Os afetos repousam numa estrutura arcaica, imemorial, no fundo da psique. Mesmo os consolidados no inconsciente coletivo, nascem das pulsões, dos recalques, dessas coisas incontroláveis e invisíveis, que, por serem tão nossas e tão arraigadas, não podemos vê-las… nem freá-las. Dizer “sociedade” é dizer desse emaranhado de afetos que se cruzam e atravessam os corpos nossos de cada dia.
Por conta disso, havia um silencioso pacto entre eles dois. Era um casal diferente, embora respeitado na vila onde residia, em Tejipió. Contidos, contritos e fechados em seu mundo, formando uma, quase perfeita, unidade de efeito, como se vivessem nos contornos de um conto tchekoviano.
Eu os observava todo fim de tarde, quando passavam pela minha calçada, abraçados, em direção do terminal do ônibus. Não se importavam com os inevitáveis sussurros maldizentes, vindos das esquinas, das janelas, das cadeiras de palhinha nos terraços, das alcovas. Sorriam, um para o outro. E que tudo o mais vá para o inferno!
Ela era bonita, na sua maturidade. Ele, um jovem bem apessoado e viril. Ambos de boa família. Ela, filha de um militar graduado. Ele, de um pastor batista tradicional.
O que neles motivava os afetos mais sórdidos da comunidade?
1 – Um pecadilho: ele era bem mais jovem.
2 – Um pecado mortal, datado e situado: ela era uma mulher desquitada, nos anos 1970, em que os reacionários estavam no poder. Como hoje em dia…
Ela se chamava Sueli.
Ele foi batizado, Eliabe.
As mulheres solteiras e virgens, (tradição da época), lançavam dardos cheios do veneno da inveja, ao vê-la passar, altiva e poderosa, com seu jovem amásio.
Ele embarcava no ônibus das 17 horas. Fazia parte da segurança de um banco estadual. Ela regressava, sorriso sereno nos lábios.
Salomé… pensavam as devotas, reafirmando a arquetípica personagem bíblica. Os maridos lambiam os beiços, suspirando pecados.
No entanto, tudo se mantinha sob os freios sociais. Tudo caminhava direitinho, coisa decidida.
Numa segunda-feira, Eliabe entra no estabelecimento bancário, taciturno, como sempre, e se dirige para a sala do cofre. Lá dentro, ouve-se um estampido.
No grande portão principal, os vigilantes mais experientes trocam olhares surpresos:
Som de 38, cano longo… Eliabe!
Na Vila dos Bancários, o povo, rebanho mergulhado naquela névoa ancestral e misógina, não conseguiu enxergar o motivo de tão extremado gesto. Alguns bovinos diziam: traição. Outros mugiam: desfalque.
Até hoje, nem parentes, nem amigos, nem ninguém conseguiu entender aquilo.
