BÁÇIRA I – crônica de uma batalha que nem foi

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Pavão sobre o telhado – E. B. Brito

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PRÓLOGO BREVÍSSIMO

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Era a época do eraumavezífero, como dizia um outro, ou, do eraumavezmente, em que todo mundo ainda era gente. Pedra era gente, pau era gente, e, bicho então, é que era gente, mesmo. E gente que falava!

Pois bem, isso entendido, lhes conto essas peripécias:

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Seu Pavão na feira

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Seu Pavão desceu daquele monte arredondado, que os galegos chamavam Báçira, para fazer compras na feira. Vinha com seus capangas do lado, Mané Dedo Nervoso, da Cova de Onça e Zé Cascavé, de Glória do Goitá. Seu Pavão nunca andava só, pois tinha medo de seu belíssimo rabo ser roubado.

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— Sim, roubado para as festas do entrudo, aquelas macaquices dos humanos”, dizia ele, “em que se usam fantasias com penas do rabo de… pavão.

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Aquela cauda avantajada era seu orgulho, sua honra, sua distinção entre as outras aves. Ele, portanto, odiava o carnaval. E só andava acapangado.

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— Comigo, o negóço é mais embaixo!

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Na feira, aproveitou para prosear sobre a sua versão do tremor de terra, ocorrido noite passada.:

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— Foi depois daquele trovão. A casa tremeu-se toda. Dona Pavoa cagou-se de medo.

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(omitiu que ele próprio cagou-se também, como é de praxe nos patriarcas dos pavões)

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— Foi um susto grande. Dizem que foi terramoto. Mas, Zé Catinga, meu melhor olheiro, diz que foram os galegos. Ele jura que avistou as tropas do Coronel Artichau, no intento de atacar nosso ajuntamento.

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Eis que a bicharada, insurrecta, aliou-se aos mamelucos e aos quilombolas para a guerrilha. Decidiram por barricadas numa encruzilhada do caminho, à distância de uma légua da povoação. Deixaram tudo trancado por troncos secos de árvores, para impedir o acesso do inimigo pelas trilhas da mata. Foi quando veio a tempestade!

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— O barulho da chuvarada na serra, minha gente, parecia tiro de canhão! Mas num era! (explicava Seu Pavão aos feirantes.)

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O Coronel Artichau foi informado por um safado de um coiteiro que a gente da Báçira se postara em emboscada, num ponto situado junto ao Monte Miritibe (no qual monte vem dar todos os caminhos, cruzando ali, meia hora distante da aldeia de S. Miguel do Muçuí). Artichau então deixou o Sr. Jacob Stachouwer, aquele judeu carcamano que se diz o dono dessas terras todas, acampado, com um terço de infantaria e partiu, à tarde, com o resto da tropa, para atacar a gente….

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— Vixe, que medo! debochava Seu Pavão, todo emplumado.

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Ele, o Coroné, só não sabia que não se pode bulir com a terra da Báçira, nos meses das chuvas. É nesse tempo que os torós caem com força, fazendo um tal estrondo de trovoadas que parecem com tiros de canhão de grande calibre. As tropas dos galegos fugiram, pensando que a gente da Báçira respondia com artilharias.

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— Foi nossa sorte ter chovido. Pois as gentes que moram nos arredores, ficaram apavoradas e saltaram das camas, com medo. Tudo aconteceu muito rápido. Seu Zé Preá, Dona Cotia e até o maledito Carcará, vieram cá em riba, torando aço, a me contar da guerra que estava havendo na mata rala, atrás do curral grande de Seu Gregório de Barros.

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Os feirantes debochavam dessa história de Seu Pavão, que deveria ter ouvido isso de algum dos muitos cronistas da época. De fato, logo apareceria, na feira do sábado, um folheto anônimo , satirizando a tal guerra que nem foi guerra, cujo título era A famosa debandada dos galegos com cagaço de um trovão. Eis um trecho que me lembro:

Galego de água doce,

deu um peido e se cagou-se…

Na serra da Bacira,

com um trovão se apavorou-se..

Como é de todos consabido, o folheto de cordel tem o dom de tornar verdadeira a estória mais mentirosa. Que não é o caso, como abaixo lhes demonstrarei:

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2

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“Desnecessária demonstração“

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Eu mesmo fiquei muito desconfiado e não menos curioso, ao ouvir essas estórias de Seu Pavão, bicho de rabo grande e muito metido, que quando conta um conto sempre aumenta um ponto. Fui então pesquisar no Instituto Histórico e Geográfico Municipal da Glória do Goitá, onde trabalha o meu amigo, o pesquisador, Carlos Pequeno do Espírito Santo.

