Prólogo para Autores
[“txt”]
Î(((
“A Jornada do Escritor, de Christopher Vogler, não é um mapa de caminhos para a literatura. Esta se faz sem mapas nem papas. No máximo, trata apenas de estar atento ao ensinamento do poeta espanhol Antônio Machado:
Caminhante, não há caminhos.
Faz-se o caminho ao andar.Em outras palavras, a leitura deste livro não vai transformar ninguém num artista criador.(…) Esse esclarecimento inicial não seria necessário se fizéssemos em português a mesma distinção que faz a língua inglesa entre autor e escritor. Autor tem a ver com autoria, com abertura de seu próprio caminho individual, independente e criativo, feito de invenção permanente, ruptura com moldes, desvio de padrões e modelos, fundação original, claramente na vertente da arte, em que a prioridade é dada à expressão, deixando para segundo plano a comunicação.”
Ana Maria Machado (no prefácio)
[*]

I
Ligação interurbana
>Ï<
Ï(((
Recebo um DDD, vindo do interior. É o meu compadre Carlinhos do Amparo, o arquivista hermeneuta, o amanuense das Olindas, que, a convite do prefeito eleito, Zequinha de Nóca, foi se entocar no novo, novíssimo, Instituto Histórico, Geográfico e o escambau, do Município da Glória do Goitá, como lhes falei algures. Não gosto de ser incomodado, posto que estou estudando minha nova mania: como roteirizar narrativas. E então, fico ermitão. Haja poética aristotélica, haja Joseph Campbel, meu mitólogo predileto, sem esquecer do Dr. Crippa, de Mito e Cultura, sempre à minha cabeceira. Uma viagem interior! Mas quando o compadre me liga, eu sei que é novidade da boa!
)ÏÏ(
(Seu Lula conversa ao telefone com Dr. Carlos)
— Advinha quem esteve cá no Instituto?
— Hmmm… a morena?
— Errou.
— A loira da ladeira do Amparo?
— Errou de novo! O compadre num vai acreditar?
— Quem, quem?
— Seu Pavão, da Serra da Passira!
— Foi nada! E daí?
— Veio na paz! Com seus capangas, claro! Que ele não descuida daquele rabo. Veio agradecer por meus estudos sobre o Morro do Trovão. Pediu a transcrição dos trechos de Pereira da Costa e de Câmara Cascudo. Não sabia nem ler, mas carecia das provas documentais. Disse que andava ressabiado, com o deboche dos feirantes; que não era pabuloso, – veja só! -, nem gostava de mentira e iria esfregar na cara daqueles bestas, minhas pesquisas. E, pra minha alegria, me trouxe, manuscrito em folhas de almaço, um relato fantástico sobre a Báçira. Coisa pra cinema! Senta aí, que lá vai história!
***
Ï(((
Seu Pavão me entregou o manuscrito em papel e me explicou:
)ÏÏ(
— Na feira, Dr. Carlos, não dá pra gente contar detalhes, por isso, falei com a professora primária, dona Miúda, filha de Zé Mocho e de Mãe Coruja da Serra, conhece? São dois famosos juremeiros. Bem, falei com a professora e ela escreveu tudo o que ditei. Sabe o senhor, que não sei ler nem escrever. Tenho tudo de cabeça. Dona Miúda é calígrafa, o senhor sabe o que é, né? Faz aquelas letras bonitas, que faz gosto ver, até mesmo pra quem num sabe ler!
***
[“txt”]
Ï(((
O Manuscrito de Dona Miúda
(ditado por Seu Pavão, mas floreado pela mesma)
Vamos contar tudo do começo. Do antes de tudo. E se sabe que antes de tudo havia um antes. Era o tempo arcaico, primevo, original.
Vosmecês vão entender:
Acontece que quando os humanos contam um história, esquecem que os bichos ou eram testemunhas oculares, ou participavam das peripécias.. Portanto, escreva aí, professora: Venho, por meio desta, contar minha versão dos fatos ocorridos na Báçira, que era, de fato, o lugar mais distante para eles, os invasores, não pra nós, que conhecíamos os caminhos, daqui até o oceano Pacífico. E esse negócio de fronteira só veio a existir com a chegada dos brancos. Aqui era tudo uma terra só e de todos. Gente, bicho, inseto, planta, pedra, passarinho, tudo vivia em paz. Essa tal de fronteira, esses marcos de terra, tudo isso foi o que trouxe a discórdia. Aliás, duas coisas ruins apareceram com os homens brancos: a fronteira, como já disse, e esse tal de alfabeto. Menino, a gente já falava diversas línguas e dialetos, todos poliglotas, e me chega o galego a dizer que a gente era analfabeto. Isso pode?
