Bateu-me uma tristeza ao concluir a história da menina aleijada. Eu diria, um afluxo de melancolia. Uma quase congestão, no sentido figurado que dá a esse verbete o dicionário virtual. Algumas razões objetivas e outras nem tanto, me fizeram vir escrever esse pós-escrito inconveniente, talvez, até, indecente. Não esqueci do conselho do Umberto Eco, que dizia mais ou menos isso: o autor deveria morrer para não intentar fazer interpretações de sua obra. Encontrareis, por paradoxal que isso pareça, essa admoestação de Eco, nas linhas iniciais de seu Pós-escrito ao Nome da Rosa.
Creio que era do nome e não da rosa que o grande escritor italiano tratava em seu impressionante romance medievalista.
***
Alexia!
Eis um nome!
Eu deveria transcrever (copiar e colar aqui) o primeiro parágrafo de O Rouxinol do Beco Estreito. Todo o texto se resume a ele. A história em si pouco revela. Poderia dizer, se assim fora, que é uma releitura do Fernando Mendes, em uma famosa canção de sua autoria. Mas não é disso que trato.
Trata-se de exprimir de forma acessível o que para muitos tornou-se inacessível: a percepção da palavra enquanto poíesis. Explico: enquanto fabricante de sentidos, de múltiplos sentidos. E o que são os sentidos e as direções, senão, mundos novos inesperados, inexplorados.
Alexia!
Ah… esses afixos, esses radicais e desinências! Ah, essa morfossintaxe! Essas alusões, essas elisões… esse não-dito, por ser indizivel!
Abre parênteses:
(A propósito, vocês já ouviram Nua, da Ana Carolina?
Comparem com Preciso Chamar Sua Atenção, do Roberto Carlos.)
Fecha parênteses:
Como eu dizia, deveria trazer pra cá o primeiro parágrafo do Rouxinol. Mas, com certeza, alguns de vocês já clicaram lá. Como é boa a escrita digital! Um clic e lá temos o texto.
Há um mundo exclusivamente verbal, para além do mundo em que nos movemos, vivemos e existimos. E é um mundo bem antigo, que, dizem, antecede esse nosso mundo: No princípio era o Verbo!
É nesse mundo que está Alexia. Sem asas. Áptera. Prisioneira. A-prisionada entre sufixos e radicais; eis Alexia. Sua única possibilidade de fuga é pela voz. Sem sua voz, Alexia é congestão, não-fluxo, afluxo de morfemas, aglomeração de sílabas, paralisia, aleijão num beco estreito.
O beco estreito pode ser a minha, a tua, a nossa mente. Eis a minh’alma contrita em beco estreito. Por isso, Alexia canta um Haendel quase soul, espiritual, não-anquilosante, horizonte entre o mar alto e o firmamento. Céu azul visto do chão em que nos encontramos. Não queria falar de chão. Não devo. Chão é onde vive a nação. E bem sabeis da gravidade do momento. No chão há também as áspides, a peçonha, os poderes desumanos. Não. Não direi o nome do tirano.
Mas é de um nome que trato o tempo todo.
Alexia!
Fluxo, voz, harmonia entre o corpo que te agrilhoa e o infinito no qual voas.
Alexia!
Scripta manent, verba volant!
Paz e bem!