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Conhecedor das lendas daqueles sítios heroicos, Carlos, o hermeneuta, abriu um calhamaço e me apresentou esse interessante trecho:

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“Isolado, posto no meio da solidão como um gigantesco marco de domínio, o desenhista situou o Báçira, limite absoluto de tudo quanto se sabia, em holandês, por aquelas paragens e tempo. Johannes de Laet informa que, da casa de Gregório de Barros, freguesia de Tracunhãem, até Báçira eram duas léguas. Chama-o Monte Trovão. Ainda hoje o dizem Serra do Abalo. Esse Báçira é apenas a serra da Passira, quinze quilômetros ao sul de ŵLimoeiro, cidade a setenta e nove quilômetros do Recife.”. ( Câmara Cascudo, Luís da: GEOGRAFIA DO BRASIL HOLANDES, Livraria José Olímpio Editora, Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 1ª Edição, 1956, pp. 195, 196.)

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Não conformado, o pesquisador, Carlos, — (que não ia com a cara de Seu Pavão, cujos capangas andavam botando o apelido jocoso de, goités de Gulora, aos nascidos em nossa querida Glória do Goitá), — porém, cioso e imparcial, no que tange às questões probatórias, apresentou-me mais dois documentos de seu velho arquivo.

Um deles estava em, MELO, Mário. Toponímia Pernambucana. In: Revista do Instituto Archeologico, Historico e Geographico Pernambucano, Volume XXX, 1930, Ns. 143 a 146. Recife, Pernambuco, Brasil: Officinas Graphicas da Imprensa Official, 1931, pg. 216 , que dava conta do nome Báçira, no português arcaico, que me foi muito elucidativo, posto que:

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“PASSIRA — (Serra no Mun. de Limoeiro) — “Ant. Bacira, corr. pab-cira, extremidade polida, ponta reluzente”. (Th. S., Ns. Ms.) — A. C.”.

O outro documento, relativo aos abalos sísmicos da tal serra, estava no Volume 8, Ano 1819, de PEREIRA DA COSTA, Francisco Augusto. Anais Pernambucanos, APEJE, 1951 . Recife, p. 71, que agora transcrevo:

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“A Serra Talhada, no município do Brejo da Madre de Deus e a da Passira, no Limoeiro, pelo verão, dão enormes estampidos subterrâneos, sendo que os desta, às vezes, são tão pronunciados que abalam o próprio solo. Inculca, porém, segundo uma informação local de 1838, abundância de metais pelos indícios mineralógicos que manifesta, tendo-se mesmo nela encontrado alguma porção de minério precioso e contendo as suas fraldas pedras ferruginosas. Enfim, como escreve o engenheiro francês Luís Emílio Dombre, nas suas excursões pelo interior da província, (1874-1875) na Serra da Passira ouve-se constantemente o ruído de um vulcão subterrâneo, em que se sentem fortes abalos no município.“.

(grifos meus)

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Para concluir essa demonstração, primeiramente, peço desculpas ao Seu Pavão, posto que algum fundo de verdade havia em seus relatos. Afinal, há documentação que alude às trovoadas e aos terremotos, e, principalmente, aos minérios preciosos. Se os invasores batavos se deram mal, por conta disso, aí já é outra história. Quando vivo, o meu saudoso compadre Déda da Passira, dizia que era tudo verdade (e piscava o olho para mim). Eu prefiro acreditar no Seu Pavão, mesmo com as ressalvas que tenho ao seu jeito vaidoso de ser. Os bichos não costumam mentir, feito os humanos, mormente sobre assunto tão importante, de feitos tão antigos. No entanto, eu deixo aos meus treze leitores o julgamento final.

Entrou pela perna do pinto

Saiu pela perna do pato

Senhor Rei mandou dizer

que se contasse mais quatro.

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O monte Báçira

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Dedicado ao saudoso Déda da Passira, cavaquinista e pandeirista do Bairro dos Estados, em Camaragibe – PE, de quem ouvi vários causos de sua querida terra natal, a cidade da Passira – PE.

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FIM

Paz e Bem!

Luiz Eurico de Melo Neto

Sinalética da Báçira:

Experimento gráfico, a partir das técnicas de formatação de roteiros

(consulte o almofariz para ver a sinalética)

3 replies to “BÁÇIRA I – crônica de uma batalha que nem foi”

  1. Muito rico o texto.👏🏾 Uma fábula pra poucos, criatividade, sensibilidade e alegria na leitura. Engenhosidade de mestre. Os símbolos são de primeira qualidade. Prbs mestre Eurico👏🏾🤗📚🍀🌿

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