Caríssimos leitores, essa história não se passa no tempo nem no espaço. Trata-se de um acontecimento verbal, que só se manifesta naquele locus do Livro dos Dessassossegos, de um certo, Bernardo Soares, personagem pessoano, que bem sabeis, cunhou a frase lapidar: “Minha pátria é a Língua Portuguesa”..
Dito isto, vamos aos feitos, ou, aos fatos, como queiram:
Corria o ano de 1963, último da fase dourada do Brasil pré-bossa nova. Estamos no arrabalde de Teyu’piog, lexia ou lexema que costumo usar para o atual verbete Tejipió, cuja sonoridade ambígua desfaz a força de sua raiz etimológica. Em verdade, provoca certa fealdade risível, ao ser pronunciada. Será, também, motivo dessa trama de palavras, a força da voz, na feiura ou na beleza. Mas, sigamos:
Portanto, estamos em Teyu’piog, no ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1963. Os mapas antigos apenas citam o logradouro em que os velhos bondes faziam o retorno, ali, no Queira-Deus, um largo que fica na margem esquerda, do pequenino ribeiro Pacheco. Busquei nos mapas mais modernos, porém, não encontrei a imagem do trecho que lhes quero apresentar como cenário desses insólitos acontecimentos que lhes vou narrar.
Havia um beco muito estreito, como aqueles que surgem em arrabaldes autóctones, ou seja, criados sem planejamento algum, com ruas aleatórias, no mais das vezes, paralelas aos cursos d’água, que, de quando em quando, buscam uma via de comunicação entre elas. Assim era o beco estreito que ligava o Coripós a Coqueiral, dois logradouros do mesmo arrabal. Rimou…
Havia, naquele beco, um chalé de esquina, com alpendre gradeado, coisa rara na época, cujo número era 221-B, como a dizer que uma outra casa existira, no mesmo terreno, com o número 221-A. No entanto, a rua adjacente, ao passar, deve ter demolido muitos daqueles antigos imóveis do século XIX, com a força que nos impõe o progresso, que a tudo relativiza, tudo: a memória, a geografia, a necessidade, e com seus tratores, vai criando essas ruas simétricas, à guisa de modernidade, higiene e beleza. Assim também aconteceu em Teyu’piog, que, vendo por esse prisma, bem merece a locução cacofônica que hoje denomina o bairro: Teje pió!
Ainda menino, eu atalhava por esse beco estreito, para ir de casa para o Grupo Escolar Aníbal Falcão, economizando uns 200 metros, na caminhada de quase meia légua, entre a Rua 15 de Novembro, onde eu residia e a Aprígio Guimarães, onde está, até hoje, a velha escola primária.
Todos os dias, via, espiando da grade, uma menina pálida, com pitós na cabeleira ruiva, os dois olhos vivos e esverdeados, buscando algo no pequeno trecho de céu que se podia ver do beco. Passei anos por ali, curioso por saber o motivo que fazia aquela menina viver presa nas grades do chalé do beco estreito. Até que um dia, a muito custo, consegui um contato com ela.
— Você não estuda?
— Não posso. Tenho dificuldade para a leitura.
— Mas, você já tentou?
— Já. Mas tenho outras dificuldades. Ando com muletas. E só fico em pé agarrada nessa grade.
Percebi uma tristeza profunda nessas palavras. E pedi para entrar no jardim da frente, para podermos conversar um pouco.
— Não. Por favor. Não. Eu sou muito feia! Basta você ver meus olhos.
E, por mais que eu insistisse, Alexia, (era esse seu nome), não me permitia chegar mais perto. Isso só fez aumentar a minha curiosidade.
Aos poucos comecei a me afeiçoar por ela. Sempre fui muito romântico, um sonhador. E cometi vários poemas aos olhos verdes de Alexia.
Sempre que eu por ali passava, deixava uma folha de caderno com os meus versos, que ela pegava com a mãozinha tão alva, que apareciam as pequeninas veias entre as falanges. Aquelas mãos também mereceram novos versos. Eu estava apaixonado.
Ali na rua 15, ficava o SAMDU, serviço de assistência médica de urgência do governo Arraes. Não custa dizer que minha família era arraesista doente. E que aquele posto de saúde era o orgulho dos seus eleitores fiéis.
— Só Miguel Arraes pra trazer esse posto pra cá! diziam, meus familiares.
