Encontrei, dia desses, o famoso araque de polícia da Delegacia de Tejipió, cuja alcunha era, o Mago. Mago de magrém, magreza. Não, de magia. Talvez, magro de ruim, de ruindade, com a vênia dos magros bondosos, que sei que há, e que são muitos.
Cruzamos, eu o Mago, na Estrada Velha do Engenho Curado. Ele não me reconheceu. Eu era apenas apenas um adolescente, naqueles anos de chumbo. Passou rente a mim, na mesma calçada, andar de urubu malandro, chapéu de banda, feito Oxossi e uma jovialidade espantosa. O mesmo bigodinho fino, naquela tez morena avermelhada, de mestiço de negro com índia. Devia ter uns 80 anos, talvez menos. O terno branco, mesmo que surrado, ainda lhe dava a elegância de outrora. Nas suas incursões da inteligência policial, era de praxe frequentar as gafieiras do Pacheco: o Centro e o Colônia. Pé de valsa, o magrão. E afamado namorador, cuja lábia envolvia, desde as moçoilas sapecas e incautas até as mais pundonorosas matronas, dos salões de salsa e merengue.
***
Reencontrar aquele policial de araque, ou seja, falso, lambe-botas, puxa-saco, que eu creio deva ter sido integrado à Polícia Civil, por bons serviços prestados ao regime militar, me fez lembrar fatos um tanto tristes, mas heroicos. Um heroismo anônimo e popular, que não foi estampado nas revistas, livros e jornais da esquerda, simplesmente, porque… ninguém sabia.
Pouco se sabe do que acontecia nos subúrbios, nos sítios distantes, nas favelas, durante o cerco feito pela ditadura aos mais humildes, às pequenas associações de bairro, clubes de mães, ligas de dominó. Principalmente, depois do AI-5. Ninguém podia se reunir, nem para um carteado, dois dedos de prosa na esquina. Eita, tempo difícil!
Estrada Velha do Curado: piso de terra, postes de madeira, com lâmpadas incandescentes. Uma vila popular em construção, para os bancários. Ideia que remontava ao Estado Novo, mas que, em 1963, ainda estava no acabamento. A vila foi erguida sobre um campo de futebol. O campo do Arranca-toco. E os tocos arrancados eram das árvores centenárias, ceifadas do resto de mata Atlântica, que por ali resistia.
Estrada Velha do Curado e adjacências. Ali reinava o Mago, araque de polícia, com mérito reconhecido pela DOPS. Em verdade, era uma dupla: o guarda Wilson e ele. Dois zé-ninguém. Até que sobreveio a ditadura.
Dê poder a uma pessoa e você saberá o seu verdadeiro caráter. Empoderados, Wilson e o Mago eram o pavor dos moradores de Tejipió. Nem falo do X-9, que era de um nível mais alto. Servia ao CCC e foi suspeito da morte do jovem Padre Henrique Pereira. Essa dupla era mais da ralé. De invadir barracos miseráveis, de oprimir o povão.
É público e notório e de todos consabido, que as delegacias de bairro eram o braço executivo dos agentes da ditadura. Cheias de xeleléus, que de tudo faziam para agradar os oficiais dos quartéis do Exército da área. Qualquer boato ou fofoca de bairro, eles chegavam, inventando subversões, farejando comunismo… Bastava que um vizinho quisesse prejudicar um inimigo, para delatar mentiras sórdidas, que à época, rendiam desde alguns bolos com palmatória até o famigerado pau de arara. Lembro do pobre estudante secundário que teve de explicar a posse de uns romances de Jorge Amado. Imaginem! Pois, Terras do Sem Fim e Seara Vermelha eram motivo para oitiva na delegacia de Tejipió.
Outra prática da inteligência policial do nosso araque era se imiscuir no carteado, nas mesas de sinuca e outros jogos de mesa. Foi assim que se aproximou da Liga de Dominó da Estrada Velha do Curado. Perdia mais do que ganhava. Os velhinhos dominavam os torneios e davam carroçadas e buchudas, a torto e a direito, no agente infiltrado. Mas, o finório sabia perder no jogo e exibia simpatia e cordialidade. Mostrava o mesmo sorriso entredentes, com o qual, dizem, torturava os suspeitos nos fundos da delegacia, que ficava num sobradão soturno, ali, ao lado da velha estação ferroviária.
Certo dia, vieram prender Seu Honório, cujo erro foi propalar que era comunista, pelos quatro cantos do lugarejo. Era nada! Proprietário de uma vila de casas alugadas, na Rua Tupinaré, mão de vaca, chato de galocha. Vivia de renda. Não podia ser comunista com aquela avareza. Podia?
