Em conversas virtuais, nesses meetings re-descobertos pela quarentena, tenho chamado a atenção para o fato de que Teyu’piog não é uma crônica, no sentido conhecido da palavra. São arranjos memoráveis, exercícios mnemônicos, compilados de entrevistas informais e conversas peripatéticas por esse arrabalde tradicional, a meio caminho de Jaboatão. Nessa espécie de conto à clef tentarei ajudar a curiosidade da Dra. Zsuzsanna Spiry, estudiosa da presença húngara no Brasil, que, na blogosfera, mais propriamente num blogue ligado às estações ferroviárias, deixou um questionamento sobre a visita ao Recife, na primeira metade do século XX, de um certo Galbór Molnár, escritor e naturalista magiar.
Desconhecido no Brasil, Molnár teve relativa fama como escritor, em sua terra. Tendo perdido a visão, o que lhe impedia de tratar dos resultados das pesquisas de sua expedição amadora à floresta amazônica, dedicou-se a fazer relatos, não isentos de certa visão pitoresca e exótica das suas incursões pelas nossas matas virgens. Sua obra principal Kalandok a Brasílíai Öbserdöben (Aventuras na Selva Amazônica), é uma mescla de descrições de pesquisas como naturalista com curiosos causos imaginários.
A cegueira, em Galbór Molnár, guardadas as proporções, resultou no nascimento de um grande escritor, mais ou menos, como se deu na vizinha Argentina. com o célebre Jorge Luis Borges.
Consta que esse escritor húngaro esteve cá, no bairro de Tejipió, durante o governo Vargas. Não encontrei ainda documentação de sua passagem entre nós, que deve ter sido bastante breve, posto que seu destino era o norte do país, a Amazõnia. No entanto, é notória a hospitalidade dos intelectuais e cientistas pernambucanos, e, creio eu, devem ter dado uma boa acolhida àquele sábio dos montes Urais, que nutria uma intensa curiosidade pelo Brasil, um novo mundo nascente e desenvolvimentista, mas ainda quase desconhecido naquela Europa, dos anos 1930.
De fato, sobre nosso país, segundo alguns estudiosos, quase nada se encontra na enciclopédia húngara, A Pallas Nagy Lexicona, além de um verbete, Brazília, que pouco descreve, além de selvas inóspitas e feras tropicais. Os mesmos estudiosos e críticos literários afirmam que essas feras encontraremos às dúzias, num verdadeiro bestiário fantástico, na obra do nosso Gabór Molnár, naturalista e romancista, apaixonado pela imensidão verde de nossas florestas.
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Esse bestiário exótico não era de todo desconhecido do povo de nosso arrabalde, sempre às voltas com a herança mítico-religiosa dos silvícolas que aqui habitaram, como lhes contei em Teyu’piog.
Descobri isso, quando, mais uma vez, levado pela curiosidade, fui à busca dos pioneiros do bairro e dei de cara com o nonagenário Seu Alfredo, mascate. Morava na mesma casinha, ali, na descida entre a Rua 13 de Maio e a Avenida Central, nome dado à linha férrea Recife-Jaboatão. Aliás, ao que parece, antes de mascatear pelos bairros da zona oeste do Recife, Seu Alfredo foi ferroviário e trabalhou na administração da Great Western (1904-1950), depois Rede Ferroviária, onde se aposentou. Dele ouvi notícias de certa expedição de biólogos, experts em insetos e répteis, que andavam por aqui a caçar pequenas mariposas do mato, borboletas e libélulas, que voejavam em profusão, à boca da matinha de Tejipió e redondezas.
Como o senhor os conheceu?
Aposentado e ocioso, eu costumava passear pela mata. Conheço, desde menino, as trilhas escondidas, usadas, pelo que dizem, pelos primeiros habitantes, os indígenas. Certo dia, topei com a expedição, um mateiro, meu conhecido e um intérprete.
Seu Alfredo anotara tudo, minuciosamente, por não saber o idioma daqueles estudiosos, numa caderneta, que ainda guardava num velho baú. Estava lúcido, o nosso saudoso mascate. E pediu aos parentes que lhe trouxessem certa pasta, que estava em tal e tal canto do quarto de hóspedes, etc., etc.
