Um literógrafo de semáforo

Os meus treze leitores, mui queridos e assíduos, inteligentes que são, já devem ter percebido minha adesão ao pensamento de José Ortega y Gasset, aquele da famosa frase: “Eu sou eu e minha circunstância”, frase esta, que, em verdade, é muito maior e mais profunda do que essa mera síntese, mundialmente famosa. Ortega y Gasset afirmava que “Eu não sou apenas eu, mas, eu sou eu e minha circunstância e se não salvo a ela não me salvo a mim. Reabsorver a sua circunstância é o destino concreto do homem.”

Pois bem, há outras afirmações desse pensador espanhol, que eu prezo muito. Como estas:

“Em nosso país nem a cátedra, nem o livro possuem eficácia social. Nosso povo não admite o distanciado e o solene. Nele reina puramente o cotidiano e o vulgar. Quem queira criar algo – e toda criação é aristocrática – tem que se dispor a ser aristocrata na praça pública. Eis aí porque, dócil à circunstância, fiz com que minha obra aparecesse na praça pública intelectual que é o jornal.”

Ortega se dirigia ao povo espanhol, de 1930, que em muito lembra o Brasil de nossos dias e, não por acaso, escolheu as páginas dos jornais madrilenhos como a sua tribuna. Ortega y Gasset era lido por toda a Espanha, tanto pelo acadêmico quanto pelo povão; tanto pela dona de casa, quanto pelo toureiro em seu descanso. Seus artigos de jornal eram como diálogos afetuosos, dotados de sincero “altruísmo intelectual”, expressão que usava o seu maior seguidor, Julian Marías. Sua filosofia, (apesar de ter estudado com os, quase intraduzíveis, mestres alemães), era translúcida e escrita em tom próximo do coloquial. Filosofava com a prosa amorosa dos sábios. Esse era o segredo de sua “cálida e generosa comunicação com o leitor”, como diria Kujawski, um de seus tradutores no Brasil.

Um filósofo da praça pública, era o José Ortega y Gasset. Seus livros foram compilados desses artigos de jornal, que escreveu  durante toda a sua vida.

Digamos então que, eu, Lula Eurico, poeta bissexto e inédito, nesses últimos dias de 2015, descobri a minha praça pública: sou uma espécie de literógrafo de semáforo. Bem… pelo menos, tento ser.

E foi muito curiosamente que descobri esse meu bizarro ofício. Estava em meio a um engarrafamento, dos muitos que acontecem nessa Mauricéia desvairada, quando, aproveitando a lerdeza do trânsito, um artista, montado em pernas de pau, jogava os malabares, com uma destreza que chamava a atenção dos passantes. Decerto, tratava-se de um artista de circo admirável, um equilibrista, um malabarista. No entanto, a sua arte tão genuína, não era recompensada, pois, assim que o semáforo abria, dezenas de buzinas enfurecidas apupavam seu trabalho. O homem, então, saltava rapidamente das pernas de pau e corria para a calçada, sem ganhar um tostão sequer. É dura a vida dos artistas de rua!

Desse modo, entendi que um artista, se verdadeiramente vocacionado, deve conviver com sua circunstância e sempre buscar um jeito de apresentar sua arte, a qualquer custo. Por isso, mesmo não alcançando o nível da escrita do meu filósofo preferido, que indicava a praça pública para os que quisessem levar ideias ao povo, descubro-me como sendo  uma espécie de literógrafo de semáforo, sem a habilidade, nem a destreza mental de um cronista de verdade, mas, que vem se expor, nesse blog de amador e diletante, com todo o meu afã de compreensão, que é, muito orteguianamente, tudo o que posso apresentar ao meu respeitável público.

Sou, portanto, um escritor de rua e minha rua é a blogosfera. Nada meu está impresso, nem publicado em livros. De cara pra rua, é que venho exercer a minha atividade de literógrafo, qual um malabarista do semáforo. Apresento-lhes meus textos, com esse jeito singular, de construtor que esqueceu os andaimes na obra. Eis o meu método, meu jeito de reabsorver a minha circunstância, essa minha escrita do mundo.

Fonte:

Um Literato de Semáforo

Deixe um comentário

close-alt close collapse comment ellipsis expand gallery heart lock menu next pinned previous reply search share star