Pode! Quem tem pólvora e arcabuz impõe língua e fronteira.
Mas a Báçira nunca se rendeu. E eles temiam a gente de lá! Diziam que a gente comia carne humana. Mentira! Eu só como pequenos insetos. Quem danado ia querer comer um irmão das selvas? Dizem que os índios se comem entre si. Mas, só nas guerras, lá deles!
Continuando:
A Báçira tinha um segredo. Debaixo dela tem, até hoje, um vulcão escondido que torna muito difícil o acesso. Mesmo assim, naqueles dias, nós decidimos construir uma paliçada. Não foi só barricada, como eles dizem, por aí. A gente fez uma espécie de muralha de taipa. Era barro e galhas secas de árvores, encontradas no chão. Nunca derrubamos uma só planta da mata! Ninguém é doido! Sem planta a vida se acaba!
Quando a gente estava lá, no meio da construção, um mateiro veio nos avisar do deslocamento das tropas dos galegos. Eles não se contentavam em mandar na Várzea toda, desde Olinda até as terras dos engenhos de açúcar. Eles queriam os minérios da Báçira. Era isso…
Levaram tromba nas Tabocas e não aprenderam a lição. E, com a ganância do carcamano do Seu Jacob, o judeu, dono de tudo, resolveram avançar sobre a Báçira.
Ah, seu menino! A gente fechou as passagens com a distância de uma légua, para atrasar as manobras da infantaria deles. E botamos tocaias no meio do mato. Gente ligeira, feito dona Lebre, Zé Preá, gente ligeira. E, a cada passo que a tropa inimiga dava, chegava notícia na Báçira. “Tão em tal canto, ou em tal barranca, desceram pela margem do Capibaribe.” E, assim, a gente sabia de tudo.
Qual era a nossa estratégia?
Retardar a marcha deles, até chegar o inverno. Até hoje em dia se fala nas grandes guerras, no general inverno. Quem inventou isso foi o povo da Báçira! Claro que temos gente antiga por lá! Gente guerreira, que veio de um lugar chamado Samos, já ouviram falar? Bicho vive muito, professora! E o tempo também ensina!
Na Báçira tem mistérios antiquíssimos, de tempos imemoriais, que não dá para contar aqui. Um dia eu conto. ao doutor. Continuemos:
Naquele dia, lá na feira, eu só contei a cena da retirada dos galegos. Esses detalhes eu não contei. O causo iria ficar muito longo. E feirante não entende das estratégias militares e de outras coisas secretas, que só na Báçira se sabe.
Bem, chegou o inverno na serra. Só vocês vendo como é aquilo. Parece que a Rainha dos Raios está louca! Coriscos rasgam a noite! Trovões de doer na alma. Todos mundo se entoca. E o pior vem depois. Não é á toa que aquelas colinas redondas são chamadas de Serra do Abalo. Acreditem! A terra treme debaixo de nossos pés. E não é história de Trancoso não! Vá lá, em tempo de chuva. Quando vem o toró, a mata balança. Tem árvore alta que despenca. É um Deus nos acuda!
Foi por esse tempo que os galegos invasores foram chegando. Não houve luta. Nem foi preciso! A Báçira, a mãe-terra, os afugentou. Foi uma fuga geral, em desabalada carreira, ladeira abaixo, que até hoje tem soldado correndo. Dizem que foram pra Casa Forte e lá levaram outro desacerto dos valentes varzeanos. Vejam só que safados! Os galegos raptaram as mulheres de São João da Várzea! Pronto! A macharada , sem mulher, endoidou! E num instante marcharam sobre Casa Forte e tomaram de volta suas esposas e filhas. Os galegos num se emendam! Mais uma surra, daquelas! Bem feito!
Foi por isso que vim procurar o doutor Carlos, arquivista aqui da Glória do Goitá que tem tudo isso por escrito. Não gosto de mentira. Sou autoritário? Dizem que sou! Pra chefiar índio brabo, fera selvagem e o povo da Báçira, tem de ser durão. Mas, mentiroso, jamais! Conto minhas façanhas, decerto. Posso até aumentar uma coisinha aqui, outra ali, mas, mentir… Isso não!
Escreva aí, professora, a frase que eu inventei e o povo usa até os nossos dias:
“Galego de água doce, deu um peido e se cagou-se! (risos)
Assinado:
Seu Pavão, mestre-de-campo da Batalha da Báçira!
Tenho dito!
Sinalética da Báçira:
Experimento gráfico, a partir das técnicas de formatação de roteiros
(consulte o almofariz para ver a sinalética)