A pasta, que o tempo e a umidade já tinham coberto pela pátina e pelos fungos , guardava desenhos estranhos, com legendas não menos estranhas, formando um álbum cujo título era, Bestiário de Teyu’piog. Dentre outras, pincei essas notas, que abaixo transcrevo:
- viziboa-kígyó: serpente d’água, descrita como animal repulsivo;
- phosphorescent batraquio: sapo de pele fina e quase transparente, com uma uma coloração verde fluorescente, também chamado de cururu luminoso, cujo canto era similar ao dos tenores da ópera húngara. (sic);
- teyu’piog: pequeno lagarto, amarelo-esverdeado, que era um predador voraz de cobras peçonhentas;
- pepsis formosa: vespa caçadora, cuja picada é considerada a mais dolorida do planeta, também chamada, cavalo-do-cão;
- zigoptera (odonata): ziguezigue, libélula e outros nomes populares, como cabra-cega e etc.
- belbellita (lepidoptera): borboleta preta e amarela, que segundo, os místicos protegem a casa do mau olhado, mas é a pior praga de jardins de que se tem notícia.
- Blattodea troglóbia brasileira: animal repugnante, momente para as senhoras e senhorinhas. Trata-se de uma barata com cabeça de formiga, que provocou medo e asco nos pesquisadores. (N. do A.: atualmente é chamada de político de extrema-direita e também dá nojo nos homens e mulheres inteligentes.)

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Dezenas de pequenas aves, insetos e flores exóticas, faziam daquele caderno de notas do velho mascate, uma obra raríssima, que hoje me arrependo de não ter, pelo menos, fotografado. É que, depois de sua partida para a pátria espiritual, como sempre fazem as viúvas com as coisas dos de cujus, tudo o que era dele foi pro lixo ou foi incinerado.
Era um bestiário exótico, posto que, ao que parece, aqueles pesquisadores estavam tomados pelo deslumbramento com esses verdes trópicos.
Decerto, em artigo do professor Ferenc Pál, tradutor da obra do poeta Fernando Pessoa para o húngaro, é citada essa atração pelo exotismo brasileiro, na literatura austro-húngara do século passado, que, segundo ele, “são romances que se movem no universo similar à literatura de cordel” como em A Brazíliai Fenevad (A Fera Brasileira) de Tibor Magyar, ou no livro de contos Villanó feniék az öserdö nílyén (Luzes Cintilantes no Fundo da Selva) de certo Mihály Witte. Em todos, ainda segundo o articulista, há muito desse exotismo, tão caro ao público europeu.
Ferenc Pál também cita o nosso romancista cego, Gabór Molnár, “que, em expedição pela selva amazônica, perdeu a visão num acidente”. Regressando à Hungria, o nosso naturalista abandonou a Biologia e dedicou-se a criar um umwelt ficcional: pensava numa biossemiótica dos humanos, baseada na vida social das aldeias remotas e das pequenas povoações à margem do grande rio Amazonas. Gabór Molnár “com seu estilo vigoroso e vivo” fez a Europa imaginar histórias rocambolescas, em sua grande maioria, misturando as suas vivências de pesquisador com o imaginário e a inventividade, tão comum nos deficientes visuais.
Eu insisto, que também pesquisei às cegas, e esse relato não deve ter poucos devaneios estilísticos e imaginários. No entanto, deve-se à imaginação popular, grande parte do que hoje é o nosso legado cultural. Não é pela voz dos trovadores medievais que conhecemos aquele Velho Mundo de antanho, com suas donzelas e seus cavaleiros andantes? Não é o Quixote, um relicário de aventuras inverossímeis? E o que dizer do nosso, brasileiríssimo, Romance da Pedra do Reino?
Por tudo isso, essas crônicas de Teyu’piog, aos poucos, vão sendo urdidas, em um novo universo, que, em muito se deve à “cegueira” intelectual desse cronista diletante e ao ócio criativo, tão propício à imaginação, desse período de distanciamento social, que já se alonga tanto, nesse Brasil sem governo e sem vacina, que, antes fosse governado por cegos, que anelassem ver, do que por esses fanáticos, que, vendo, não acreditam na tragédia que se abate sobre a nação.
Obs.:
Dizem que as baratas sobreviverão ao fim do mundo. Serão insetos, os nossos governantes?
Paz e Bem!

Fonte: Recife de Antigamente
Maravilhoso texto! Fiquei aqui imaginando o caderninho do Sr. Alfredo.
Seu Alfredo era um prestamista de Tejipió. Virou personaggem. rsrsrs Gratidão!