Lembro que em certa noite de Serra Velhos, deixamos um boneco de Judas, feito com tronco de bananeiras, encostado na porta de Seu Honório. O pobre levou um susto danado. E disse uns impropérios contra aqueles jovens alienados, burgueses malditos! Éramos apenas moleques de rua.
O que Honório era, de verdade, e nós todos também? Eleitor do Miguel Arraes. Arraesistas, sim! Comunistas, não! Ninguém nunca tinha lido os calhamaços de O Capital. Sequer tinham folheado o Manifesto Comunista.
Mas algum vizinho fez chegar aos ouvidos do Mago essa história de comunista. Levaram o pobre Honório e de tardinha ele voltou, botando sangue por todos os buracos do corpo. Uma tristeza!
Depois desse dia, a Liga de Dominó passou a ser observada pela dupla de agentes civis. Mas nós tínhamos amigos lá dentro. Era o Leocádio, o nosso homem infiltrado. Esse, um verdadeiro militante do Partidão. Clandestinamente, claro, nos avisou que eles viriam dar uma batida.
Logo cedo, queimamos as atas e os panfletos. Alguns dos nossos arribaram. Figueiredo fugiu pro Caiara, casa de parentes. Elias de Melo e seu sobrinho, Emerson, sumiram por uns dias.
Eles vieram.
Eram quatro. Um oficial, um sargento e dois praças, um deles era o motorista.
Desceram da viatura verde-oliva. Um Jipe 58, que apelidavam de “bodinho americano”, herança da segunda guerra mundial. O oficial aproximou-se da porta da venda, em que funcionava a Liga de Dominó. Foi então que, num repente, Seu Manoel Pereira, ex-combatente de Monte Castelo e patriota ferrenho, dono do estabelecimento onde funcionava a Liga, cobriu-se com a Bandeira Nacional e, de braços abertos, postou-se à porta principal e bradou, a plenos pulmões:
– AQUI NINGUÉM ENTRA! NÓS TAMBÉM SOMOS BRASILEIROS!
Vocês não avaliam com que orgulho lhes conto isso. Essa é a história feita pelo povo, pelos anônimos. O que hoje eu chamo de intra-história. E era mesmo. Quem sabe quantas façanhas como essa, aconteceram nos arrabaldes do Recife, nas vilas, nos engenhos distantes, nos sítios?
O povo humilde, a poeira, tentou defender o Governador Arraes, mas, a medo de canhões…, desistiu.
Rever o Mago, vivinho da silva, carregando seus pecados com tanta leveza e com aquela aparente saúde, caminhando pelo bairro que um dia aterrorizou… Sei não. A justiça de Deus tarda e muito…
***
Meses depois, numa mesa de bar, em que se reuniam os amigos das antigas, contei desse reencontro com o Mago. E foi com espanto que soube que o Mago morrera há mais de 30 anos. Dele não tem mais nem os ossos. Morto e enterrado. Temos certeza! disseram-me os amigos.
Mas, como assim?
Era ele. Eu o vi com esses olhos que a terra há de comer!
Dona Jurema, proprietária do bar, afeita aos mistérios do catimbó, pediu licença para revelar uma coisa que ouviu nas quebradas. Acredite quem quiser. Mas, segundo Elias Guedes, famoso pai de santo do Pacheco, o Mago baixa nas suas sessões e se apresenta como um malandro, dançarino, à busca de suas amantes e muito contrariado por não ter um corpo físico para fazer suas incursões pelas gafieiras e pelas alcovas. As ciganas e as pomba-gira o adoram. Só aparece em dia de festa no terreiro. É o que dizem…
O araque virou entidade. É mole?
Malandro é malandro, até no céu. Mas, esse alcaguete deveria estar bem preso numa cela do astral inferior.
***
Beijo nas damas, abraço nos cavalheiros, como diz o meu nobre confrade, Jens, jornalista lá dos Pampas, conhecedor desses causos curiosos e vermelho por dentro e por fora, torcedor que é do glorioso Colorado.

by Eugênio Paxelly
Quantas dessas histórias estão ocultas por aí né mesmo cumpadi?! Porém com maestria e sapiência fizestes emergir das profundezas de tua mente essa maravilhante crônica. S.cobtar com tantas maravilhantes que estão nesta roda de Palavras. Prbs poeta 🙌🏽🌿👏🏾
Gratidão!
Impressionante como as suas histórias transita entre o imaginário e fatos. É maravilhoso se deleitar na leitura das suas crônicas. Parabéns!!!
Gratidão. É por aí. Ficção entremeada pelas vivências. rsrs