. Uma tribo cafuza, mameluca, de corpo e de alma. Era estranho ver os seus cabelos amarelos? Não menos estranho ouvir sua linguagem, traduzida pela nossa intérprete, que sabemos, sempre floreia um pouco, só um pouco, diz ela, essa voz aborígene. Era uma INAUGURAÇÃO acontecendo diante de nós. Dona Miúda ria de nosso estranhamento. Era a encarnação da sabedoria, essa professorinha da rede municipal. Estávamos encantados, em todos os sentidos dessa palavra!
Mas a chuva sobre o telhado de sapé da grande taba, ia ficando cada vez mais forte e ruidosa. Ouvíamos trovoadas medonhas, feito estampidos de canhões antigos. Relâmpagos coruscavam sobre a mata. De repente, o chão começa a tremer. O pajé entra na taba e chama a todos pra fora. Era a hora do Grande Segredo.
A chuva foi cessando e o terremoto parou.
O que nós vimos no terreiro daquela aldeia, me faz tremer até hoje. E aquela visão me faz ter sonhos sobressaltados, pesadelos:
Do centro da terra, surgiu um gigante, um homem imenso. Em verdade, era homem e mulher. Suas passadas produziam aqueles tremores de terra. Era um deus, um encantado, uma entidade, um não-sei-quê…
Ï¥
Os nativos o chamavam Pai da Mata. Mas seus modos femininos me lembravam a Mãe Gaia. Um grande e colorido cocar se abria e fechava sobre a sua cabeça, feito um leque, um flabelo, daqueles dos cortejos reais. A surpresa maior viria em seguida. O cocar alçou voo, diante de nossos olhos atônitos. Um lindo pavão azul sobrevoou a aldeia. O dia ia amanhecendo e as primeiras luzes da manhã abriram nossos olhos. O Pavão pousou diante do pajé. Sim. Era o nosso desaparecido. Seu Pavão.
O gigante fez um gesto de mão e sumiu no ar. A pajelança chegara ao final e o Sol, timidamente, foi secando as folhas das árvores altaneiras da serra da Báçira.
Adentramos de novo à grande taba. Seu Pavão iria fazer um pronunciamento. Compadre Carlos anotou tudo isso no seu caderno de notas. Estou esperando ele passar a limpo aquela sua letra horrível, revisar com Dona Miúda e, em breve, contarei o que havia por trás do sumiço do Seu Pavão.
Sinalética da Báçira:
Experimento gráfico, a partir das técnicas de formatação de roteiros
(consulte o almofariz para ver a sinalética)
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