Foi nesse posto de saúde que, em certo dia de vacinação, coisa que eu odiava, vi aquela menina triste, numa rudimentar cadeira de rodas. Suas pernas eram sustentadas por duas botas pretas, feito polainas, de onde saiam seus pés zambetas, um apontando o Norte e outro o Sul. Uma corcunda surgia de seu ombro direito, fazendo com que seu corpinho ficasse sempre numa diagonal esquisita. Sua boca era partida em duas, o lábio leporino.
Estávamos na fila da vacina e eu nem me dei conta de quem se tratava. Até que olhei nos seus olhos. Ela me reconheceu e, rapidamente, escondeu a boca com as mãos, deixando apenas de fora aquelas duas pepitas verdes feito jade, ornadas por duas sobrancelhas delicadas. Duas tranças ruivas, quase loiras, pendiam sobre a sua face.
— Alexia! exclamei.
Duas lágrimas desceram de seus olhinhos assustados.
A fila andou e logo ela entrou na sala de vacinação. Eu então entendi tudo. Alexia era um aleijão.
Hoje, depois de tanto tempo, eu compreendo as grades, a prisão, a dislexia, a solidão de Alexia naquele beco estreito. Uma alma doce e suave, prisioneira de um corpo disforme e fora de todos os padrões de beleza de nossa cruel sociedade.
Lembro que nos dias seguintes, não mais encontrei Alexia na varanda. Cheguei a perguntar por ela a uma senhora que ia saindo da casa. Andava doente, muito febril. Não podia sair do quarto. Tivera uma congestão, depois da vacina.
— Congestão?
Embora o dicionário diga que “trata-se de um afluxo de sangue e etc.”, eu bem sabia que aquilo era um afluxo de tristeza. A feiura deve ser dilacerante, para quem tem de suportá-la. E mesmo adolescente, eu era sensível demais à dor alheia. Eu sabia que ela não esperava mais os meus poemas. Ainda escrevi mais alguns… No entanto, outros olhos, outros sorrisos, outros lábios delicados das meninas da escola, logo tomaram posse de meus sonhos de poeta.
Anos depois, já no ginasial, ao descer do trem na estação de Tejipió, encontrei Alexia. Uma cuidadora empurrava a cadeira de rodas, vagarosamente, pela plataforma. Ela virou o rosto, como quem fita a paisagem. Não tive coragem de me aproximar.
Alexia passou muitos anos na minha mente. Era um enigma a ser decifrado, um absurdo do Criador, pensava eu. Foi por Alexia que comecei a estudar Alan Kardec e outros pensadores reencarnacionistas. Eu precisava de um justificativa para Deus, que outros credos não me pareciam ter.
Mas não foi numa sessão espírita que eu vi se dissipar toda a minha angústia com a feiura da minha musa do beco estreito. Foi numa missa. Imaginem!
A Igreja de São João, no Sancho, famosa por ter um galo no alto do campanário, fazia uns encontros da juventude. Eu vim com uma turma de jovens, representando a Igreja do Rosário, ali perto. Em verdade, eu estava em todas as religiões. E confesso que busquei as teologias, instigado pela feiura daquela menina.
Durante a missa, uma voz doce e aveludada começa a cantar, em puro latim, a Ave Maria, de Haendel. Eu espichei o pescoço, a ver de onde vinha aquela voz maviosa. E encontrei. Lá no fundo do altar, perto do Santíssimo, numa cadeira de rodas, uma moça solfejava, feito um passarinho, aquele hino à Maria Santíssima. Era ela!
Alexia, cantava feito um rouxinol! Como podia?
Já não tinha mais os lábios leporinos, que foram tratados por cirurgia. E sua face se tornara serena e luminosa. Devia ter uns 18 anos. Fiquei embevecido pela beleza daquela voz. Parecia que aquele corpo disforme servia de instrumento para a música divina que ela exalava. Toda a fealdade de seu ser sumia diante da beleza da Ave Maria de Haendel.
Naquela missa, eu aprendi, no fundo de minha alma, a relatividade de tudo. Do belo, do bom, da verdade… desses cânones arbitrários de tudo e da profunda superficialidade que jaz na interpretação das aparências, que colhemos dos padrões impostos pela cultura e pela sociedade.

Que lindooooo👏🏾Adorei a história! Lembrei de um dia em que meu pai me contou que minha avó havia lhe contado que a Loca rea esconderijo de alguns povos originários. Lá na beira do rio tinha muitos bambus e eles permaneciam por lá. Hoje a Loca é habitada por uma comunidade de Tepipió. Quantas histórias bonitas. Grata poeta 🙌🏾🙏🏾🤗🌿👏🏾😃📚🌿🌿