Notícia de El País: Vinte e um corredores de montanha morreram de hipotermia, neste domingo, 23 de maio de 2021, na China, durante uma maratona de 100 quilômetros. A mídia estatal chinesa afirmou que eles foram surpreendidos por granizo, chuva congelante e ventos fortes.
Enquanto ouço a notícia, numa dessas redes sociais de vídeo, vejo, no quintal da vizinha, o momento exato em que ela joga a água de uma bacia no terreiro. A enxurrada arrasta pequenos insetos e formigas, que são surpreendidos pela força das águas misturadas a sabão em pó.
Não há surpresa, na morte. Ela é um dado da realidade. No entanto, a probabilidade de se morrer numa montanha gelada da China, é mínima, se tomadas as precauções climáticas, meteorológicas e de apetrechos apropriados para a travessia dos cem quilômetros da corrida. Nessas mortes, não nos é dado falar de surpresa, nem de acaso.
Os insetos e as formigas não possuem, infelizmente, os mesmo instrumentos de previsão da água da bacia. No entanto, morrem do mesmo jeito. E o que dizer das aves marinhas, peixes e tartarugas surpreendidas por um grande vazamento de óleo no mar?
Nem entrarei no tema da pandemia. De tanto maniqueísmo nas redes, desnecessário ou inútil falar dessas tantas mortes, das tantas cepas, dos negacionistas e coisas do tipo.
Mortes de corredores que subiram a montanha sem os dados científicos necessários para esses esportes radicais não me surpreendem, como também, as mortes dos fanáticos que morrem asfixiados pelo vírus da covid-19.
Basta estar vivo para morrer. Nós mesmos, meus 13 leitores, podemos ser vítimas fatais de uma síncope, de um infarto, de um AVC. Vítimas fatais, mas não surpreendidas. Esse jeito de morrer está nas estatísticas, mormente dos sedentários, que nem eu. Desculpo-me, com uma desculpa esfarrapada, dizendo que atletas de ponta, às vezes, morrem do coração. Jamais esqueço de um jogador de futebol, meu colega do Ginásio Pernambucano, que morreu jogando na Ilha do Retiro, com a gloriosa camisa do meu Sport Club do Recife. Se eu morrer de sedentarismo, não será surpresa nenhuma!
E, por falar em futebol, o Náutico, que tem fama de morrer na praia, hoje foi campeão pernambucano, quebrando esse tabu negativo. E logo, em cima de meu Leão da Ilha! Deixo registrado que meu goleiro pegou um pênalti, batido de forma irresponsável pelo atacante alvirrubro, que o VAR mandou repetir. Desse jeito, não há como morrer na praia, senhores adversários!
Mas essa morte alegórica do futebol não tem, nem de longe, as características do desporto chinês, nas montanhas geladas. Os corredores morreram de morte morrida, congelados pela nevasca. Seriam negacionistas da ciência esses chineses montanhistas?
O fato é que vacilaram e morreram.
Não foram surpreendidos como as formigas do quintal da vizinha, que não tinham como prever a tragédia que sobre elas se abateria. Diferentemente, morrem, os vitimados pelo corona vírus, que não ouvem o clamor dos epidemiologistas, para fazerem o indispensável distanciamento e uso das máscaras adequadas.
E encerro esse texto, como uma morte súbita, repentinamente. Deixo aos que sobreviveram, depois da enfadonha leitura, as reflexões e os preparativos para as exéquias textuais e figuradas.
Paz e bem!
Vida longa a todas e a todos!
