BÁÇIRA III (o chamariz)

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A Caminho do Céu
E. B. Brito

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Estava, outra vez, quieto no meu canto, quando o amigo, Carlos, o amanuense goité (risos) me liga no meio da noite:

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(Seu Lula conversa ao telefone com o Dr. Carlos)

— Compadre Lula, estás sentado? Se não, então sente!

— Diga lá! O compadre sabe que, depois da aposentadoria, não largo a minha espreguiçadeira.  Estava ouvindo a Voz do Brasil, mas, pode falar!

— Lembra de Seu Pavão, da Serra da Passira?

— Sim. O que houve?

— Ontem, no começo da noite, eu estava fechando as portas do Instituto Histórico, quando ouço uma voz feminina, vinda do alto de uma mangueira: “Doutor Carlos! Doutor Carlos! Aqui em cima.” Olhei pro alto e vi um mocho fêmea, uma coruja, que me pedia socorro: “Venho em nome do povo da Báçira. Carecemos de sua ajuda! O senhor poderia ir até lá? Nosso povo corre perigo e temos certa urgência!”

— Oxente, compadre Carlos. E o senhor foi lá?

— Né por isso que estou te ligando! Bora comigo! No caminho eu te conto a história toda!

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Meu compadre sabia que sou curioso, por demais. E essas aventuras fantásticas me deixam instigado. Isso, desde criança, quando vovó Joana reunia seus netos e nos fazia viajar por reinos distantes, com valentes heróis, a lutar para salvar as princesas das garras do vilão.

Não tive dúvida! Dia seguinte, lá estávamos, aboletados numa jipona, único transporte para a região da remota Serra do Abalo.

Sentem que lá vem a história!

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O misterioso sumiço de Seu Pavão

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BÁÇIRA É UM AXIS MUNDI.

(inscrição na gruta mais profunda da serra)

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Na boléia da jipona, eu me sentia como aqueles viajores de tempos remotos. A jipona era meu dromedário, meu camelo de duas corcovas. Tração nas quatro rodas, pra subir ladeira escorregadia, lamaçal, dar vau em riachos… lá vamos nós na jipona. Fiquei pensando o que eu estava fazendo ali, tão longe de minha cadeira de balanço, do meu terraço olindense, na Rua Sítio das Quintas. Que ideia maluca, essa do compadre Carlos! E eu, mais doido ainda de ter me bandeado lá das Olindas para essa aventura feita para jovens.

Para chegar à Serra da Passira, saindo da rodovia, enfrentamos uma légua de estrada carroçável. No fim da tarde, atravessamos um povoado quase deserto, escondido do mundo, com o sugestivo nome de Pedra Tapada. Ouvimos de um morador antigo que, na serra, ali pertinho, havia uma fenda na pedra, uma passagem, que fora fechada pelos aborígenes, para esconder um segredo milenar. São essas lendas que se perpetuam, passando de geração em geração, que a gente vai descobrindo pelos caminhos perdidos na imensidão desse Brasil profundo. Um Brasil arcaico, que nem aparece na história, como se a nação tentasse esconder-se de si mesma.

Tínhamos um encontro marcado com Dona Miúda, a professora. Mas ela tinha o hábito de só aparecer à noite. Coisa de mochos. A jipona só chegava até certo ponto da estrada. Dali em diante, era no expresso canelinha, como dizemos por essas bandas.

O Sol foi se escondendo por detrás da serra. Logo escureceria e o matuto que nos servia de guia, filho da terra, nos animou a apressar o passo. Queria chegar ao pé da serra, pontualmente às 18 horas. Esse era o combinado. Mas, nuvens cinzentas fizeram anoitecer mais cedo.

Chegamos numa encruzilhada. Várias picadas partiam daquele ponto do caminho. Como saber que direção tomar? Pequenos insetos começaram a experimentar o nosso sangue. Subir a serra no escuro seria difícil, se não fosse um bando de uauás, espécie de pirilampos enormes, que foram formando uma auréola à nossa frente, indicando por onde seguirmos.

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Uma voz feminina se ouviu no claro-escuro dos vagalumes, vinda da copa de uma velha árvore:

— Bem-vindos à Báçira!

— Dona Miúda! Que alívio! disse o compadre Carlinhos, olhando para uma coruja cinzenta, com um frasco cheio de pirilampos, que lhe servia de candeia.

— Sigam-me, nós vamos dar a volta nessa vertente. É um caminho mais longo, porém, menos íngreme!

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De fato, um caminho espiralado, contornava o primeiro morro arredondado da Serra da Báçira. Lembrava aquelas trilhas dos canaviais que estava acostumado a ver nas usinas da zona da mata pernambucana. Fomos subindo. Subindo. E Dona Miúda começou a nos contar o que de fato a afligia. Há dois dias que o Seu Pavão tinha sumido. Os melhores mateiros, os mamelucos, as aves da noite e até as onças já tinham dado buscas na mata e… nada! Por isso, iriam fazer uma pajelança nessa noite, para ver se os encantados sabiam do paradeiro do Seu Pavão. 

A essa altura, longe de minha varanda, nas Olindas, eu me sentia temeroso, como quem foi atraído por um chamariz. E via olhos de tocaia por toda parte. Que é que eu vim fazer aqui?

Sinalética da Báçira:

Experimento gráfico, a partir das técnicas de formatação de roteiros

(consulte o almofariz para ver a sinalética)

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