O Pé-de-Valsa

Sempre gostei de ler revistas de sala de espera, em consultório médico. Às vezes encontramos curiosas informações, pouco usuais nos livros especializados. Enquanto o limpador de vidraças ia deixando a paisagem dos subúrbios quase translúcida, nesse 13º andar, em que se entrevia a velha chaminé da extinta, SANBRA – Sociedade Algodoeira do Nordeste Brasileiro, ali no lugar chamado Areias, eu fui lendo algo interessante:

“Contar é como criptografar. Assim, uma mensagem velada vai escondida na que se lê, em primeiro plano, como que misteriosamente entretecida, sob selo e sigilo. O hermetismo dessa mensagem oculta depende da forma de narrar ou de escrever. Mas há sempre duas estórias numa mesma narrativa.”

Conheci alguns contadores de causos, que contrariavam essa assertiva, narrando com uma clareza e uma simplicidade de água cristalina. Mormente, os contadores de causo que estão espalhados por esses sertões de meu Deus. Muitos deles, analfabetos, mas cheios de sagacidade e de uma inteligente oratória, que se aliam a gestos de mão e jeitos de voz, que tornam interessantes, as mais banais estórias contadas. Desses, nunca esqueci as anedotas, os causos de feira, as memórias breves e as façanhas de caça e pesca.

Meu pensamento viajava, enquanto o limpador de vidraças balançava em seu andaime, ensaboando com um esfregão e raspando com um rodo, a enorme janela oeste da clínica médica, cujo nome em inglês, mal sei pronunciar: Clinical Center.

De repente, o pequeno celular vibrou em meu bolso. Não entendi bem por que motivo, um meu sobrinho-neto, morador de um velho sítio, lá pras bandas de Tejipió, me enviou dois vídeos.

No primeiro, um homem e uma mulher copulavam. Seus corpos suados apareciam por um brecha da porta.

Essa juventude… Tanta coisa para se ver! Não tenho mais idade para vídeos eróticos!

Num segundo vídeo, o mesmo homem, negro e forte, transava com outra mulher, aparentemente, na mesma cama.

(A simplicidade da mobília me chamou a atenção. Pareceu-me que era uma antiga cama de molas, que era chamada Gerdau, não me perguntem o porquê. Era moda, em 1970, o uso de móveis, mesas, cadeiras e camas Gerdau. Confesso que senti o cheiro acre de semen ressecado naquela cama, subitamente familiar.)

Há muito tempo não visitava essa parte da família. Os netos de meu irmão mais velho cresceram, já eram adolescentes e deles recebia poucas mensagens. Talvez, por conta de estar sempre ocupado e não ter tempo para essas tais, redes sociais.

Abaixo dos vídeos, uma pergunta:

Lembra deles?

Forcei a vista e a memória, revendo os tais vídeos eróticos. Duas mulheres negras, com 40 anos, mais ou menos, não sei precisar. E o homem, cujo dorso musculoso e preto, aparecia em close-up, em partes da cena, os quadris em movimentos firmes e repetidos, (o que me fez lembrar de minha juventude), creio que tinha uns 30 ou 35 anos.

Mas, não lembrava dessas pessoas, de jeito nenhum!

As janelas , enfim, ficaram translúcidas e o limpador de vidraças acionou uma engrenagem que o fez subir para a cobertura do prédio. O geriatra, então, chamou pelo meu nome:

Sr. José de Melo!

O nome do médico era Dr. Aloisio. Tratava dos idosos da família Melo, desde o tempo em que seu consultório era ali, no Barro, perto do Convento da Sagrada Família. Mudou-se para o Pina, melhores acomodações, uma vista belíssima do manguezal, e, ao longe, a zona sudoeste da cidade, a velha região banhada pelo rio Teyu”piog, dos silvícolas, hoje, Tejipió.

O sítio Sicupira Torta era onde ainda moravam os meus sobrinhos netos, que, estranhamente, haviam me enviado os vídeos com a pergunta: lembra deles?

Era exatamente por conta de minha memória oscilante que eu estava me consultando com o velho geriatra. Passou-me uns remédios das antigas. Nem sei se ainda existem nas farmácias: Emulsão Schott e Óleo de Fígado de Bacalhau. Saí rindo daquela receita. Era uma volta no túnel do tempo. Será possível? Mandou-me à Rua das Águas Verdes, que o Lula, neto do famoso Sabino Pinho, poderia despachar aquela relíquia, quer dizer, receita.

Nunca me preocupei com a minha memória. Mas, por duas vezes precisei do chaveiro para abrir a porta de minha casa, exatamente por perder as chaves. Como morava só, a família insistiu para que eu procurasse o médico.

Pois bem…

Ao descer do prédio, encontrei com o limpador de vidraças.

Seu Zé de Melo! Não lembra de mim?

Sinceramente, não!

O senhor ajudou a minha mãe… E desfiou uma série de bondades que eu teria feito e que, por modéstia, não lhes vou relatar.

Fez um bom trabalho naquele andaime, meu jovem!

Esse emprego eu também devo ao senhor! Lembra da vidraçaria, assim, assim. E mais uma vez enumerou boas ações das quais eu já não me lembrava.

Em verdade, eu lembrara de Dona Odete, uma amásia que tive, excelente dançarina, uma ficante, como se diz hoje em dia. Mas, não queria dar trela ao limpador de vidraças.

O motorista de táxi, meu velho conhecido, já me aguardava na frente do prédio. Era um antigo morador do Pacheco, que, aposentado, complementava a renda como taxista.

Contei-lhe o caso dos vídeos. Ele, curioso, pediu pra ver.

Seu Zé, o senhor lembra de Dona Janaína? Lembra, sim! Foi um rumoroso caso de amor de sua juventude. Dizem que, mesmo depois de casado, ela era sua teúda e manteúda, no Pacheco. Dançava muito, aquela senhora, viu!

Fingi que não lembrava…

E ele continuou:

Creio que esses são netos dela. Filhos de Zé de Nita, chauffeur de lotação. com Nêga, filha dela. O povo diz que são teus netos, também!

Meus? Ela era bem casada, com um soldado da Cavalaria!

Ah… Lembrou, né?

Percebi que havia me traído. E tentei consertar:

Lembrar, lembrei, mas não fiz filhos nela, nem em nenhuma outra moça de Tejipió! asseverei, contrariado.

E o taxista arrematou:

Corria um boato de que havia algo horrível, acontecendo entre esses três do vídeo. Mas nunca ninguém tinha flagrado nada. Todos, tanto as duas moças quanto o rapaz, são acometidos de um leve retardamento mental. Mas são as melhores dançarinas do bairro. Havia uma terceira que virou freira e sumiu de casa. Mas dançava bem, igualmente às outras.

Mudamos de assunto. Minha memória antiga dava voltas, feito quem rodopia pelo salão do Cluhe Bela Vista, numa Tarde Cubana.

Ao chegar em casa, liguei pros meus sobrinhos-netos. Que estória é essa de vídeos eróticos pro seu tio-avô?

Desculpa, vô Zé! Foi uma brincadeira de mau gosto! É que o povo diz que são suas netas.

Sinceramente, não lembro de mais nada. Depois que fiquei viúvo, nunca mais saí de casa. Não dancei mais nas gafieiras do Pacheco, nem fui ao querido Clube das Pás Douradas, o melhor salão de dança da cidade. A idade já não ajudava . As pernas vacilavam!

Sim, e esse rapaz? perguntei.

É irmão delas… disse o meu sobrinho-neto, com voz sumida.

E desligou…

***

(Dias depois, eu morreria…)

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