Quando vovô Joaquim me chamou no terreiro, eu não entendi do que se tratava. Todos tinham saído pra roça e eu estava só, para cuidar do velho. Sentado na raiz da jaqueira grande, ele apontava para o prato de feijão com arroz, largado no chão, entre suas pernas.
— Num tou aguentando alevantar esse prato. Nem a culé. Vem cá, meu pretinho!
Seria a fraqueza da idade? Vô Quincas já tinha mais de 100 anos. Não tinha registro de nascimento, mas o batistério da Igreja do Rosário dos Homens Pretos, dizia:
Joaquim da Silva, nascido liberto, aos trinta e um dias do mês de Março do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de Mil, Oitocentos e Sessenta.
Ontem, completou 104 anos. Estaria tão velho e fraco, a ponto de não aguentar com o prato de comida? Estaria tísico, nosso vovô? Era um negro forte, apesar da pele enrugada pelo tempo vivido.
Não. Vovô não estava tísico!
Tentei levantar o prato e qual não foi a minha surpresa. O prato, que era feito de ágata, material muito leve, parecia pesar uns 2 quilos. Sim. Dois kilogramas! Então tentei pegar a colher de alumínio e ela também pesava mais do que o normal. Umas 300 gramas. Esquisito!
Curioso, examinei detidamente aqueles utensílios, gastos pelo tempo. O prato era o mesmo: as beiradas com estampas, uma faixa decorativa com flores azuis; a colher, era a mesma, de alumínio, amassada, pelo manuseio de décadas. Eu os conhecia muito bem, prato e colher. Faziam parte da minha mais tenra infância. Com eles, minha saudosa avó me dava papas e mingaus, em fartas colheradas, direto na minha boca.
— Faça um bocão! Tem de comer direitinho pra ficar forte e ajudar teu pai no roçado.
Quanta saudade!
Vovô estava viúvo desde 1959. Aceitara, resignadamente, a morte da esposa, companheira de lida na plantação. Morávamos num sítio, chamado de Loca. Creio que esse nome vinha de maloca e se devia à presença de indígenas no lugar, há muitos e muitos anos. Talvez, séculos. Depois virou uma espécie de quilombo. Nossa família era numerosa. O clã dos Silva. E todos trabalhavam na terra, plantando de tudo. A maior parte da safra era vendida na feira de Cavaleiro, lugar para onde vinham lavradores de toda região oeste: gente da Várzea, do Engenho do Meio, do Curado, Pacheco, Sucupira. Vinha gente até de Cova de Onça e Matriz da Luz! Tudo lavrador. Gente humilde. Analfabeta. Trabalhadora!
Nosso roçado ficava do outro lado da colina. A Loca era um baixio, um vale, a terra muito úmida e muita água mata as plantas, dizia vovó. Tinha muito olho d’água. Era a nascente de um dos muitos riachos que corriam para o Rio Tejipió. Afluentes, né assim que se diz?
Na Loca, meu avô plantou fruteiras: mangueira, abacateiro, jaqueira e um bananal enladeirado, que crescia feito capim. Sim, o cajueiro. O caju mais doce da região, que era o tira-gosto preferido dos amantes da boa cachaça.
Naquela quarta-feira, (era um primeiro de Abril, lembro-me bem) a gente estava só. Eu e meu vô. Eu andava aí por volta dos 14 anos. (Deixa ver: nasci em 1950… Isso, mesmo!) Eu era muito apegado a meu velhinho. Meus pais só me queriam nos livros. E no cuidado com vovô. E só!
Foi por isso que estávamos sozinhos, eu e ele, diante daquele esquisito fenômeno. O peso das coisas tinha aumentado demais.
— Não é nada grave, meu neto. Isso acontece de tempos em tempos. A força de Lua ou de algum astro. Mexe com tudo. Com as marés, com o crescimento das plantas pequenas. Perdi muita muda de fruteiras, por conta dessa força da Lua e dos planetas.
Meu avô sabia de muita coisa! Era neto de uns escravos libertos, cuja história um dia lhes conto. Mas vinham de lugares distantes. Do outro lado do mar. Conheciam de navegação, de marés. Na terra deles tinha um rio muito largo. E eles eram canoeiros. Lá não se sabia escrever, nem ler, mas se conhecia cada estrela do céu. Lá não havia fronteiras, como aqui também. Esse Brasil era uma vastidão imensa, em que se podia plantar em qualquer canto. A terra não tinha dono. E todos eram analfabetos porque não havia um alfabeto para se aprender.
Dizia isso e dava uma gargalhada!
Meu vô era um sábio! Hoje seria o que chamam, griô.
***
Fui lá dentro, a ver se tudo estava normal. E peguei a cuia pra beber água. Quando tibunguei a mão na jarra, dei conta do peso. Parecia que a água do pote tinha virado pedra. Veio pesada a cuia e bebi água segurando com as duas mãos. Que danado era aquilo?
Veio a tardinha e o povo não voltou da roça. Bateu a noite e eu me agoniei. Cadê meu povo?
Vovô me chamou num canto:
Vou te contar a verdade, meu neto! Eles foram pra Galiléia. Todo mundo está reunido lá! O nosso pai foi preso! O pai dos pobres! Tá todo mundo indo pra cidade. Vai haver luta!
Por que isso, vovô?
Você ainda não entende, pretinho! A gente só quer trabalhar na terra, viver em paz. Mas os grandões, os fardados, eles pensam que a gente quer as terras deles. Bem, eles dizem que é deles. Tanta terra nesse mundão de meu Deus…
E nosso povo foi fazer o quê?
Por essas horas, deve estar todo mundo na rua. É coisa de muita gravidade, pretinho. Muito grave! Com Pai Arráia preso, o que será de nós?
Eu não entendia nada, nadica! Pensava que meu vô estava caducando. E, sentindo o peso da água do pote, crescendo no meu bucho, senti medo. Muito medo!
E meu avô, murmurava:
Muita gravidade! Muita…
A madrugada do dia 02 de Abril chegou. E a notícia veio a cavalo.
O Exército acuou a marcha dos camponeses. Quem insistisse em entrar na cidade iria levar bala! Teus pais estão voltando! Aguenta firme, Pretinho. Cuida de vovô Joaquim!
O mensageiro esporeou o cavalo e partiu. Percebi que a poeira não cobriu a porta de casa. A terra estava pesada! Nem a poeira subia!
Gravidade! Muita gravidade…

Que maravilha 👏🏾👏🏾👏🏾Chega da gosto de ler. Adoreiiii. Esses lugares fazem parte de.minha infância e quanta memória afetiva oriunda dessa narrativa. Prbs poeta👏🏾Tudo muito bonito. Odara🌿🙌🏾📚😃👏🏾❤️